31.8.12

Truz Truz

Ontem, em conversa nocturna com um amigo sobre músicas que um gajo ouvia quando era miúdo e não sabia muito bem como era a letra, mas que nos soava a algo muito diferente do que na realidade era cantado, lembrei-me de um mofo do Mike Oldfield.




Atentos ao segundo 35" que, segundo eu na minha tenra inocência era qualquer coisa como "She couldn't find a way to truz truz"...

Já segundo o meu amigo, no mítico êxito de FR David, em que o FR era sem dúvida abreviatura de francês, quando era pequenito e queria dedicar esta música às miúdas, convencido de que efectivamente isto era franciú, "don't come easy"era substituído por um elogio à blusa delas com um "ton camisie".



E quando se vai por aqui, destapa-se uma mina, houve quem cantasse "Well The Yo Ca Ca" dos Queen, "Chuta, não, 'pera" do Jim Diamond e por aí em diante. E atenção isto não era para o gozo, eram crianças à procura do significado da vida, muitas vezes na canção errada.


Conclusão

(infelizmente para vocês, é do post, não do blog)


Era agora.


Respirou fundo, fechou os olhos e olhou para baixo, onde a mão ainda estava sobre o interruptor. Foi então que, para surpresa sua, reparou que inconscientemente a sua mão já tinha deslizado sobre o interruptor e este já estava para baixo, em vez de para cima, como sempre tinha estado desde que era gente.

Não sentia nada, estava evidentemente vivo e foi a correr até ao espelho que tinha na porta do armário. Estava normal, não notava nada em si e todas as partes do corpo pareciam intactas. Correu, saltou, gritou, cheirou e comeu até um rebuçado para ver se tudo estava na mesma com o paladar. Nada mudara.

Aliviado mas ainda assim desconfiado voltou a sentar-se na cama. Se aquilo não servia para nada, porque raio tinha nascido assim? Será que só ia notar quando voltasse a mover o interruptor? Talvez fosse melhor tirar a dúvida.
Assim que carregou no interruptor pensou no que a sua brincadeira podia ter custado aos pais, que tudo haviam feito para crescesse sem o estigma de ser diferente. Vieram-lhe suores frios e o arrependimento por estar a brincar com uma vida que, embora sua, estava longe de estar desligada dos que o amavam. Sentiu-se pior do que alguma vez tinha sentido na vida, embora agora tivesse a noção que, até ver, o interruptor não tinha qualquer implicação mortal.

Entristecido decidiu que nunca mais voltaria a fazer aquilo. Decisão curta, pois minutos depois a sua curiosidade levava-o de novo a pensar em fazê-lo só mais uma vez “para ter a certeza”. Desta vez atento ao mínimo pormenor, Benjamim carregou muito devagarinho no botão, pensando mais no que aconteceria se a sua mãe soubesse que tinha quebrado a promessa do que naquilo que poderia acontecer.
Uma vez mais nada aconteceu.
Mas foi um nada diferente, já que se apercebeu que deixara de pensar nos outros ou nas consequências assim que o interruptor virara. O fim da ansiedade, dos suores, da tortura gratuita, já que ninguém sabia o que acabara de fazer, tirando ele. E isso fazia-o sentir bem, fazia-o sentir que nada mais no mundo importava a não ser ele e que isso se sobrepunha ao resto.

Não tendo ainda a noção do que esta descoberta implicava, Benjamim acabara de se tornar a primeira pessoa no mundo que efectivamente tinha a capacidade de ligar e desligar a sua própria consciência. Tudo agora na sua vida dependeria de ter ou não o bom senso. E nesse aspecto, Benjamim não tinha um botão ou um interruptor para o guiar.

30.8.12

O estranho caso de Benjamim, o menino interruptor


Quando nasceu, o seu caso abriu os Telejornais de todas as estações nacionais e chegou até a figurar em peças de canais importantes do estrangeiro. Os jornalistas faziam filas para falar com os pais, com familiares, com os médicos e, consoante o desespero, com alguém que vagamente tivesse convivido com a família.

O motivo era Benjamim, nascido com 3,45kgs de peso e quase 50cm de altura, uma criança aparentemente normal em quase todos os sentidos. Mas a grande diferença estava nesse quase já que Benjamim, ao contrário dos outros meninos, tinha nascido com um botão, mais precisamente um interruptor. Ao início, o pânico dos pais tinha sido grande, falara-se em negligência médica, em processos milionários, mas o facto é que os médicos estavam tão surpreendidos com o evento como a própria família, partilhando das suas preocupações. A verdade é que o menino era saudável e o interruptor , situado exteriormente dois centímetros abaixo do externo, parecia perfeitamente inserido no seu ainda frágil corpo.

Com o tempo, a questão deixou de se centrar tanto no porquê e tanto a família, os médicos e o circo mediático se debruçaram sobre “O que aconteceria se alguém carregasse no interruptor? Para que serviria?”. As opiniões dividiam-se, a gritaria elevava-se e só o pequeno Benjamim se mantinha alheio a tudo, submerso na sempre preenchida vida de um bebé em pleno desenvolvimento.

Com os anos, à falta de novidades, o interesse à volta de Benjamim foi desaparecendo na proporção do crescimento do interesse do próprio pela sua condição. Aqui e ali, um ou outro programa falava do “Menino-interruptor, que é feito dele?”, mas nada da loucura dos primeiros dias. Os seus pais continuavam a ter muito trabalho, rejeitando propostas milagrosas, ofertas de curandeiros, participação em testes clínicos e todo o tipo de interesse que uma situação daquelas despertava, com boas e outras intenções. Da sua parte, a decisão estava tomada, se não surgisse motivo para alarme, não mexeriam no assunto e deixariam que fosse Benjamim a decidir mais tarde.

