28.12.12

Então e agora?


Agora vamos por aí fora, olhando para trás mesmo que digam para não o fazermos, não porque queiramos voltar, não porque não queiramos olhar em frente, mas porque às vezes olhar para trás é a melhor maneira de saber qual o melhor caminho a seguir.
Não nos vamos lembrar da passagem de ano, porque já nem sequer nos lembramos do ano ter começado e se lá mais à frente tivermos que parar, que seja a melhor paragem do ano. E depois? Depois continuamos a continuar.
Não nos vamos preocupar se isto faz sentido, é certo que não faz, mas o facto de algo não fazer sentido não nos obriga a voltar para trás.
Não nos vamos esconder atrás das incertezas, procurar os melhores obstáculos e ligar o GPS em linha recta para as dúvidas. Se quiserem, eles que venham ter connosco que lhes damos o arroz, mas só se não nos fizer falta.
Não vamos ter tempo para ler isto duas vezes e pensar que há coisas que só se percebem quando só as lemos apenas uma vez.

O tempo vai passar por nós, mas não vamos ter tempo para o cumprimentar, acenamos-lhe só de longe. E se ele perguntar para onde vamos, a resposta é óbvia, vamos por aí fora.





(banda sonora moderninha que, ouvida enquanto se lê isto, poderá causar expressões hipsters)

27.12.12

O Natal já acabou mas ainda não saímos da mesa

-->

Na minha família há uma tradição que, apesar de poder ter sido inventada neste preciso momento pela minha pessoa, se repete todos os Natais como uma espécie de exorcismo. Quando nos sentamos à mesa com o pretexto de celebrar a época, só nos levantamos quando estiverem feitos todos os ajustes de contas e resolvidos os ligeiros desentendimentos que surgem ao longo do ano entre familiares que, muitas vezes, só têm em comum o facto de serem da mesma família.



As regras são simples: para intervir o membro da família deverá usar um argumento alimentício para iniciar a conversa, podendo depois derivar para o tema que lhe interessa. Poderão apenas intervir os familiares mencionados, devendo para o efeito utilizar também um elemento alimentício na sua resposta. Caso não seja incluído na conversa, poderá apenas esboçar um ar envergonhado ou fazer de conta que não ouviu nada. Poderão existir conversas paralelas, desde que sejam sobre temas diferentes e, caso oiça o seu nome citado numa conversa paralela, o familiar em causa poderá fazer um aparte, desde que o mesmo seja normalmente desprovido de sentido e sirva apenas para criar atrito.



Eis um exemplo simulado, com nomes fictícios, isto porque nunca se sabe e alguns familiares podem efectivamente saber ler:



Tio Justino: Olha, podes passar-me o vinho tinto?

Sobrinha Ermelinda: Tenha cuidado tio, olhe que é verde e pode ser amargo demais para o seu fígado.

Tio Justino: Ora Ermelinda, de certeza que não está tão amargo como a tua mãe, a ver pelos comentários que anda a fazer em relação ao divórcio da tua prima Felisbela.

Mãe da Ermelinda: Oh Linda, já devias saber que para o teu tio nunca há vinho demasiado amargo nem copo demasiado cheio. O vinho está para ele como os homens estão para a tua prima.

Prima Felisbela: Não se preocupe comigo Mãe da Ermelinda, nem com os homens da minha vida e passe-me a língua de vaca por favor, isto se conseguir estar calada durante alguns minutos.

Sobrinha Ermelinda: Deixa estar Felisbela, eu passo-ta, mas se quiseres provar a cabeça de leitão, é só esperar que o teu pai acorde e a tire de cima da mesa dos doces.

Avô Firmino: Eu conheci um tipo chamado Leitão na tropa, um homem a sério, ficou com uma placa de metal na cabeça, mas foi porque teve de ser, coisas da guerra colonial, não é cá esses pricings como os que o meu Neto Norberto tem. Ó Filho Zé Carlos, o que é que andas a ensinar ao miúdo, queres que ele cresça como o teu irmão Justino?

Zé Carlos: Deixe lá estar o mdo Avô Firmino, ele pode ter piercings de metal na orelha e na sobrancelha, mas de certeza que vale menos que o metal que anda a pôr na carteira daquela sua mulher-a-dias brasileira...

