30.9.12

Perdi-me outra vez numa livraria e saí de lá com companhia



Se cada vez que me perco numa livraria a PSP lançasse daqueles alertas que antigamente se viam na TV, em alguém com ar ligeiramente aluado (muitas vezes devido a perturbações mentais) tinha fugido de sua casa, já tinha um trombil mais reconhecível do que aquele senhor da CGTP, o Arménio.

A verdade é que o faço de propósito e, de vez em quando num período de menor fluxo numa livraria, e a FNAC não conta porque não é uma livraria, é um supermercado de artigos ligados à cultura e não só, não é raro encontrar-me a folhear livros como ar de criança em loja de gomas.

Por vezes, sei bem o que quero, noutros casos é mesmo deixar a coisa ao acaso e fazer o sistema do funil. O sistema do funil passa por comer com os olhos tudo o que posso nas prateleiras e que me desperte alguma curiosidade, para depois passar para as mãos uma selecção de três ou quatro. A norma aí passa a ser de eliminação mais ou menos criteriosa com regras inventadas na hora, como por exemplo “Se já tens mais livros deste autor, não podes levar este”, “Se alguém te disse que já leu isto e gosto, tenta lembrar-te de quem foi e, em vez de o comprares, pede-o emprestado”, “Se não te dá jeito gastar tanto, pede-o para o teu aniversário, para o Natal ou até mesmo para o dia da criança, se é que ainda consegues engrupir alguém com essa história” ou “Não leias a tradução, tenta arranjar o original desde que seja numa língua em que possuas compreensão mínima”.

Por norma, quando chegamos a esta fase, já só tenho um ou dois livros na mão e, como forma de estimular o regresso e promover o equilíbrio entre o meu património financeiro e o património cultural, obrigo-me a comprar apenas um. Normalmente, o critério de desempate é “Qual é dos dois aquele que contavas menos ter na mão por esta altura?”. E é esse que vai.

Sexta feira ao fim da tarde o duelo final foi entre estes dois. 



28.9.12

Pastor solitário procura ovelha que conheceu na serra e não lhe deu os contactos


Acabo de receber um email do meu primo que vive em Tibornas de Valadares e tem o único computador com internet da freguesia. O mail tem um apelo que me deixou emocionado, diria mesmo deveras emocionado e que passo a transcrever na íntegra:

Primo Mak,

Então, como vai a vida por aí? Está tudo bem?



Porque é que não respondes???

(Nota de Mak: o meu primo ainda não percebeu muito bem que só depois de enviar o email é que podes obter resposta, mas pelo menos já não escreve no monitor com uma caneta para assinar o mail)


Escrevo-te para te falar do Hilário, quer-se dizer não te quero falar só sobre ele mas sobre um episódio que tem sensibilizado a comunidade de Tibornas de Valadares, todos os sete.

O Hilário é um jovem pastor que costuma passar os dias lá na serra. Sendo jovem, tem necessidades e é natural que aqui e ali tente fazer amizade com alguns animais com quem passa parte dos dias. Afinal de contas, fémeas aqui na terra são coisas que rareiam, mesmo tendo em conta a tia Alzira que, apesar de virgem, tem aos 75 anos um bigode que espanta até os lobos mais bravos.

Aqui há dias, o Hilário cruzou-se de relance com uma ovelha de um rebanho de À-dos-Capelos e, segundo ele me contou, houve ali mais que uma troca de olhares, parece que ele lhe chegou a afagar a lã e ela brincou com o badalo. O problema foi, na hora da abalada, o facto dela se ter recusado a dar o contacto do rebanho e nem sequer o perfil de Facebook se mostrou disposta a partilhar. Segundo o Hilário, a ovelha só lhe baliu de relance, enquanto fugia para o pé das outras, “Vou para Lisboa daqui a dias, se quiseres procura-me, se não quiseres vai à méeeee....”

Nem imaginas, o Hilário tem andado descontrolado e já nem sequer a cabra do Quim da Adega, aquela de grandes tetas e que tão bons queijos dá lhe dá conforto. Já tentou deixar cartazes por Tibornas de Valadares e À-dos-Capelos a fora, mas como é analfabeto as pessoas não percebem o que lá está e pensam que a coisa é de um culto satanista.