A dificuldade foi convencer Benjamim, que crescia com feitio decidido e a curiosidade natural das crianças. Depois de muitos cuidados e outros tantos sustos, finalmente conseguiram fazê-lo prometer , tinha ele 11 anos, que só quando tivesse 18 anos é que mexeria no seu interruptor, uma vez que já seria maior de idade.

E foi assim que aconteceu, pelo menos segundo o que sempre pensaram os pais. A verdade é que, pouco depois de ter completado 16 anos, Benjamim decidiu que já era hora de saber porque raio tinha ele um interruptor no peito. Era óptimo para conhecer miúdas, mas depois ficava a sentir-se mal por estar a usar uma coisa que ele nem próprio sabia para o que servia ao exacto. Estava consciente que podia inclusive morrer ao mexer no interruptor, mas viver na dúvida para ele também lhe parecia impossível. A noite já ia longa e depois de muitas dúvidas e hesitações, sentado na beira da cama no seu quarto, levou a mão ao peito.

Dividido, com a garganta seca, Benjamim pensava no sofrimento que poderia vir a causar aos pais e de como uma acção que só a ele dizia respeito podia afectar tanta gente. De repente, deixou de se preocupar com os pais, com o que eles podiam pensar. O que é que isso interessava, a vida dele estava primeiro. Ia carregar no interruptor e que se lixassem o que os outros pensassem, independentemente do que viesse a acontecer.

Era agora. 


(continua)

PS - Esta é a parte em que eu ou insiro conteúdos pagos e enriqueço para aí dez cêntimos ou abro uma votação ao jeito "Você decide" e será a audiência a dizer o que vai acontecer. Enquanto não me decido, vou divertir-me a ligar e desligar interruptores em casa.
 

Curta: Isto é um teaser

Só para vos aliviar do lençol que há de vir daqui a bocadinho, isto é o que chama um pseudo bom teaser.

Se fosse um texto sobre chocolates teria um malteser.

Ter miaúfa da Natureza.


Não deve ser exclusivo de Portugal, mas há por cá muita gente que não leva a sério os avisos da Natureza, como se esta fosse uma velha chata e alarmista. Exemplos:

“Ah, isto não são marés vivas, são só umas ondinhas” passa para cinco minutos mais tarde “Olha mãe, aquela mãozinha ali a acenar a 200m da costa, aquela da unha do mindinho comprida, não é o Tio Carlos?”

“Isto não é vento a sério, eu estou muito habituado a andar por estas falésiiiiiiiiiiiii.....”

“As pessoas são tão burras. Só porque está ali um aviso de derrocada não aproveitam a sombrinha daquela escarpa, mesmo ao pé do mar” corta para “Olha, estiveram a jogar Angry Birds com aquela família”.

“Oh, isto não é sol a sério, mas mesmo que fosse eu também nunca apanho um escaldão” passa para umas horas mais tarde “Mamã, mamã porque é que ao pé daquele senhor cheira a grelhados e porque é que ele está a gritar a vestir a thsirt?”

Havia tanto para dizer, mas não é da minha natureza achincalhar em demasia. Quanto à imagem que vos deixo é de uma senhora no Louisianna, às primeiras horas do furacão Isaac. Ou, segundo ela, se fosse cá das nossas “Levanta-se um ventinho e começa logo tudo a fugir”.


29.8.12

Modelito do Continente

Caso se tenham cruzado hoje à noitinha, numa loja Continente do centro de Lisboa, com um indivíduo assim para o alto ostentando um simpático calção de lycra e uma camisola amarela eléctrica que só não é um colete reflector porque tem mangas e patrocínios, para não falar que suava que nem uma lontra, é só para confirmar que era eu.


Dotado de espírito prático e laivos de bom samaritanismo pensei que seria boa ideia, depois de correr quase uma hora, passar pelo Continente e comprar um lâmpada para a escada do prédio, conforme pedido encarecido de uma velhinha de quase 90 anos que é minha vizinha.

Acontece que o mini-Continente, modernos como são, só tinham umas poucas lâmpadas XPTO e casquilhos que não lembram ao demo sem nada de simples e funcional, pelo que depois de palmilhar a loja durante dez minutos, confirmar com dois funcionários, que foram simpáticos ao ponto de não rir de personagem em tal figura e ter a noção que o segurança estava dividido entre a hipótese de eu ser um mitra e a minha camisola dar demasiado nas vistas para tal, resolvi desistir.

Só que se apoderou de mim a noção idiota que, depois daquele tempo todo, um tipo assim vestido que vai às compras e não leva nada se parece ligeiramente com um doido, pelo que decidi comprar alguma coisa para fazer número.

Saí com uma garrafa de vinho tinto e um pacote de sumo "Um Bongo". Certamente que isso fez maravilhas pela minha reputação.


Alugar ou engatar uma casa?


Para quem está à procura de casa, não é preciso dizer que a coisa está complicada. Felizmente esse não é o meu caso mas, no entanto, tenho vários amigos nessa situação. Sejam casados, solteiros, à procura do amor, amancebados ou indefinidos, têm todos coisas em comum: são jovens a rondar os 30 anos e não nadam em dinheiro.

Já se sabe que, neste momento, comprar casa é tão difícil como encontrar um gajo que admita que gosta de usar tacões e, portanto, o mercado do arrendamento é a única solução viável para quem procura e, por outro lado, para quem tem uma casa disponível.

Podia agora falar do factor “à rasca” de muita gente que quer alugar mas quer fazer dinheiro á bruta, seja porque tem as suas próprias dívidas ou por querer apenas lucro fácil, mas isso fica para outras núpcias. Este boom dos arrendamentos como tábua de salvação, especialmente em cidades como Lisboa, continua infelizmente a prolongar os preços especulativos que, a meu ver e assim por alto, se situam em média 100 ou 200€ (ou mais) acima do que seria um valor de renda justo para boa parte das casas.

