28.11.12

A verdadeira história do galo de Barcelos



Há muito tempo que a ASAE medieval andava de olho naquela churrasqueira que só sobrevivia à conta de ser a favorita de um juiz que roçava a obesidade mórbida. Na realidade, dado o seu diâmetro, roçava em quase tudo, mas isso agora não interessa.
Na noite dos fatídicos acontecimentos que a “falsa” lenda descreve, quando o acusado foi levado a casa do juiz, já a ASAE medieval preparava uma rusga para mostrar a conivência do juiz, embora estando nós na Idade Média, ninguém soubesse muito bem o que queria dizer conivência.

Quando o galo cantou, depois de 45 minutos nas brasas, o choque causado no juiz teve mais que ver com a entrada em cena dos agentes Morais e Soromenho, que apreenderam de imediato o galo que, pelas bonitas cores que podemos ver já nunca devia ter estado num prato, isto apesar deste insistir dizer que tinha um primo na delegação da ASAE que podia explicar tudo. O juiz teve uma epifania, coisa que ninguém também soube explicar muito bem o que era, embora alguns dissessem que parecia um AVC e fundou o primeiro Biggest Loser medieval, que na altura tinha um formato muito simplificado que consistia no conceito “Gordos a perseguirem virgens e a matarem-se uns aos outros com espadas na esperança de emagrecer”.

Já o galego, que muitos dizem ter sido absolvido, foi obrigado a pagar as custas do processo e quando tentou alegar jurisprudência para não pagar, levou um enxerto de porrada à moda antiga, porque ninguém sabia muito bem o que era jurisprudência mas era o que mais faltava um galego a usar palavras caras para nos dar um calote.




Esta pequena alucinação faz parte de uma cunha metida aqui pela PeanutOakPrint, uma simpática loja online de posters de malta portuguesa com jeito para a bonecada. Eu não estimulo a minha criatividade e eles aumentam o tráfego na loja para aí em duas pessoas. Tem tudo para resultar...

26.11.12

Estúpidos hábitos sobre concertos




Regra idiota – Se já vi o concerto de uma banda no seu auge, um grande concerto e não algo que fique apenas bem dizer aos amigos que foi bom e começas a ter dúvidas sobre o desempenho/estado actual da banda resisto sempre à tentação de voltar a vê-los ao vivo.
Foi assim com Depeche Mode e com Smashing Pumpkins e até agora não me arrependi. Também já arrisquei, mas com alguma segurança, tendo visto Rage Against The Machine para aí com 10/12 anos de intervalo e saído de lá satisfeito da vida.

Se isto é científico? Longe disso, é uma pequena superstição minha, coisa que não me impediu de já ter visto Ena Pá 2000 / Irmãos Catitas milhentas vezes ao vivo e ser aí surpreendido pela sua capacidade de inovar ao nível de decadência e abordelamento. A incoerência é como a música, há para todos os gostos.

Quando a crise chega ao presépio

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Baltazar, Belchior e Gaspar acabaram de ouvir as notícias na rádio e depois de Baltazar o desligar, fez-se silêncio durante alguns minutos.
“O burro e a vaca...” Belchior olhava pela janela para um pasto lá fora “Quem diria...eu por acaso sempre pensei que se alguém fosse despedido daquela maneira seria o José.”
Gaspar e Belchior olharam um para o outro e suspiraram, quando Belchior abusava do incenso seguiam-se sempre belas teorias.
“Então vejam lá se não é assim – o puto a bem dizer tecnicamente não é dele e à Maria dava muito mais jeito um burro para as deslocações e a vaca para a alimentação. Além disso, sendo carpinteiro o Zé certamente que se safaria noutro sítio. Assim, cortaram subsídio de transporte e de alimentação à família e ficam todos a arder...”

“Sabes como são os patrões...” Baltazar tentava cortar ali a conversa, enquanto dava uma pancada no GPS Estrela do Norte que tinham comprado numa loja do chinês e que insistia em falhar de dois em dois quilómetros.