E prontos, nós tentámos ajudar, mas boa parte dos rebanhos só tem perfil no Linkedin, em À-dos-Capelos não há maneira de encontrar a ovelha e já ninguém tem pachorra para aturar o Hilário, tirando a tia Alzira, que se ofereceu para colocar um manto de pele de ovelha às costas e encontrar-se com ele à noite na serra, para ver se ele não notava a diferença. O problema é que marcámos o encontro, a coisa ia a dar-se mas o Hilário quis beijá-la apaixonadamente e à conta do bigode tivemos de levá-lo ao posto médico de Vilar de Frieiras para levar pontos nas beiças.

Agora a ovelha já deve estar em Lisboa, a gente não sabe o que fazer e tu primo, que és um gajo atento às redes sociais, era para ver se podias ajudar a dar novas da ovelha ao Hilário, que ele diz que é amor e a gente nem farmácia tem para curar isso.

Por isso, minha gente, toca à ajudar, que o amor moderno e a armar ao conto de fadas da actualidade toca a todos até aos pastores e às ovelhas. Agradecem-se notícias, fotos e afins de ovelhas que calhem a ver por Lisboa e arredores.

Filhos da Putin

Facto que descobri há dias na Internet:


Pois é, KGB e Megadeth, sinfonias de destruição e maus penteados, tudo isto ligado de forma simples e evidente. A realidade é, por vezes, a alucinação mais perturbante.

27.9.12

Da tolice da música de dança


É engraçada a reacção das pessoas quando me falam em música de dança e eu pergunto “E qual é a música que não é de dança?”. Hesitam, pensam que provavelmente sou parvo (não erram por muito) e tentam por vezes esclarecer-me com explícita terminologia anglófona “Epá, estou a falar de dance music”, ao que eu riposto “E qual é a don’t dance music?”.

A partir daí chegam rapidamente a uma conclusão – “Ele não é parvo, é um imbecil armado em esperto”.

Não discuto a veracidade da conclusão, debato apenas a terminologia. Música electrónica, só porque é nota dominante em sítios de diversão nocturna em que se dança, não deveria ser por si sinónimo de música de dança. Também já lhe ouvi chamar “martelos”, “untz-untz”, “música decarrinhos de choque” e por aí em diante, sem que tudo isto tenham que ser carimbos permanentes.

Até porque eu já dancei grandes hits do folclore em bares da moda e fui a discos com os melhores remixes de música clássica. Quer dizer, eu acho que foi isso que aconteceu mas depois a medicação fez efeito e agora já não tenho a certeza.

Voltemos à vaca fria, que ficou ali sozinha na pista de dança.

Já se dançava antes  de existir a “música de dança” e certamente se vai a continuar a dançar coisas a quem nem sequer música muitos chamam. Portanto, se és fã de house, de techno, de trance, de dubstep e de mais um porradão de categorias (sim, porque me garantem que as diferenças são fáceis de notar entre entendidos) fica descansado que o rótulo de música electrónica ninguém te tira.

Já o território “música de dança” é outra história e terás que lutar com o pequeno dançarino que vive em mim para me provar o contrário.

Greve no Metro, tristeza na rua

Quem me dera receber um Euro por cada expressão triste que vi na cara de gente parada à entrada das portas encerradas do Metro hoje de manhã. "Então, então...agora vou ter que andar....ou ir de autocarro....ou andar e ir de autocarro...ai a minha vida".

E então começa a procissão e os telefonemas para ajudarem a diluir o caminho, porque posso estar enganado, mas nos dias que correm muita gente não gosta de ficar sozinha a pensar na vida.

26.9.12

A situação do país discutida em Reunião Geral de Estátuas em Lisboa

-->



A maior parte das estátuas de Lisboa reuniu-se de emergência. A crise também as afecta e quando as coisas não correm bem não serve de nada ficar parado a olhar, mesmo quando se é estátua. O Marquês de Pombal foi o primeiro a usar da palavra:

“Amigos e estátuas de Lisboa, vejam o estado a que chegámos e não me refiro apenas à trampa que os pombos nos deixam em cima. Já não me bastava ter os mancos todos da bola aqui às voltas sempre que há qualquer coisa para festejar, como agora ainda me trocam as rotundas. Fico enjoado só de olhar...”