Mas o lado divertido da coisa, se é que se pode chamar isso, é que existem muito mais anúncios de casas a alugar, muitos deles tirando partido desse regabofe que são as redes sociais. Tenho visto de tudo, mas uma amiga minha fez-me chegar um link, que mistura paixão e arrendamento e quando assim é, sou obrigado a ir ver a coisa com a devida atenção.

Foi então que descobri um mundo maravilhoso de anúncios em que as casas falam na primeira pessoa, tentando seduzir o potencial arrendatário. Umas são mais atrevidas, outras mais pudicas, mas ambas de portas abertas a um bom flirt imobiliário. São joviais, usam sem medo o ponto de exclamação e jogam com os seus atributos, isto para não falar do seu preço, isto para clarificar à partida o tipo de relação que procuram.
Sou totalmente a favor da criatividade e da diferenciação, mas temo que casas assim tão frescas e tão liberais possam intimidar o inquilino mais tímido. Já estou a ver gente a queixar-se de “Ah, eu ia só vê-la, mas ela ofereceu-me um copo de vinho, caiu-me em cima com a sala ampla e a sua vista desafogada e, quando dei por mim, acordei  no dia seguinte todo nu no parquet do quarto que tinha armários embutidos com um contrato de arrendamento assinado na mão”.

Deixo dois exemplos e, se estiverem com o mood certo, pode ser que esta seja a relação que procuram.




28.8.12

A minha encruzilhada com a música brasileira

Há uma certa e determinada faixa da música brasileira com a qual não vou à bola. Não é interessa aqui qualificar se é boa, se é má, é uma prerrogativa de gosto. E isso, para o assunto chega.

No entanto, aqui e ali, mesmo fora dos nomes mais sonantes da MPB e arredores, encontro e reencontro coisas que me apetece ouvir em loop.

É assim o caso de Jorge Ben Jor, a quem inclusive os Sepultura já foram buscar inspiração e o Rod Stewart também, embora este último o tenha feito pela porta do cavalo e depois teve de ir ao castigo (para os curiosos, vejam o Do ya think i'm sexy e o Taj Mahal do tio Jorge e percebem o porquê).

Há muito mais para além do Chove Chuva ou o Mas que Nada, basta querer encontrar. Esta, por exemplo, tem rodado à bruta.


Para mim, escrever é como andar de bicicleta





 

Talvez por isso, não perceba muito bem como é que a coisa se aguenta, mas continue a arriscar pedalando por vezes de forma ridícula.

A facilidade do protesto na era digital


Nos dias que correm, se eu quiser mostrar que estou indignado com alguma coisa, é fácil. Tenho redes sociais, tenho blog, sms à borla e uma porrada de ferramentas à disposição que me permitem mostrar, com raiva, com eloquência, com sarcasmo, com apelos às massas, com fina ironia ou com abnegada emoção que não estou de acordo com algo.

O problema é que às vezes perco tanto tempo a querer mostrar que estou indignado que, quando chego à altura de efectivamente fazer alguma coisa acerca disso, ou já estou cansado ou já não me lembro muito bem do que ia fazer.

E então deixo de mostrar que estou revoltado e passo a usar tudo o que tenho ao meu dispor para mostrar que estou cansado de não ver nada a mudar à minha volta.

27.8.12

O mega bolo de texto de aniversário


Levantei-me com a certeza de que era o meu dia de aniversário. Pode parecer estranho, mas quando nos levantamos todos os dias com esta certeza, eventualmente acabamos por acertar no dia ou, na pior das hipóteses, estamos bastante bem conservados para quem certamente já tem mais de 10 mil anos.

No entanto, mais do que um abraço ou um beijo grande de parabéns, o que me apetecia mesmo para começar o dia era um pequeno almoço do camandro, uma experiência troglodita de enfardamento de comida que tornasse o início do meu aniversário numa coisa memorável.
O problema foi que, na minha busca o critério encravou entre a originalidade e a abundância, acabando por ir procurar esse pequeno almoço nos sítios mais errados. Mal entrei na casa de banho para me arranjar, ouvi logo o piaçaba “Então rabicholas, estamos a ficar finos? Já não podes tomar ir o pequeno almoço connosco, é isso?” e confesso que fiquei surpreendido. Não porque seja difícil para mim entabular conversas com objectos inanimados que tenho em casa, mas sim por não me recordar de alguma vez ter ido tomar o pequeno almoço com o piaçaba.
Ainda estava a pensar no que ia responder, quando ouvi outra voz “Esquece isso Çabas, já viste o que ele me fez? Ainda esperas alguma dignidade deste gajo? Tens sorte ele não te fazer desaparecer, como me fez a mim...”

Olhando, em redor, tentei perceber de onde vinha a voz e estava quase inclinado a ligar para a Maya para ela me deitar umas cartas e descobrir, quando o Piaçaba, por mais irónica que pareça a frase, voltou à carga “Escusas de andar à procura, que o pobre bidé já não está cá. Mas até um bidé tem alma sabes e quando decidiste que na tua casa de banho não havia espaço para ele, ficou para sempre condenado ao limbo da loiça sanitária”.

Baixei a cabeça e dei um abraço ao Piaçaba, com cuidado para não o tirar do seu suporte. Depois, rapidamente, embrulhei-o numa toalha de mão, atirei-o para dentro do armário e corri dali para fora. Para mim, há um limite neste tipo de situações e limbo da loiça  sanitária é coisa com que não estou habituado a lidar.

Liguei a um amigo hipster, para lhe pedir conselho, esquecendo-me que ele está numa fase em que considera o pequeno almoço demasiado mainstream. Chamou-me logo a atenção para o facto de, neste momento, ter uma política não-me-toques em relação a alimentos que lhe possam estragar a harmonia da barba. Recomendou-me então para o pequeno almoço um clister de ervas enriquecido com minerais e ficou ligeiramente melindrado quando lhe disse que o clister é demasiado in para o meu lado hipster. Deu-me então uma morada, de uma amiga sua que, segundo ele, fazia coisas incríveis com a Bimby, até filmes do Hal Hartley já tinha feito com tal aparelho, não teria qualquer dificuldade em fazer-me um pequeno almoço épico. O problema é que a chamada caiu antes dele me dar a morada completa e ele é demasiado alternativo para atender duas chamadas seguidas da mesma pessoa.