Avó Celeste (do lado da mãe, não é a mulher de Firmino, que é viúvo) – Bem, arranjem lá espaço para eu pôr o peru na mesa.

Neto Norberto (irmão de Felisbela, primo de Ermelinda, o que tem pricings de metal na cabeça) – Olha, olha, o peru assim de pernas abertas parece mesma a Ermelinda quando eu a vi lá no miradouro da Sra. da Boavista, dentro do carro do Tozé do Talho.



(Chega o peru, pequeno intervalo para constrangimentos diversos e silêncios incómodos)



Como no Natal ninguém tem horas, a duração destas refeições-debate-lavagens-de-roupa-mais-ou-menos-suja é imprevisível e, tal como nos casinos, se decorrer num ambiente sem luzes naturais poderá estender-se durante vários dias. Tanto que vos escrevo ainda em directo da mesa, de onde posso vir a sair apenas no fim de ano ou, se isto correr bem, quando alguns dos mais velhos tiverem que ir receber suporte clínico. Até já.

21.12.12

Ainda cá estamos


Não obtive qualquer resposta ao meu post anterior, felizmente a Maya também não telefonou, estamos a chegar ao fim da tarde e do apocalipse nem sinal. O que não invalida que ontem à noite, à conta do fim do mundo, muita gente possa ter tido sorte...

A premissa de um fim apocalíptico tem sempre as suas nuances positivas. 



Excepto se o fim do mundo, à nossa imagem, também goste de deixar tudo para a última.

17.12.12

Carta aos Srs. maias do fim do mundo

Exmos. Srs. Maias,

A vossa preguiça em comprar um calendário novo levou-vos a determinar o fim do mundo para antes do Natal, mais precisamente 21. Não querendo eu comentar o facto de isso, a par da crise em Portugal, não ter desmotivado em nada a correria a certas superfícies comerciais, queria no entanto solicitar a título pessoal alguns esclarecimentos adicionais.

Primeiro que tudo, gostaria de saber se a coisa já tem hora marcada, uma vez que tenho planos para a hora do almoço, para o fim da tarde e até para a noite, alguns deles envolvendo conciliação de agendas e esforços de comunicação. Um fim do mundo marcado para as 11 da manhã simplificará tudo o resto, mas um fim do mundo às 21h15m implicará adiantar o jantar uma hora, para que não corra o risco de desaparecer antes de chegar a sobremesa.

Em segundo lugar, seria interessante saber se a coisa se processa como no fim de ano, com os nossos noticiários a mostrarem à hora do almoço os melhores momentos da destruição do Oceania e termos o conforto que sermos dos últimos em quase tudo nem sempre ser mau sinal.

Finalmente, caso o fim do mundo seja adiado ou cancelado no geral por algum motivo, gostaria de saber se pelo menos se que a coisa se pode manter para aquela senhora da televisão que usa o vosso nome, a Maya. Sei que pode parecer um triste consolo, mas sempre seria uma forma de trazer alguma paz às manhãs da televisão portuguesa.

Como é óbvio, agradeço resposta antes de dia 21.

Cumprimentos,


Mak

13.12.12

O drama é mais fino que o humor


Gosto de ler, gosto de escrever, mas não sou um perito em literatura. Mesmo que não tivesse consciência disso, felizmente tenho à minha volta pessoas cujo trabalho e cuja dedicação tornam o seu saber nessa área gigante em comparação com o meu. E isso é bom porque neste tipo de coisas é mais fácil “crescer” quando os que nos rodeiam são maiores que nós.

No entanto, isso não me impede de ter opinião sobre aquilo que leio e aquilo que gostaria de ler. Enredos dramáticos, pesos pesados no coração, reflexões profundas com um fundo negro, tudo isto é fácil de encontrar em doses monumentais, especialmente nas alas bem cotadas do mundo literário. Por outro lado, se é verdade que no geral não faltam bons livros com uma vertente de humor, alguns deles mesmo muito bons, tem-me sido difícil encontrar escrita contemporânea de autores portugueses com toque de humor inteligente que não caia na comédia de costumes ou na junção de crónicas, compilações e afins.

Quem estiver devidamente informado na matéria que faça o favor de se chegar à frente mas, se a minha ideia estiver correcta, nas hostes literárias o humor é encaixado com um valor menor face ao drama e sendo a oferta menor, a base para encontrar qualidade também se torna mais reduzida e isto é um ciclo que se perpetua.