Belchior não se ficou pelos ajustes “Sei, sei...está um tipo lá no Vaticano, carrega num botão e lá se vão dois postos de trabalho à vida. E nós, todos os anos a fazer esta viagem, a carregar as mesmas coisas, com cada vez menos condições. Tínhamos camelos e caravanas, agora temos um Clio de 92, que nem sequer a gasóleo é. Vendemos o ouro ao António Sala para termos dinheiro para o combustível em ida e volta e já só temos camomila e cidreira para dar ao baby Jesus, porque a ervanária onde comprávamos mirra foi à falência e agora abriu no mesmo sítio um spot que vende cogumelos mágicos...”
Gaspar voltou-se para trás, tentando disfarçar o nervosismo “Então e o incenso, tínhamos um daqueles de Paz&Amizade e outro de Fortuna, eram para aí 12 pauzinhos de cada...”
“Jovem...ao preço que o tabaco de enrolar anda, para não falar no outro, o que achas que lhe aconteceu?” Belchio fez com as mãos o sinal de que algo se tinha desvanecido em fumo.

Anunciava-se uma discussão entre Gaspar e Belchior, quando Baltazar interveio mostrando o telemóvel – “Pessoal, calma lá, recebi agora uma sms do Sindicato dos Animais e Figuras Representadas no Presépio. Parece que vai haver uma manif contra o trabalho precário e a redução de investimento no presépio. O que acham?”

Novamente, alguns minutos de silêncio. “Bem, eu acho que em Belém não vai haver nada de novo...” Belchior foi o primeiro a avançar “Além disso, o miúdo nunca liga nada às prendas, o José tenta sempre impingir-nos uns souvenirs de madeira e não há quem aguente a Maria a falar de arcanjos, de que se calhar o miúdo devia já ser matriculado num infantário para crianças dotadas, etc...Que me dizem, vamos?”. Gaspar estava a utilizar a calculadora do telemóvel “Bem, tendo  em conta as despesas que não nos pagam em combustível, se formos à manif ainda nos sobra dinheiro para ir comer uma bifana no regresso, a que distância estamos no GPS Baltazar?”

Este último deu mais um murro no GPS, antes de travar e parar o carro na berma – “Bem, na verdade não vos quis assustar, mas com este GPS que comprámos, há mais de hora e meia que andamos aqui às voltas deste lugarejo medonho e não há forma de encontrar o acesso à estrada secundária que nos põe a caminho de Belém. É que com este calhambeque e o nosso orçamento nem pensem que me ponho na autoestrada. Eu ao lugar da manif sei lá ir ter sem ter que ligar esta trampa, por isso vamos lá”.

Arrancaram decididos e só meia hora depois é que Gaspar se lembrou de algo “Esperem lá, e o que é que dizemos à malta lá em Belém?”. Belchio sorriu e colocou-lhe uma mão no ombro “Não te preocupes, já lhes enviei uma SMS, daquelas muito giras a dizer que este ano o Scolari vai a caminho do presépio sempre a dizer “O burro sou eu”, que a Voz vai escolher uma tipa da casa para fazer de vaca e que de tanto apertar o cinto os Reis Magros não tiveram forças para ir comprar presentes”.

Olharam uns para os outros, riram às gargalhadas e aceleraram no seu Clio de 92, rumo à manif da bicharada.

24.11.12

A chuva e a criatividade



Olho lá para fora e vejo este dia como um simpático paralelismo com o meu ritmo de vida nos últimos tempos. A água é um bocadinho como as milhares de coisas que tenho tido para fazer e eu, apesar de apanhar com elas em cima estou longe de olhar para cima e pensar nisto como o fim do mundo.

O curioso é que, nas últimas semanas, tenho estado em contacto com pessoas das mais diversas formações, ambições e posturas perante a vida e, estando eu longe da vontade de ser filósofo de trazer por casa, posso dizer que a criatividade é uma força muito interessante e que joga de forma interessante com os mais diferentes ambientes na vida de uma pessoal, seja no campo pessoal, profissional ou, estilo sandes, mista.