Resolvi arriscar, pensando que não deveria ser difícil escolher entre os segundos andares disponíveis, já que sabia tudo menos isso. Cheguei lá e tive a sorte de serem apenas 8 fracções no segundo andar. Comecei logo a suar, primeiro porque saí com uma samarra em Agosto e em segundo porque tenho o grave defeito de falar de forma estranha em conversações por intercomunicador. Arrisquei no “C” porque tinha cocó de pombo no “D” e achei que isso era um bom indicador. Atendeu uma voz feminina “Sim...” e a seguir ou disse “se faz favor” ou “fôdasseee”, fiquei na dúvida. Senti a língua presa quando disse “Por quem sois, as vicissitudes da vida trouxeram-me até aqui e...”, mas aí não tive dúvidas, foi mesmo um “fôdasseee” que ouvi antes da porta abrir.

Conforme subia as escadas, tentei lembrar-me do nome dela e não percebi porque é que o meu amigo me tinha dito Michela, a tipa não me parecia francesa nem coisa parecida. Estando em frente ao “C”, reparei no tapete de entrada, que tinha representado dois cãezinhos, em que um estava às cavalitas do outro e, pelo seu ar sorridente, a vista devia ser boa.
Abriu-me a porta uma tipa com esófago deslumbrante, pelo menos do que consegui ver entre mascadelas de pastilha. Com uma bata extremamente vintage e formas esculturais (se o escultor fosse cego), encostou-se à ombreira e sussurrou “Então car@lh0, queque foi?” e eu só consegui responder “Pois foi o meu amigo, disse que eras Michela e me fazias uma Bimby para eu comer, um pequeno almoço diferente, uma cena épica”. A resposta apanhou-me desprevenido.

“Fôdasssseeee, esta merda não é hotel, aqui a única coisa que se come sou eu e não há cartões, nem cheques, é dinheirinho vivo, camarada. Ainda por cima querias um especial, olha que fazer um Bimby sai caro...e Michela era a tua mãezinha...”

De repente, viver para sempre no limbo da loiça sanitária não me pareceu uma má alternativa. Corri dali para fora.

Já passava do meio dia e ainda não tinha comido nada o que, dada a oferta, não era de todo negativo. Ouvi o meu estômago a roncar e, para o acalmar, lembrei-me de um conhecido provérbio empresarial mongol: “O tempo accurate tudo e o tempo até o presunto cura”. Pelo menos foi o que dizia a tradução do Google e se há coisa em que podemos confiar é nas ferramentas de tradução online.

Paralelismos do cinema - Empurrões



26.8.12

O fim do festejo cigano


A coisa andou de tal forma que ontem, já a madrugada ia bem lançada, eu me permiti a uma oração para que o dia de hoje fosse de completo marasmo e eu pudesse aperfeiçoar a minha imitação de uma amiba. Obivamente que não foi e um tipo chega a domingo à noite satisfeito por amanhã ser segunda e pelo menos ter mais ou menos a certeza do plano do dia e em que condições vai chegar a casa.

Das últimas vezes que me chamaram cigano, sempre pensei que a coisa fosse pelo meu estilo comercial, tez morena e potencial para ficar bem de camisa preta e acessórios dourados. Mas, depois de três dias, nos mais diversos ajuntamentos festivos, penso que estou preparado para ir a um casamento cigano.

Não sendo possível, tenho no próximo fim de semana a oportunidade de participar num casamento de uma boa amiga, cujo tema é rural-chic. Creio que estaria mais adequado numa cerimónia cujo tema fosse rural-choque mas, pelo menos, a parte do rural está assegurada.

Possivelmente amanhã lerei este texto e irei aperceber-me que boa parte dos meus neurónios ainda não deviam estar autorizados a conduzir impulsos mas, até lá, sinto que estou a entrar no pós aniversário com o pé direito o que, apesar de ser esquerdino, é um feito de equilíbrio que muita gente que estava comigo ontem à noite já não era capaz.

Tentarei também amanhã usar o palavreado que carregaram para ali (os comentários só não se viam porque isto agora, por mais irónico que pareça, é um espaço com moderação) e faço o bolo de texto.

Se correr tão bem como o regabofe, isto vai ficar ao nível do space cake lá das terras de Amesterdão e arredores.

24.8.12

Rock n' roll - 1 Politicamente correcto - 0

E se eu já gostava de Eagles of Death Metal, como não apreciar um vocalista que usa o politicamente correcto como papel higiénico e, certamente depois de abusar de um conjunto de substâncias, nos brinda com estes minutos de "rock n' roll is not dead".

23.8.12

O aniversário é meu, o bolo é para vocês

Dada a consideração que tenho por vós, tomei a liberdade de não pôr cá os pés hoje, mas deixar um post que começa logo com um cliché da publicidade adaptado "O aniversário é nosso, mas os presentes são para os nossos visitantes".


Ao espírito desta banhada, lembrei-me que, mais interessante do que os habituais comentários de aniversário como "Parabéns palhaço", "És um gajo espectacular(mente imbecil)" ou "Uau, qual é a sensação de fazer anos e continuar sempre a ser uma criança em termos mentais?", podem deixar um extra para eu fazer um "bolo".

Assim, comentários colocados durante o dia de hoje devem indicar uma palavra da vossa escolha para eu incluir no bolo-texto que farei lá mais para o fim de semana. Uma palavra por utilizador e, entre anónimos, o critério fica à minha escolha se uso ou não. Se deixarem mais do que uma palavra, eu escolho por vocês. Invistam na loucura, a mim dizem-me que compensa.

Estou certo que o resultado final será a modos que coiso.