Que não se confunda a escassez do tema, com a falta de qualidade, existem vários autores portugueses a escrever bem e a botar obra cá para fora. Mas, em boa parte dos casos, com enredos a pender para o drama e para o lado mais “apetecível” aos olhos da comunidade literária. E atenção eu não acho que a escrita de humor tenha de ser algo levezinho e meio tonto, é tudo uma questão de perspectiva.

E agora, desmintam-me que eu agradeço.

12.12.12

O grande regabofe do meio dia e doze de hoje

-->

Adoro datas especiais e por mim deviam haver 31 meses, que assim sempre eram 31 anos seguidos com gente atenta e particularmente encantada por números idênticos que se sucedem no calendário. Se esta medida fosse aceite, os dias passariam também a ter 31 horas, primeiro porque o que não falta é gente a queixar-se que 24 horas não chegam para fazer tudo o que têm para fazer num só dia e em segundo, porque o efeito é muito mais espectacular quando fazemos uma filinha de  números todos iguais e aquilo significa mais do que um código de barras de uma lata de atum.



Além disso, ficaríamos todos instantaneamente mais jovens com anos de 31 meses, por exemplo no meu caso nem quinze anos teria e a única coisa chata é que algumas coisas que faço hoje em dia seriam ilegais com essa idade.



No entanto, não quero ser egocêntrico, aliás publico este post antes das doze e doze do dia doze do doze do doze, para não estragar a catarse que vai ser olhar para o relógio e ter um verdadeiro orgasmo mental quando tudo estiver como é suposto. A indústria das frases motivadoras precisa de mais momentos assim, os gráficos, os powerpoints e os jpegs de grande sapiência de calendário agradecem a reprodução destes momentos e as redes sociais ficam mais pobres quando não temos momentos desta elevação disponíveis.



Aliás, nem quero pensar no descalabro que vai ser quando perguntarem a alguém no dia 31 do 31 do 31, às 31 e 31, anos depois desta medida ser aceite, “Ouve lá pá, o que estavas a fazer no dia em que surgiu esta grande ideia, a doze do doze do doze, às doze e doze?” e a resposta for “Eish, se bem me lembro, estava a ler um post idiota sobre uma proposta para alterar o calendário”.



Não se metam nisso e façam algo memorável como eu que, para além de já estar a escrever este post todo nu com um cacho de uvas na cabeça, me preparo para celebrar esta data, hora e momento, correndo como vim ao mundo à volta da rotunda do Saldanha.



Se é para ser memorável e causar acidentes, vamos lá fazer as coisas como deve ser.

8.12.12

O Tom Sawyer corria descalço, eu ainda não

 

No meu imaginário vive uma recordação específica dos desenhos animados do Tom Sawyer, em que ele corria paralelo ao rio, sem ténis nos presuntos, com um barco a vapor ao lado. Lembro-me de pensar que nunca poderia fazer isto porque não era nada fácil encontrar barcos a vapor.

Hoje em dia continuo a pensar que não se encontram barcos a vapor em qualquer esquina, mas pelo meio das corridas todas que faço existe o projecto de um dia correr descalço. Não vai ser tipo promessa, para acabar com os pés feitos em carne picada, mas tenho vindo a encarar essa hipótese e lido sobre o assunto.

Possivelmente, o primeiro passo será comprar uma espécie de ténis que simulam o correr descalço que, não sendo propriamente ténis, são mais uma capa protectora. Depois logo se vê se chegamos à fase Tom Sawyer, pelo menos em prova.

Para amanhã, na MeiaMaratona de Lisboa, que dá direito a passar pelo centro da cidade e a chamar nomes pela subida toda da Almirante Rein, ainda vou em formato pseudo-corredor normal e a pensar no divertido que é correr só 21kms num percurso em que o ano passado fiz 42.

Caso sejam entusiastas da modalidade ou de sofrimento dominical matinal, podem estar atentos ao dorsal 3365 algures no percurso Santos-Algés-C.Sodré-Almirante Reis-Alvalade. E se assobiarem a música do Tom Sawyer à minha passagem, pelo menos vou saber que vocês sabem do que eu estou a falar.
 


