9.1.13

Talento, pianos, Ronaldo e Lobo Antunes



A discussão sobre talentos é sempre uma coisa que mexe connosco, mesmo que não seja do nosso talento para algo que se trate. Numa primeira fase, de um ponto de vista racional, a coisa é simples e parece relativamente fácil distinguir quem tem talento de quem não o tem numa primeira avaliação em que tenhamos algum conhecimento na matéria.

Errado.

Mesmo nas considerações e avaliações básicas de talento, embora seja aparentemente mais fácil ver quem tem ou não talento para determinada coisa, existem inúmeras variáveis, potenciais e não só que podem gerar julgamentos errados.

No entanto, não é sobre este nível de avaliação que vos quero dar uma palavrinha.

Quando me falam em Messis e Ronaldos, sem entrar na história de troféus e “eu é que sou o campeão lá da rua”, eu penso numa história de talentosos pianistas de conservatório. Em tempos idos, era eu um tipo respeitável, tive a oportunidade de conhecer um gajo que estudara piano no conservatório e com boas notas. Hoje em dia, no entanto, era alguém que se destacava numa área profissional completamente diferente.

Um dia contou-me a história do porquê de ter mudado de área, apesar de continuar a gostar imenso de música, tocar piano e afins. Dizia-me ele “Eu estudava horas e horas e tocava ainda mais horas e horas para ter as notas que tinha. Não estava em causa o talento que tinha, nem o gosto que tinha naquilo que fazia. Contudo, tinha ao meu lado tipos que conseguiam ter as mesmas notas que eu, melhores até se fosse preciso e tudo lhes parecia sair com menos esforço, o talento podia ser o mesmo, mas o deles dava menos trabalho. Até que um dia, sem qualquer mágoa, decidi ver se havia algo na vida para o qual eu também pudesse ter talento, mas em que tudo me saísse de forma ainda mais natural”.
Felizmente, encontrou esse algo.

A expressão em inglês, que vai além do talento natural e que a mim me faz sentido para descrever este tipo de talento é “effortless talent”. Tal não implica que não haja trabalho pelo meio, mas o caminho para lá chegar é que parece ser mais fácil e é aí que, sem entrar em detalhe, entram o Messi e o Ronaldo. O talento sempre esteve lá, não há volta a dar mas no Lionel, mais do que em Cristiano, tudo parece mais natural e isto não serve para diminuir o segundo que, para mim, também está na estratosfera do talento.

E então, recompensa-se a máquina de treino, o talento natural ou não há resposta óbvia? Creio que pessoas são pessoas e seja em que área for, goste-se mais de um ou de outro, quando o talento é equiparado, a personalidade ajuda a fazer a diferença e aí, o Ronaldo está sempre mais sujeito a levar por tabela do que o Messi. Por exemplo, entre Saramago e Lobo Antunes, sem prémios e talentos a distinguir o que quer que seja, sempre fui menos propenso a ler livros deste último por não ir à bola com a personalidade do escritor. Obviamente, isso não torna o Saramago melhor, apenas reduz a minha benevolência para com o segundo.

E agora vou usar o meu effortless talent para dizer baboseiras noutra freguesia.

2 comentários:

  1. De acordo. Mas Messi é estraosférico, Cristiano é o melhor terráqueo.

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