17.1.13

O problema de: "Recusar coisas"


Pode parecer estranho mas grande parte das pessoas que conheço (e possivelmente das que desconheço) tem na sua cabeça um chip sociológico que as impede de recusar algo, por isso lhes parecer sinal de má educação.

“Parece mal dizer que não” é o princípio de jantares que não correm bem, participações em projectos que dão para o torto, queixas de “eu já sabia que isto ia ser uma m”#$da” no pós-oquequerqueseja e tudo mais e um par de botas.

Na minha forma de ver as coisas, na maior parte dos casos, as coisas que geram mal estar têm uma propensão muito maior para acontecer depois de não se recusar algo que, mesmo que parecesse “mal”, teria um impacto muito menor numa primeira instância. A vergonha de recusar algo, de não querer dizer não impõe-se muitas vezes à premonição certa de fazer algo que não queremos e é isso que eu não percebo porquê.

E nem que me venham com a história de “é preferível sermos nós a engolir um sapo no lugar de desapontar os outros”, continuo a acreditar que uma boa parte das experiências ao longo da vida nos ensinam que se estamos sempre a pôr aquilo que realmente queremos em segundo lugar, um dia quando vamos à nossa procura já não nos encontramos.

Já existem tantos aspectos da nossa vida em que por vezes não temos o controlo que queríamos, seja porque não nascemos ricos, porque a nossa saúde não nos permite ou porque o destino não está do nosso lado e depois, quando chegamos às partes em que efectivamente podemos dizer sim ou não, vamos pelo contrário daquilo que queremos, porque temos comichões sociais.

Saber dizer “Não” não tem sequer que ser um cenário que tem que acontecer apenas quando “é preciso”, mas sim quando vai ao encontro do que realmente desejamos. Não nos torna negativos, crápulas ou piores do que os outros, torna-nos apenas mais honestos connosco próprios.

E a honestidade, por vezes hoje em dia, é confundida com má educação.

15 comentários:

  1. Eu concordo em absoluto com o teu texto, mas o problema é que a maior parte das pessoas não pensa assim, e quando dizemos que não, interpretam como sendo uma grande afronta. Eu digo algumas vezes que não. Mas admito que são bem menos do que as que desejaria.

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    1. Uma coisa é respeitar os outros, outra coisa é pensar pela cabeça dos outros e não pela nossa. Qualquer pessoa normal, já encheu um chouriço, se não pior, para não ofender alguém ou só por ser "chato" recusar, a questão nem é essa. A questão passa por fazer disso um hábito/regra e depois passar a vida a lamentar não ter feito o contrário...

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  2. "...continuo a acreditar que uma boa parte das experiências ao longo da vida nos ensinam que se estamos sempre a pôr aquilo que realmente queremos em segundo lugar, um dia quando vamos à nossa procura já não nos encontramos."

    Disseste tanta coisa mas quando li esta frase, as lágrimas saltaram, foi assim que alguém perdeu a namorada eterna e os seus dois filhos, costumo dizer que o seu maior defeito é não saber dizer não, para tal deixava sempre as pessoas que mais ama em 2º lugar porque esses estavam sempre lá, até que um dia...

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    1. Não era minha intenção fazer do texto uma arma de arremesso, sei perfeitamente que há quem sofra na pele as piores consequências do que descrevi. Se possível, gostaria que isto fosse visto mais como um alerta, porque também sei que muitas vezes falamos de coisas que se passam a um nível de subconsciente...

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    2. há algo de subrepticiamente corrosivo no não saber dizer não... é verdade... eu, definitivamente, tenho que treinar essa competência

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  3. vantagem de um gajo ter mau feitio, é que já toda a gente espera o "não", e ficam muito mais satisfeitos quando ouvem "sim".

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    1. O mau feitio também é um direito :)

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  4. Aprende-se a dizer não com a idade. isto em havendo alguma dose de autoconfiança.

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    1. Em parte isso é verdade, mas mais se calhar na autoconfiança do que na idade, pois em gerações anteriores havia ainda um maior conformismo a situações de frete/fica mal dizer que não/pois, tem que ser assim...

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  5. True story!
    Como é um texto grande é difícil de o gritar ao mundo de uma rajada só, mas numa versão concisa, era ideal que se o fizesse já!

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    1. Dá-me para escrever à bruta e assim não respeito o fôlego das pessoas :)

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  6. Tens razão e isso chateia-me um bocado.

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    1. Até a mim me incomoda tal facto...

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  7. É uma questão de educação e de sobrevivência. O homem é um animal social, como tal tenta integrar-se sempre que possível, muitas vezes sem ter consciência disso. Crescemos a evitar o "vai parecer mal" e somos recompensados "quando nos portamos bem". É psicologicamente mais fácil, dizer que sim a quase tudo, para evitar conflitos, do que dizer não e de ter de explicar porquê.

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    1. Sim, a solução que mais facilmente se encaixa no perfil social genérico é sempre mais prática, mas nem sempre a que nos é mais conveniente, de um ponto de vista pessoal.

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