O Duque de Saldanha, sempre disposto a apontar o dedo, interviu de imediato: “É verdade, estamos a perder relevância e ninguém luta pelos nossos direitos. Ainda outro dia se fez uma grande manifestação e nem tiveram a decência de começar a meu lado. Foram pela opção low cost do José Fontana, que lá porque tem um coreto pensa que nos pode lixar a vida. Isto para não falar da Praça de Espanha que, com aquele arco, não lembra a ninguém como ponto de destino quando o tema central é a situação de Portugal”.

Foi então que Camões se riu “Epá, que pategos. Queixas e mais queixas e nem sequer sabem do que estão a falar. Sofrimento a sério é ter carradas de freaks a emborcar litrosas aqui à volta todos os dias, cortejos de bêbados e gente estranha e tudo quanto o Bairro Alto me despeja em cima. Ali o Chiado ainda tem o Pessoa para conversar, às vezes entretêm-se com os freaks e os anarcas, mas eu aqui sozinho é ver a nossa língua a ser assassinada aos poucos, em cada sms a combinar no Kamões e em cada conversa que tem lugar a meus pés”.
“Tu vai mas é chatear-te a ti próprio” gritou D.José que, como de costume, estava voltado de costas para o local do debate “Tu ainda vês boa parte do que se passa à tua volta, já eu estou destinado a ficar a ver cacilheiros a desembarcarem e as fotos da tanga que se tiram no Cais das Colunas. Enquanto isso, nas minhas costas, uma porrada de homens estátua na Rua Augusta fazem de tudo para me tirar o protagonismo, roubar-me rendimentos e desviar as atenções dos turistas. Até o meu cavalo já me disse que isto assim não funciona, mais nos vale ir para o Barreiro...”

D.João I e D.Pedro IV saltaram do pedestal em conjunto e também se fizeram ouvir “Bo ka sabe fala, bo ka ta entendè criolù...” olharam um para o outro e concordaram que seria D.Pedro IV a falar. “Já viram? Nós, altos representantes da história de Portugal até crioulo já falamos naturalmente. No sítio onde estamos, são mais os estrangeiros que vivem à nossa volta e que nos dão atenção e o resto é mato. Às vezes pede-se a um conterrâneo para trazer uma merenda ou uma sandes de paio ali da Suíça e é vê-los a ignorar-nos, como se uma estátua não pudesse ter fome...”.

Foram interrompidos por uma algazarra que vinha do fundo da sala, onde o grupo do Padrão dos Descobrimentos bebia animadamente uns copos, formando uma rodinha em volta de Filipa de Lencastre. Chamado à atenção por Álvares Cabral, sempre a meio caminho entre rato e estrela, o Infante D.Henrique justificou-se “Desculpem amigos, nós não saímos muito e já sabem como é, cinquenta gajos e só uma mulher dá sempre confusão, ainda por cima estamos a pensar ir ao BBC e isto tem que ficar definido agora porque a Filipa, Pipinha como lhe chamamos, depois bebe e aí já está o caldo entornado”.

Sempre sorumbático, Alexandre Herculano ignorou o Navegador, que também não levou a mal, voltando ao fundo da sala a dançar estilo can-can com as suas vestes largas. Pigarreou e começou “Creio que em nome de todas as estátuas da Avenida da Liberdade posso dizer que...”

De repente, ouviram-se palmas na sala e todos se voltaram surpresos. Era o Cristo-Rei e a maior surpresa do que vê-lo ali era notar que era capaz de abrir e fechar os braços. “Quem é que o convidou?” perguntaram baixinho os Heróis da Guerra Peninsular, ao que o Ardina respondeu “Sabem como é o pessoal da margem sul...basta haver festa e que se lixe o convite...”