6.12.12

I Love Arquitectura e o que estiver a dar

Infelizmente, morreu um grande arquitecto e morreu também uma grande figura ligada ao jazz.
Surpreendentemente, hoje descobri via redes sociais que conheço uma catrefada de malta com grande devoção pela arquitectura e sentido entusiasmo pelo jazz.

Mal posso esperar pelo desaparecimento de um grande físico nuclear ou de um xadrezista de renome, para ser surpreendido novamente...




4.12.12

Pares

-->

Para aquele tenista português, o fim de carreira estava à vista. Não podia dizer que fosse uma carreira repleta de êxitos mas pelo menos tinha viajado pelo mundo inteiro e conhecido muitas pessoas interessantes, algumas das quais tinham até acedido a subir ao seu quarto sem ser a troco de dinheiro.

Mas agora, aqui estava ele, no terceiro set do qualifying de um torneio secundário nos arredores de Paris, o seu último torneio, anunciado sem pompa nem circunstância no seu perfil das redes sociais, que tinha agora 178 amigos, muitos deles colegas de profissão, poucos com o estatuto de amigos não virtuais. A notícia não fora grande surpresa para os poucos que se tinham dado ao trabalho de saber mais acerca disso, afinal de contas já passava bem dos 30 e o corpo começava a ceder tanto aos esforços do desporto, como aos excessos extra-ténis a que nunca se tinha negado.

Escolhera Paris porque tinha sido aí que 17 anos antes, durante um torneio júnior o tinham considerado a grande promessa do ténis português e o facto de se chamar Sebastião tinha mais tarde contribuído para cerca de cem trocadilhos nos jornais desportivos sobre o facto da sua carreira ter desaparecido no nevoeiro. Tinha também sido aí que mais tarde conhecera Goran Subotic, um croata meio louco, que chegara a estar no top 100 mundial antes de decidir fazer uma pausa de três anos para se lançar como vocalista de uma banda de hippie-metal. Com Goran tinha jogado anos a fio na vertente de pares, tendo como melhor resultado umas meias finais em Bratislava e uma bebedeira épica novamente em Paris, que acabara com ele a mijar para o Sena perante o ar incrédulo de três polícias.

Goran que, tal como ele, nunca se dera ao trabalho de aprender muito mais do que um inglês macarrónico era, simultaneamente, seu parceiro na versão de pares deste derradeiro torneio e seu opositor em singulares e, até ao momento, tinham proporcionado perto de duas horas do pior ténis que o circuito profissional tinha para oferecer. No entanto, ao nível da troca de galhardetes, piadas de circunstância e habilidades falhadas, estava a ser  um jogo em cheio. Estavam no tie-break, Sebastião precisava de concretizar o seu serviço para continuar em jogo e os trinta e oito espectadores presentes rezavam para que aquilo acabasse depressa, incluindo o seu treinador e a sua mãe.

Sebastião pensou como teria sido se alguma vez tivesse pisado o court principal de Roland Garros. O barulho da multidão a puxar pelos jogadores durante os períodos de descanso, o pó de tijolo nas meias, o nome dele no topo do placard, mas tudo isso não passava de uma miragem, de um pensamento que durava os segundos que demora a bater uma bola no chão antes de servir.
Atirou a bola ao ar, o seu corpo a efectuar uma rotação que conhecia de olhos fechados e concentrou toda a sua força num só movimento, a raqueta a disparar a bola a uma velocidade de bala. A bola foi forte, mas a colocação foi pobre e Subotic não teve dificuldade em responder-lhe para os pés, apanhando Sebastião de surpresa e obrigando-o a devolver a bola para a rede, onde bateu no topo, assemelhou-se a uma cena de um filme do Woody Allen por uns segundos e caiu sem qualquer brilho do seu lado.

Quando deu por si, Sebastião estava de joelhos na terra batida e a sua carreira em singulares fazia parte do passado. Goran saltou por cima da rede, estendendo-lhe o braço para o ajudar a levantar. Tinha tantas coisas para dizer, mas naquele momento tudo parecia irrelevante e aquele braço estendido era a única coisa que parecia fazer sentido. Agarrou-o, levantou-se e sacudiu o pó, enquanto se ouviam algumas palmas esbatidas, enquanto o árbitro assinalava o resultado final, com Goran a sair vencendor.