E agora, vou continuar a fazer seja lá o que for que estou a fazer neste momento, mas de certeza que não é isto...



PS - Não, não me chamo Navin.

22.8.12

Dueto na folga de S.Cipreste


Depois de mais uma noite mal dormida ao lado do seu marido, bateu três vezes no toco de madeira que traz sempre na carteira e murmurou baixinho 
"Bicho bichão
aranha aranhão,
em nome de s. cipreste,
tudo o que faço te preste."
Benzeu-se, sorriu, arrumou o toco e saiu do quarto.

S.Cipreste, que por essa altura se deliciava com a Vibraplate comprada nas televendas, olhou desconfiado para o alerta-sms. Porque raio insistiam em lhe fazer pedidos por rimas cheias de bicharada suspeita e métrica alucinada? Decidiu ignorá-la, lembrando-se que já tinha acudido aquando da oração sobre a Bimby da vizinha.


Saravá Helena, por tão cipriânica oportunidade.


100 palavras : 2 pessoas = Duetos improváveis plenos de falta de sentido.  
Participa via mail se tens algo a dizer, participa também se não dizes nada de jeito.


A influência do Saw na língua portuguesa


Aborrece-me aquele tipo de pessoas que atira pedras indiscriminadamente contra quem dá erros ortográficos. Não porque ache que dar erros ortográficos é algo espectacular e bacano, até porque bacano a sério é mandar SMS com duzentas mil abreviaturas e um resultado final que fica entre o código morse e o português falado por alguém com uma trombose. Digamos que considero mais útil moderar o exercício e atirar os calhaus com parcimónia, nas situações mais apropriadas.

Aliás, diga-se de passagem que, naquilo que me diz respeito, sou o mais exigente possível e estando longe de ser infalível, faço os possíveis para evitar que me peguem por aí em tudo o que tenha que ver com a escrita. Tirando neste blog, onde o Neanderthal que vive em mim sem pagar renda se apodera das rédeas e varre tudo sem primor.

Como referi, guardo as minhas pedras para quando vale realmente a pena e eu creio que a influência Saw já merece uma citação. Há uma epidemia de gente a serrar punhos e ninguém põe cobro a isto, deixando que o horror e o sangue se espalhem em situações em que as pessoas estavam a lutar pela sua causa.

Recentemente, numa apresentação para perto de cem pessoas, vi um líder de equipas, um orador destemido, referir que o ano estava a ser difícil, mas estava na hora de serrar os punhos e ir à luta, algo que sustentou com uma imagem inspiradora onde constava essa frase chave. Senti-me tentado a perguntar se os punhos não faziam falta para depois ir à luta e se não era melhor deixá-los onde estão, mas “serrei” os dentes e deixei passar, sem ninguém ter dado pelas golfadas de sangue que me emergiam da boca.

No passado fim de semana, ao folhear o jornal “A Bola” em casa de alguém, vi uma notícia em que um treinador ou um jogador, se voltava para o público com uma atitude ganhadora, de punhos serrados. Fiquei comovido, um jogador sem mãos a entregar-se à luta, mas depois vi a imagem e percebi que os punhos estavam apenas cerrados e perdi aquele feeling emotivo.

O corrector ortográfico é um sacana, muitas vezes não avisa a malta de erros de coerência, apenas corrige a ortografia e isso é meio caminho andado para serrar os pés a muita gente.

21.8.12

Paralelismos do cinema - Girl meets half robot, half cop



Reaprender a respirar fundo



O jeito que as fotos pós-modernas dão, quando boa parte das palavras sofrem de rotura de stock. Eu já volto, só preciso de ir falar com o fornecedor.

20.8.12

A dor em pausa


Não sou apologista nem tenho pachorra para os devotos da desgraça, do choradinho, da procissão dos coitadinhos, da lenga-lenga do depressivo profissional e de todo um conjunto de ferramentas sócio emocionais que muita gente utiliza consciente e inconscientemente com os que os rodeiam ao longo da vida.
Mas sei reconhecer sofrimento verdadeiro e ver a nobreza daqueles que põem o seu próprio sofrimento em segundo plano para, sem qualquer plano, acudir aos que estão em igual ou pior estado do que eles, sem terem essa mesma capacidade.
Não há medalhas, não há palmas, nem as coisas acontecem para esse fim. Há apenas a dor em pausa, para dano próprio, mas que ajuda a dar sentido à palavra altruísmo.





Pescador de memórias


Pescador, que pescas tu se não tens linha?
Pesco aquilo que outra maré que não esta me há de trazer.
Mas sem linha, seja esta ou outra qualquer, como tirarás tu o que a maré te der?
Para a coisa que quero pescar não serve nem anzol nem linha, virá quanto tiver que vir ou então não será a minha.
Usas a fala como isco, está visto que és pescador sem linha, mas saberás tu o que procuras?
Saber sei sim senhor, embora não te saiba dizer como é, sou pescador de memórias, pelas minhas esperarei até que o mar quiser.
Memórias procuras tu, fitando o mar com cana mas sem linha. Desejo-te boa sorte, mas nessa pescaria tens a loucura como vizinha.
Louco não serei, varrido talvez o seja, se pescasse a minha memória talvez tivesse a certeza.

19.8.12

Síndrome do bebé ausente


a) Jovens pais fazem trinta por uma linha para conseguirem deixar o seu rebento bem entregue e irem jantar e sair com amigos e desfrutar de uma noite à moda antiga.

b) Ironicamente, jovens pais monopolizam as conversas, centrando-as de toda e qualquer maneira no seu rebento. Passam a noite nisso e depois retiram-se, dizendo que o rebento estranha quando está sem eles.

Bola extra: Jovens não pais tentam, de forma inteligentemente divertida, replicar situações de conversa em que, através de descrições vagas, fazem passar episódios com o seu cão como se este fosse um bebé, perante jovens pais que não os conhecem. Utilizam toques finais como “o problema é que se baba um bocado com o anti-pulgas” ou “gostamos sempre de o levar ao jardim, mas apanhamos o cocó que faz na relva”. É o chamado divertimento pueril.