Com um olhar o Cristo-Rei transformou o ardina numa estátua de Botero, o que teve o efeito de calar o resto da sala.

“Meus amigos, não preciso de convite porque a omnipresença em termos de eventos de estátuas é um dom que me assiste. Vocês apontam o dedo ao que está mal e não vos vejo a fazer nada para melhorar o vosso futuro. Olhem para os franceses, acabo de saber que o Zidane a dar uma marrada no Materazzi já é estátua mesmo no centro de Paris. Há uma nova geração de estátuas a nascer e isso podia ser um caminho, sangue novo capaz de intimidar pombos e pôr turistas e locais a pensar duas vezes antes de ignorarem ou desrespeitarem o vosso potencial...”

“Pois...isso é tudo muito bonito, mas as estátuas novas que vão surgindo em Lisboa nem se percebe bem do que são”. Toda a gente ficou surpreendida novamente quando ouviram desta vez a estátua do Eusébio a falar e a fazê-lo de forma articulada e concisa, coisa que o seu homónimo de carne e osso raramente conseguia fazer. “Eu tentei falar com aquela da rotunda do Beato ao pé da Expo e nem percebi se era carne ou se era peixe...”.
Afonso de Albuquerque, adepto do Belém por localização, soltou entredentes “Se calhar era marisco tipo tremoço...”.

Cristo-Rei voltou à carga “Eu sei disso meus amigos e já estou a trabalhar noutra solução, tendo já um pré-acordo com um canal privado. Um reality show com estátuas, mas uma coisa mexida, com algum picante. Com o tempo que vocês têm, a maior parte de vós já tem podres que cheguem o que, a somar aos que tiveram em vida, é uma mina. É juntar uma República, que nunca se coíbe de andar com a prateleira à mostra, mais umas ninfas secundária e as estátuas de Lisboa vão voltar a ter as audiências e a atenção que merecem. Que me dizem hã? É claro que aqui o Rei vai ter a sua comissão, mas é tudo decorrente de ratings, não há cá taxas sociais nem coisas dessas...”.

Olhou em volta e viu que a sala se esvaziara num instante. O que Cristo-Rei não percebera é que entre um futuro negro com merda de pombo e um futuro nas revistas cor-de-rosa com um reality show, a escolha para as estátuas era fácil – Mais vale continuar apenas a fazer figura do que investir numa carreira a fazer figura de parvo.

Correr à chuva - Lirismo vs. Realidade


Vamos começar por esclarecer uma coisa: eu gosto de correr à chuva, não numa perspectiva de Noé a incentivar-me do alto da sua arca, comigo a correr ao lado, mas de uma forma digamos mais normal.


Só que há uma diferença entre a corrida vista do ângulo de uma marca que te quer vender a coisa como um épico e a realidade. Eis dois descritivos que o comprovam:

A minha corrida vista, por exemplo, pela Nike.



Saíste para correr e os elementos saíram contigo.
A noite começa a cair enquanto a tua vontade de ser livre se ergue.
A chuva cai-te no rosto e tu ris-te para o céu “É isso que tens para mim?”
Dás de beber aos pés em cada poça, porque sabes que eles se cansarão primeiro que a tua determinação.
Não existem distâncias, existem objectivos, existes tu. O trânsito que passa lá ao fundo pertence à realidade dos que se conformam em deixar que sejam os elementos a decidir quando vão chegar a casa.
Tu? Tu decides o teu próprio caminho, pelo meio da chuva, das folhas que caem, da pista e da lama. Se fosse fácil, não seria para ti.
Deslizas pelo meio da tempestade, a trovoada é o teu público e no fim não precisas de aplausos. O som das gotas que caem no chão é suficiente para ti. A chuva é um bom parceiro de corrida.

A minha corrida como ela realmente é.