Para mim, que estou habituado a lidar com ambientes criativos numa base diária, é algo que se torna parte do quotidiano e estranho bastante quando, por alguma razão, me vejo fora desse ambiente. Fujo do rótulo de “criativo”, porque acho que criativos todos podemos ser nas nossas vidas, vejo-o mais como uma faceta daquilo que faço.
Mas, quando de repente estou num círculo em que a maior parte das pessoas, por oposição ao cinzentismo da vida diária, “sugam” todos os pequenos momentos em que existe alguma criatividade, abraçam todas as actividades que possam ter uma pinga de criativo e, mesmo tendo a noção que em seguida voltarão à rotina do quotidiano, se deixam maravilhar por coisas que eu, num dia normal, encararia sem grande ânimo ou vontade, nessa altura dou valor à sorte de poder tirar partido da criatividade no meu modo de vida em doses superiores a boa parte da população.

E quando assim é, não há problema em sair à rua, sentir a chuva e sorrir.
(isto é claro antes de percebermos que vamos apanhar uma molha nas trombas, se não paramos de rir e nos pomos a correr dali para fora).

23.11.12

A vantagem de isto andar um bocado morto

É que quando voltar em pleno, tudo o que escrever vai ser uma surpresa de morte.




13.11.12

Um dia o quadro vem abaixo


Não será exagero da minha parte dizer que boa parte das pessoas já viveu ou esteve algures na sua vida numa casa em que para ligar a máquina de lavar é preciso desligar o secador ou quando usam o forno eléctrico não podem passar a ferro. Quando ignoramos isto lá dispara o disjuntor, o quadro vai abaixo e, se a coisa se passa de noite, somos obrigados a lembrar-nos de onde está aquela velha lanterna e que velas não são coisas que só fazem sentido em Fátima ou em ambientes de pseudo-romantismo.

Falta de potência eléctrica, um clássico habitacional lusitano.

Quando há cerca de um ano mudei de casa, quis garantir que esse capítulo da minha vida tinha acabado e que só voltaria a fazer a piada manhosa de cantar os parabéns quando a luz vai abaixo em eventos sociais e residências alheias. Fiz obras a sério, a instalação eléctrica foi toda revista, os pontos de acesso estavam lá todos e SÓ faltava ir à EDP pedir o aumento da dita cuja, já que os antigos residentes viviam ainda na Idade da Pedra da utilização de equipamentos eléctricos.

Este SÓ já vai em quase um ano de procedimentos burocráticos e um ping pong entre a EDP e a Certiel, uma empresa teoricamente alinhada com a primeira que devia garantir a certificação de forma independente. Entre deslocações, emails e telefonemas, possivelmente tinha rentabilizado o meu tempo com melhores resultados se tivesse ido até à China falar directamente com os senhores que agora controlam os nossos interruptores.

Entre bipolaridade de funcionários, truques amigos que dizem que vai fazer ficar tudo bem de um lado, para escândalo e olhar de lado quando se chega ao outro, soluções e facilidades que depois não se concretizam, incompetência e falta de coerência na ligação entre dois serviços que, em vez de complementares, parece que existem para se complicarem mutuamente, não há forma de chegar a uma solução. O bom atendimento não é apenas um sorriso e uma voz pausada, é também fazer algo para resolver o que é pedido.

Já tenho actas de condomínio, cartas assinadas por administradores, avais de fiscais sobre o ramal do prédio, electricistas certificados dispostos a jurarem de joelhos e a irem em procissão até onde for preciso e nada. Estou até disposto a lamber uma ou  duas tomadas e a meter a cabeça no forno (eléctrico) só para mostrar o meu empenho a conseguir o raio do aumento da potência.

E nada.

Só de uma coisa não se esquecem de me avisar. “Olhe que o mercado regulado acaba no fim do ano. É melhor mudar a electricidade e, já agora, o gás para o nosso serviço livre senão fica a pagar mais e ainda leva multas por cima. Aproveite agora que lhe damos um desconto porreiro nos dois serviços”.