17.8.12

Dueto com eça que é a Isa


100 palavras? Como queres escrever um dueto 100 palavras? Porque queres calar as palavras? Como calas as palavras, com silêncios? Silêncios não são palavras caladas, são palavras por dizer. Talvez 100 silêncios sejam melhores do que 100 palavras. Fiquemo-nos pelos gestos, então. Gestos sem palavras, gestos com silêncios. Em duo.
Silêncio, pensei eu dizer com apenas um gesto. Palavra que me passou isso pela cabeça, mas depois fiquei sem palavras. Tentei escrever gestos, mas gestos era uma palavra e eu já não as tinha. Restou-me o silêncio, próprio de quem sabe muito do que fala, mas pouco do que escreve.

Um silencioso obrigado Isa.


100 palavras : 2 pessoas = Duetos improváveis plenos de falta de sentido.  
Participa via mail se tens algo a dizer, participa também se não dizes nada de jeito.

Paralelismos do cinema - A arte de beijar um espantalho



16.8.12

O estranho mundo do vinil


Antunes, apesar de aborrecido com o facto de eu ter decidido chamar-lhe esse nome tão pouco inspirador, cumpriu o seu papel na perfeição.
Segurou no disco de vinil com dedicada atenção e pensou em tudo o que lhe tinham dito. Os grandes clássicos da música tinham inicialmente sido gravados assim e ainda que aquele guitarrista que sorria naquela rodelinha no centro do disco não fosse propriamente “um grande clássico”, tinham também sido imortalizado daquela forma.

Aproximando o vinil da cara, espreitou através do buraquinho. Não se via grande coisa, mas o vinil não tinha a culpa do estado em que estava a sua casa. A culpa, nessa matéria, era do Governo. A verdade é que nunca tinha visto um vinil até hoje, lembrando-se apenas de histórias que o seu avô contava e o seu avô não era de fiar, já que também era ele que lhe dizia que Portugal já tinha dominado em tempos os Jogos sem Fronteiras.

Foi buscar uma agulha fininha de croché, um dos seus passatempos favoritos e tentou lembrar-se do que dizia o avô. “Meu pequeno Antunes, os vinis começam a girar e ouvia-se música de grande qualidade”. Passou a agulha pelo buraquinho, segurou-a com uma mão e encostou a outra no rebordo do disco de vinil. Fechou os olhos e fez rodar o disco com força.

Nada.
Nem um acorde de guitarra, nem sequer uma coisa que se assemelhasse vagamente à sensação que tivera quando encostara um búzio ao ouvido e lhe parecera algo que tanto podia ser o mar, como a faixa de rodagem da ABC25.

O sacana do velho, sempre a gozar com ele. Discos de vinil a dar música...era mesmo coisa daquela cabeça, só faltava ouvi-lo outra vez a dizer que havia gente que metia cartas no correio para falar com outras pessoas. Yeah right, SMS e mails, duhhh.

Até os gelados fazem liftings




De um lado, um pirata baixote, barba desgrenhada, uma botifarra old school e um coto de madeira como mandam as regras da pirataria. Degusta sem medo o seu gelado e tem na mão o que tanto pode ser uma faca, símbolo da sua virilidade, como uma banana com um suporte esquisito.
Do outro lado, algo que se aproxima rapidamente de um pirata meio abichanado. A sua roupinha denota um cuidado mais apurado na escolha da indumentária, algo muito suspeito para um pirata, assim como ostenta uma barba demasiado alinhada para um tipo que só sai do barco para semear o pânico e comer gelados. Tem um coto de madeira a condizer com o sapatinho, ambos novamente suspeitos e come, não um, mas sim três gelados, certamente para suprir necessidades emocionais. Tanto a pose, como a forma como gesticula indicam um triste futuro na pirataria, mas grandes probabilidades de sucesso nas danças latinas.

No miúdo da esquerda, vê-se uma atitude despreocupada, certamente passada pelos pais hippies e as mãos nos bolsos retratam fielmente uma juventude que sabe a importância que um futuro na política pode trazer. Faz um balão rebelde com a pastilha, mostrando atitude e um azul muito comum entre alimentos provenientes da natureza. Não sabemos para onde vai, mas sabemos que, a comer Epás assim, certamente vai longe.
Do outro lado, é nitidamente um panhonha disfarçado de radical. Ai tenho um skate, sou um grande maluco, mas tenho mais protecções do que alguns soldados na Guerra do Golfo, porque os meus pais não me deixam sair de casa assim à maluco, porque depois fico aleijadinho. Ai, ai, o meu gelado tem pastilha, mas é sem açúcar, porque depois acabo como o Luisinho, o menino gordo da vivenda ao lado e já não posso ir para a TV. Este miúdo, em certos bairros, não durava mais tempo do que um Epá a ser comido...

E pronto, é para este futuro que caminhamos.

15.8.12

Relato de um dia bem preenchido

É um quarto para a meia noite e os meus neurónios ainda não voltaram a casa. Nenhum dos três...

14.8.12

Um dueto a que se sujeita o sujeito


Ao início, fiquei intrigada pelo facto de quase todos os textos participantes deste desafio terem sido escritos com o sujeito suprimido (ou será subentendido? de qualquer das maneiras, era com certeza absoluta oprimido); depois, percebi que um sujeito presente é logo uma palavra mais perto do difícil limite de cinquenta.
O sujeito leu as linhas anteriores atentamente e suspirou. Nunca se tinha visto como oprimido, pois ele era e sempre seria o sujeito e, para fazerem sentido, as coisas teriam sempre que passar por ele. Acendeu um cigarro, olhou para ele pensativamente e atirou-o pela janela. O sujeito não fumava.


Obrigado Marta, pela oportunidade de fazer reflectir o sujeito.