Sais a correr e se não levares com uma molha agradeces.
Ainda por cima já é quase de noite e tu não tens vontade de cair num buraco.
Caem-te umas pingas na cabeça e depois de te certificares que não é trampa de pombo, olhas para cima e dizes “Não podias ter esperado mais um bocadinho?”
Evitas as poças enquanto podes, quando percebes que já tens pés e meias encharcados, encolhes os ombros e dizes “Que se f”#$a, também não morres por isso”.
Controlas as distâncias, maldizes os objectivos e desconfias do trânsito. Há sempre um palhaço ao volante disposto a encharcar um cromo que corra. O teu conforto é que o otário vai demorar para aí mais uma hora a chegar a casa, na Charneca do Vale da Urtiga e a essa hora já estás a jantar, com a banhoca tomada.
Tu? Vai com calma, olha a calçada toda lixada, mais velhas com chapéu de chuva que vão no meio da pista, com tanto jardim à volta. Se fosse fácil, certamente haviam de arranjar maneira de te lixar.
Tentas ser mais rápido que a borrasca, não consegues, o vento a assobiar nas árvores parece o teu público. “Vão mas é assobiar para o C”#$”#%. Estou a dar o que posso” pensas tu. A chuva é uma cabra, mas é o parceiro que estava disponível.



PS - Para quem goste de fotos trendy de corrida e não só, dentro do lirismo, este senhor é o responsável pela primeira foto e muitas mais - Tim Barber.

25.9.12

Afinal, o que é isso de ser moderno?

Não sei, estão sempre a mudar a merda das regras.





PS - E já que entramos no absurdo musical para justificar coisas, depois de anos a ver Irmãos Catita, etc (nomeadamente na Barraca), continuo a defender que a melhor rima da era pós-moderna é "Orangotango jogas hóquei em patins / Orangotango gostas de ouvir Phil Collins".

E foi assim que entrei na discoteca



O facto de ter chegado ao 1,80m antes de chegar aos 16 anos facilitou-me a vida em certas coisas. Nunca me pediam o BI ao entrar em salões de jogos (antro em quase extinção nos dias que correm), quando fui ver os primeiros concertos conseguia ver o palco em vez de ver um conjunto de guedelhas e fazia parte de qualquer grupo que, ao sair à noite, quisesse dar um salto a uma discoteca e precisasse de um colectivo escolhido a dedo.

Nesses pequenos grupos havia sempre o gajo/a que conhecia alguém no sítio onde se ia e que garantia “Não há problema nenhum, ele mete-nos lá dentro na boa” (tirando nas vezes em que não metia e em que surgia sempre o “Ele nunca me tinha feito isto”). Também tinham que lá estar miúdas, porque grupos só de gajos, ainda por cima putos, que não iam certamente encher o cartão de consumo eram sinónimo de barranço à porta ou horas na porta à espera de um acto de bondade do porteiro. E finalmente, gente alta, uma parte importante da ideia que se queria passar de, “Miúdos? Naaa, nós não somos miúdos, somos matulões com ar jovem”.

No meu disco rígido a que chamo memória tenho guardada trampa que não interessa ao menino Jesus, desses e de outros tempos. No entanto, na incapacidade de a limpar, aproveito coisas como a memória da primeira expedição num desses grupos, que se tornou na primeira vez que fui a uma discoteca sem gente mais velha no grupo.

Uma miúda fazia anos, fomos a uma esplanada em Belém e se não era Verão, andava lá perto. O grupo tinha seis artistas, 50-50 na proporção de sexos, curiosamente sem casais à partida. Tudo colegas da escola e conhecidos que, depois de alguma discussão sobre o próximo local, decidiu que estava na hora de ir para a discoteca... às onze e picos da noite.

Depois de um aceso debate, venceu a zona de Alcântara (conveniente também por ser mais perto para o táxi no regresso) e o à altura Rockline, destino favorito para quem não queria singrar no mundo da música de dança e sonhava em ouvir Rage Against The Machine em discotecas.
Antes da meia noite, a fila era cerca de zero e creio que se não acordámos o porteiro, que obviamente alguém do grupo jurava conhecer, andámos lá perto. O tipo olhou para nós, começando por mim e perguntou se toda a gente tinha idade e eu, que já na altura era um parvo em potencial, mordi o lábio para não dizer “Epá todos juntos temos idade para ser teu pai” e acenei com a cabeça.