Dão-me um desconto? A mim?

Meus literalmente caros e pouco potentes amigos, o desconto já eu vos ando a dar há quase um ano e o que é um pedido normal e natural continua a ser tratado como se fosse uma extravagância. A minha vontade era mandar-vos o quadro abaixo, a ver se ao menos assim se fazia luz.

7.11.12

Um Obama no canto do olho



Para quem é fã de política internacional, ontem foi um serão muito animado. É o equivalente aos Óscares e aquelas galas em que no dia a seguir toda a gente fala de vestidos ou, ocasionalmente, do conteúdo do evento em si. Na política não se fala tanto de roupa, a não ser que seja suja.

A verdade é que eram duas da matina e continuava eu a martelar no meu teclado, tentando que palavras, conceitos e enredos façam mais sentido do que a vontade de dormir, mas cada vez que ia à janela das redes sociais via que não estava sozinho. Surpreendeu-me o número de pessoas, algumas das quais julgava mais distantes da política do que eu estou do Azerbeijão (e tenho um grande respeito por qualquer país cujo nome acabe em “beijão”), que estava a acompanhar o desenrolar das eleições americanas.

Bem sei que o Obama é icónico, que o espectáculo é mediático e que há gente que só precisa de uma boa razão para preencher o vazio da noite, mas não creio que não era só isso. Apesar de toda a tralha política, de todo o bullshit de campanha e de como vivemos num mundo em que o que vemos, nem sempre liga com a realidade das coisas, nós queremos acreditar. Em algo mais, em algo que não é cinzento, em algo que vai para além da espuma dos dias.

E a América, país do show off, de repente fica tão perto. Os nossos impostos não baixam, a nossa corrupção não desaparece, a nossa crítica sem falta de rumo não se orienta por obra e graça de um qualquer Sebastião regressado. Mas vemos eleições que parecem filmes, políticos que parecem ter aura e discursos que cativam e, de repente, estamos sentados no sofá a desejar que os bons vençam os maus e que o mundo deles (e o nosso por consequência) fique melhor.

Gosto do Obama mas, à conta dele, deitei-me pelo menos uma hora mais tarde. Porque também ia espreitando, adiando um pouco a realidade do meu trabalho, para ver quem ganhava o duelo de pistoleiros no Velho Oeste. É coisa de filme, mas de vez em quando sabe bem.

É que, por cá, a cidade está deserta e não há pistoleiros bons no horizonte. Só o conforto momentâneo de uma história lá ao longe que vai ter um novo capítulo que nós também gostávamos de poder chamar nosso.

5.11.12

Notas do fundo do poço



Desconfiem quando vos disserem “Não queres ir dar umas aulas? São só duas ou três, é uma espécie de pós graduação, mas para ti é tipo workshop vais ver que é engraçado, tu de certeza que tens jeitinho para aquilo”.

Ainda não chegámos à parte de efectivamente ver isso do jeitinho para a coisa e eu já espumo pela boca. Fazer apresentações desgasta-me a paciência e o que eu realmente gostaria era de fazer uma longa conversa com as pessoas, o que não é possível, por causa de uma coisa que se chama aprendizagem e avaliação e o diabo a quatro. Cavei o poço, hei-de sair de lá de dentro, mas tenho a sensação que todos os professores com que alguma alguma vez gozei estarão agora a ter vontade de rir sem saberem porquê...

Noutro aspecto, estou com dificuldades em decidir se a cara que as pessoas fazem, quando me perguntam e eu lhes conto como foi correr uma maratona, é de respeito ou de contemplação perante a loucura.

No rescaldo do Halouine à portuguesa já me relataram eventos de duas festas em que máscaras, álcool e regabofe deram resultados explosivos. Começo a pensar que se andássemos sempre mascarados a alegria era maior e isto pareceria andar tudo melhor. Pelo menos até cair a máscara...

Agora vou ali fazer mais 3050 slides, que isto também não pode ser assim diversão à bruta a fazer textos não pedagógicos.