Este, vendo o ar ausente de Sebastião, abraçou-o efusivamente dando-lhe um beijo na testa, levantando-lhe o braço para saudarem juntos o público, enquanto lhe dizia no seu inglês macarrónico, misturado com o português que já aprendera:

“Well, we’ll always have pares”

Sebastião sorriu e pensou que, mesmo que apenas por mais um jogo, contra uma dupla composta por um cipriota e um turco, a história da sua vida como tenista não acabava ali.



Esta pequena alucinação faz parte de uma cunha metida aqui pela PeanutOakPrint, uma simpática loja online de posters de malta portuguesa com jeito para a bonecada. Eu não estimulo a minha criatividade e eles aumentam o tráfego na loja para aí em duas pessoas. Tem tudo para resultar...

3.12.12

Sedução cota e uma fatia de sericaia



Cenário: Almoço de confraternização a favor de uma boa causa.
Elementos em jogo: 85% de gente com 50 anos ou mais (desses, mais de 50% teriam mais de 65 anos), eu e alguns elementos que se refugiaram na mesma mesa por não termos placa.
Vim mais tarde a verificar que, fora o staff, era o único cromo masculino com menos de 40 anos.

Cena: Por altura das sobremesas, pelas quais alguns idosos estão dispostos a lutar ferozmente (o que reforça o poder curativo das sobremesas), vejo-me na condição de um mano a mana pela última fatia de sericaia. O meu bom senso faz-me dar primazia à senhora, uma “louraça platinada” maquilhada a rigor na casa dos 60 e muitos. Eis quando se dá o diálogo:

“Tire, tire a fatia minha senhora que eu escolho outra coisa. O que não faltam aqui são coisas boas.”
“Ah pois, eu sei e olhe que eu já disse na minha mesa...”
“Desculpe, disse o quê?”
“Que não havia muitos homens novos, mas que na sua mesa tiveram sorte que ficaram com o mais jeitoso...”
“Ehhhrr...pois, eu se calhar vou ali escolher uma frutinha...”
“Bem bonito, sim senhor e educadinho...”
“Ehhhr...então bom apetite...”
“Oh, oh, então não!”

Foi nessa altura que corri para a mesa e preparei-me para me defender com alguns talheres. A minha sorte é que, pela avaliação dela, a sua visão estava longe de ser perfeita.

À saída, a dois braços de distância, piscou-me o olho. Quero acreditar que era Parkinson mas aproveitei o treino de corrida e saí lançado sem olhar para trás.

2.12.12

De tão diferentes às vezes somos tão iguais



Ontem fui sair à noite, beber um copo entre amigos e arejar um bocadinho depois de um mês de Novembro que foi um autêntico circo de actividades. Como um dos sítios a que costumamos ir estava fechado para obras, dei por mim a ir marcar tempo a uma espécie de associação/colectivo alternativo com música, poetas modernos e zona lounge com ar meio trendy, meio sindicalista.

Como cada um só vai onde quer, até aí tudo bem, mas ao fim de um bocado uma das pessoas que estava comigo disse-me “Já viste, este é um espaço diferente, mas dentro daquele diferente que atrai um certo número de pessoas iguais”. Ao início, pensei que era o Moscatel a bons preços a falar pela minha companhia, mas depois comecei a olhar e constatei alguns factos que lhe davam alguma razão.

Três em cada quatro gajos tinham bigode ou barba e boa parte deles vestia aquele casual artístico que roça o conceito “Deitei-me com esta roupa, levantei-me e depois saí com ela”. As mulheres seguiam também a linha alternativa, mas com mais algum aprumo. Curiosamente, este ar semi-artístico intelectual contrasta com a maior parte dos gadgets/smartphones, muitos deles de última geração.

Há um padrão e quando se sai à noite, como as pessoas vão muitas vezes para os mesmos sítios, o padrão vê-se mais facilmente e o alternativo passa a mainstream. E o engraçado é quer se seja hipster, freakster, etc e tal, quando se assume os códigos do grupo, nota-se que o “ser diferente” não é bem o mesmo que “parecer diferente”.

Quanto ao meu padrão também vale o que vale. O meu gorro e o meu casaco quentinho aproximavam-me talvez mais dos arrumadores da nossa praça. Com a diferença que possuo talvez mais dentes próprios.