Milagre dos milagres, sem mais perguntas abriu-nos a porta, com a benesse de cartões sem consumo para as miúdas e consumo mínimo para os “homens”. Sou gajo para ter bebido um shot logo a abrir para comemorar, mas não me recordo se foi da porcaria intragável que na altura até parecia sexy sob o nome GoldStrike. Esperávamos encontrar toda uma aura de disco, com gente a dançar loucamente pelo meio do fumo e figuras estilosas junto ao bar, onde empregadas de bons atributos e barmen habilidosos faziam a festa.

Qual quê, por volta da meia noite aquilo só lá tinha dois ou três otários ao nosso nível, que vinham para a discoteca quase à hora da novela com medo de não entrarem depois. O bar estava vazio e a malta que lá trabalhava olhou para nós como se tivéssemos trazido todos bibe e tivéssemos entrado de mão dada.

No entanto, ainda hoje me lembro da música que dava quando entrámos e que era esta:



Ainda hoje gosto dela e, apesar de não me lembrar muito bem do que se passou no resto da noite, posso dizer que, feito maluco, sou capaz de ter chegado a casa já bem perto das duas da manhã.

24.9.12

Consciência vs. Gelatina




 Ambas tremem em dados momentos. Ambas funcionam melhor a frio do que a quente.
No entanto, só uma delas é que se pode associar ao conceito "preparação instantânea".

Isto é sabedoria em pó. Basta misturar tudo.

O c”#%ão do boneco careca da IKEA




Estavas lá, como sempre estás depois de viagens produtivas até à loja dos teus paizinhos. No início dizes que é tudo simples, dás umas dicas sobre as ferramentas a usar, mas não fazes a ponta de um corno para ajudar.
Pelo teu ar, estás careca de saber o que vem a seguir e ficas ali, página a página a gozar o prato. De x em x quadros lá vem a dúvida, que a perspectiva da imagem não esclarece devidamente. “Isto será de lado ou voltado de frente?” e tu, meu m”#%das, ficas ali de ferramenta na mão sem adiantar o que quer que seja.

Seis ou sete quadros mais tarde, aparece a sugerir um parafuso e deixas implícito que já fiz burrada lá atrás. Obrigas-me a fazer tudo de novo e fazes um ar triste, como se estivesses compadecido, mas sei bem que tu não tens sentimentos meu careca nojento. Fazes o teu trabalho, que é meter os outros a trabalhar e isso chega-te para gozares a vidinha.

Acrescentas inputs valiosos como “Não salte com os pés para dentro da gaveta” ou “Não se sente numa ripa de madeira, porque essa trampa, como boa parte do nosso material, é frágil”. No entanto, esqueces-te de referir que não segurar certas peças por determinados pontos pode danificar a estrutura, que certas porcas (e não me refiro às tuas familiares directas) ou outros pontos de conexão podem lixar horas de trabalho e colocar a perfeição do resultado final em causa.

Este fim de semana ajudaste a tirar mais quase quatro horas da minha vida e lixar quase tudo no final pelo facto de seres um inútil que não ajuda quando faz sentido e deixa sempre a responsabilidade nas mãos  dos outros.

E é por isso, meu c#%#”ão de boneco sueco de um catano, que te odeio com todas as forças e, se estivesse dentro das minhas capacidades, te gostaria de enfiar com uma chave de fendas daquelas que tanto gostas de sugerir, em apenas dois passos, pelo teu ponto de conexão nº4 acima.


Ou “Histórias que acontecem porque entrega e montagem ficam pelo mesmo preço que o mobiliário que acabas de comprar”.

23.9.12

Os vampiros não têm caspa



Depois de rever “Entrevista com o vampiro”, posso dizer que nunca vi tão selecto lote de cabelo sedoso à solta, capaz de fazer inveja ao Ronaldo e à sua luta contra a “Oliojidade”.

Do Banderas ao Pitt, passando ao Tom Cruise, isto para não falar da Kirsten Dunst em versão miniatura, toda a gente tem ali um quociente capilar da mais alta seda de categoria.

O Christian Slater, por outro lado, tinha ar de pintas e era jornalista. E isso não faz bem à saúde do cabelo de ninguém.