100 palavras : 2 pessoas = Duetos improváveis plenos de falta de sentido.  
Participa via mail se tens algo a dizer, participa também se não dizes nada de jeito.
  

O homem fato de treino


E foi então que, pela enésima vez, ela o acusou de ser demasiado sintético. E foi então que ele, sem uma palavra, se olhou ao espelho e viu que se transformara num fato de treino, daqueles bem pirosos dos anos 90. Sentiu a electricidade estática no ar. Apercebeu-se de que era domingo e, sendo agora um fato de treino sintético, cresceu dentro de si uma necessidade imperiosa de correr para um hipermercado.

Ainda a ouviu dizer que ele tinha falta de fibra, ao voltar-lhe as costas, correndo porta fora. Mas, pensou ele, a natureza de ser um fato de treino não era suposto fazê-lo correr? Falta de fibra? Ridícula a acusação, ele era agora o rei da fibra, Lord da secção de congelados.

13.8.12

Paralelismos do cinema

Seja qual for o ângulo, o argumento ou o estilo, há coisas que ligam sempre bem.



As pessoas do ponto de vista de cães e gatos



Sou pródigo em teorias sem fundamento. Como não se tratam de teorias de conspiração, nem eu pareço um tipo saído directamente da convenção “Malucos das Teorias r Us” consigo ser tolerado pelos meus pares e ter uma vida social minimamente aceitável.

Sobre cães e gatos, a minha teoria é simples e totalmente não fundamentada: muitos olham para o comportamento dos cães e, mesmo que inconscientemente, equiparam-no ao que gostariam de ver nas pessoas. Para outros, é fácil olhar para o comportamento dos gatos e ver um comportamento que, inconscientemente, é efectivamente semelhante ao de uma pessoa.

Em traços gerais, ao cão associa-se fidelidade, disponibilidade total, apoio incondicional, protecção, companheirismo e um conjunto de características que idealmente gostamos de ver, por exemplo, em amigos e afins.

Já no que toca aos gatos, especialmente da parte de pessoas que mantêm um pé atrás em relação à turma felina, é comum ouvir que são traiçoeiros, que nunca se sabe bem como vão reagir, que não “fazem companhia”, que não são de confiança, que são altivos e interesseiros, etc e tal. Curiosamente, características também elas bem fáceis de encontrar em pessoas à nossa volta.

Convivendo eu diariamente quer com cão, quer com gato, sei bem que parte disto são mitos e teorias da tanga e que ambas as espécies têm coisas fantásticas e, obviamente, os seus defeitos. Sendo ambos óptimas companhias, diria sim que não é o feitio deles mas sim o das pessoas que faz a diferença.

Contudo, especialmente em relação aos gatos, não consigo deixar de pensar que a desconfiança que algumas pessoas têm vem daquilo que disse. Gatos e pessoas têm personalidades semelhantes em pontos que geram desconforto para quem só vir as coisas desse prisma.

Teoria seguinte: Velhos em tronco nu à janela. Flagelo social ou a morte das inibições?

12.8.12

Deixar ir


O passado nem sempre fica no passado. De quando em vez, faz-nos algumas visitas ao presente e somos obrigados a decidir se lhe abrimos a porta ou se lhe acenamos de longe e o deixamos seguir o seu caminho.

Depois de uma acesa dúvida sobre o estado da ameixa portuguesa, estava eu ao fim da tarde numa caixa de um conhecido supermercado que soa quase a Bingo Tosse. Minutos antes tinha-me cruzado com uma jovem que me tinha parecido familiar, mas a qual só observei de relance, primeiro por ter pressa, segundo por achar que olhar demasiado tempo para uma mulher e segurar duas bananas na mão não é o melhor cartão de visita.

Estava então eu na caixa, quando na caixa ao lado oiço, “Olá Nome do BI que aqui pode ser Mak. Bem me pareceu que eras tu”. Volto a olhar, certificando-me desta vez que as bananas estão no tapete rolante, e de repente faz-se luz. Tratava-se de I., que eu já conhecia desde os tempos da faculdade e com a qual sempre me tinha dado bem. No entanto, como em tantos outros casos, o fim da faculdade tinha ditado o fim quase por inteiro do convívio mútuo.

Trocam-se os cumprimentos, os “como estás”, o “o que tens feito?”, “agora vives aqui?”, tudo isto ao som de artigos a passar na caixa do Limbo Posse. No entanto, há ali um muro ou um fosso de distanciamento que eu, em muitas situações semelhantes, não sinto necessidade de superar. Não se trata de medo que soe a pseudo-engate nostálgico, saudosismo puro ou coisa no género. Simplesmente acredito que os caminhos que vão divergindo sem que nenhuma das partes faça algo para o inverter, é porque a ligação nunca foi tão forte que o merecesse. Como é óbvio, posso estar errado, aliás, já errei neste raciocínio, mas a média tende a meu favor.

Por isso, dois minutos mais tarde, com todo o gosto que pude tirar deste reencontro,  cada um seguiu o seu caminho, sem trocas de telemóvel ou promessas de “eu depois ligo-te e pomos a conversa em dia”. Se isso tiver de acontecer, por obra do acaso, será sem dúvida tempo bem passado, se não acontecer, foi apenas uma chamada de atenção do passado e para lá voltará, devidamente arrumadinha.

11.8.12

Mitos da música clássica

Apesar de toda a sua qualidade, estudos neurológicos comprovam que ouvir música clássica melhora em cerca de zero as capacidades intelectuais de criancinhas e recém-nascidos, não necessariamente por essa ordem.

Lamentavelmente, o mesmo estudo não referia a influência da audição de Metallica ou Rammstein no mesmo público alvo...Pussies.

10.8.12

É sexta feira, mas não é yeah


Quando a semana se estica, quando sentes que já deves tantas horas ao sono que não tarda nada ele virá cobrá-las à bruta, quando pensas que já não pensas como devias, quando o teu corpo se antecipa umas semanas ao teu aniversário e te dá uma espécie de gripe light, certamente a pensar no Verão, o que é que tu fazes?

Sais do trabalho, ris-te na cara do calor, apesar das pessoas pensarem que estás apanhado do clima, já que o calor não tem cara e, como tal, és só uma pessoa a fazer caras esquisitas na rua e chegas a casa, pegas nos ténis, pões os calções, não deixando de pensar que dava mais jeito teres posto os calções sem teres os ténis na mão e sais para correr.

Não sabes quanto, como ou que tempo vais demorar, mas vais à mesma. Mesmo que tudo não pareça melhor, pelo menos juntaste cansaço positivo ao resto. Só depois, decerto mais lúcido, vais pensar nas pessoas que vão jantar lá a casa e esperar que estejam todas pelo menos tão em tão “bom estado” como tu.

A saúde da inveja

A par de ser um dos sentimentos mais raramente admitidos (pelo menos no que é realmente importante), é também um dos mais comuns, especialmente numa época bastante dada ao consumo e ao julgamento a partir das aparências.

Haverá sempre a teoria da "inveja saudável", como forma de motivação ou ambição, mas a verdade é que para muitos é sempre mais fácil olhar para os outros do que para si mesmo. Não lhe avaliando o grau de saúde, julgo que é possível invejar algo que não se tem, sem que isso seja necessariamente reprovável. A fronteira deverá andar por volta da zona em que a inveja é a base do que move alguém para prejudicar outro (seja de que maneira for) ou se torna o nosso centro de motivação. É não querer ter o mesmo, mas sim ter aquilo que outros têm, tirando-lhes isso se essa parecer a única solução.

E, a partir daí, por norma é sempre a descer.



PS - Apesar de, para muitos, a publicidade ser um agente principal no estímulo da cobiça este anúncio, que já tem uns bons anos, continua a ser uma ilustração literal excelente da inveja estereotipada levada ao extremo. E quando assim é, a coisa até parece ter piada.

Do you feel lucky, icecream punk?


A noite está boa para comer gelados.
Aliás, a noite está boa para muita coisa.
Permitam-me começar de novo: A noite está boa. Agora façam o que quiserem com ela.

Eu fui comer gelados e não me fiquei pelos sabores para meninos. Daí que tenha escolhido coisas que tanto podiam ser sabores como nome de matagal na Alemanha e tipo de charuto.

Sei que arrisquei. Não importa, a noite está boa para arriscar.

9.8.12

X never marks the spot



É legítimo rir interiormente durante uma conversa em que alguém, repetidas vezes, se refere a Malcolm X, nomeando-o efectivamente como "Malcolm Xis" sem ser no gozo? 

Não sendo o fim do mundo, parece-me quase caso para os Xis Files...


Perceber o meu melhor amigo

Tenho um grande amigo que nem sempre compreendo. Muitas vezes parece que nos entendemos às mil maravilhas mas, em certas alturas, não percebo as suas reacções. Gostava de saber de onde lhe vem a inspiração mas também gostava de saber como é que o posso desligar, quando não me deixa dormir. Gostava de falar com ele, de amigo para amigo e dizer-lhe "Tu trabalhas demais", mas depois surpreende-me a cada instante com associações, sugestões e ideias que me fazem pensar que o que para muitos é trabalho, para ele é diversão.

Sei que não é fácil mudá-lo mas já nos conhecemos há alguns anos, os suficientes para eu gostar dele ao ponto de querer conhecê-lo ainda melhor, com a ajuda um livro. No final, se ficar exactamente na mesma, sei que ele não vai levar a mal. Era o que faltava, tendo em conta que sou eu que o levo para todo o lado.


8.8.12

Incauto-ajuda

Nunca ofereças ajuda se não pretenderes realmente dá-la. Poderás ver-te envolvido em números de sapateado que fariam corar de inveja Fred Astaire.

Crime e Conselho


 Plínio olhou para cima, na esperança de ver o céu, mas cedo se apercebeu que a sua vista não ia para além das paredes do tribunal. Olhou então para o que de mais belo havia dentro da sala e o mundo pareceu parar por alguns segundos. O rosto dela, distinto e singular, iluminava uma sala que era o seu contraste absoluto, vulgar, escura e igual a tantas outras em que já estivera.

Embora lhe conhecesse as feições de cor, voltou a olhar, na esperança de que os seus olhares se cruzassem. Tal como prometera, nem uma única vez ela desviou o olhar do juiz que se preparava para ler a sentença. Seria demasiado doloroso, dissera-lhe, ele no banco dos réus e ela, a verdadeira culpada, a castigá-lo com olhares que pediam perdão.

Plínio não se teria importado, teria até servido para atenuar a pena que lhe iria ser ditada e que, de qualquer forma, não estava interessado em ouvir. Já tinha ouvido tanta coisa sobre o seu próprio caso, da boca de tanta gente, que a conclusão era algo que já não lhe interessava.

Tinham passado já quinze anos sobre a última sentença de prisão perpétua por conselhos sobre vida alheia. A Lei Muro, como era chamada, ditara que só familiares directos em primeiro grau de parentesco ou em segundo, com autorização especial, podiam aconselhar outra pessoa sobre assuntos pessoais ou de índole emocional.

Plínio sabia isso tudo e sabia-o também quando ela lhe perguntara o que devia fazer. Aquele silêncio que houvera até à sua resposta não tivera que ver com a dúvida sobre responder ou não e dar aquilo que seria obviamente um conselho de nível vermelho, com direito à pena máxima.

Precisara apenas de tempo para pensar na forma como a sua sinceridade influenciaria a felicidade dela. E então, mentira, para que tudo fosse como devia ser. Agora, sentado no banco dos réus, prestes a ver ditado o seu destino, sabia que tinha tomado a decisão certa.

O tempo iria apagar os traços mais visíveis do que em tempos tinha sido um conselho e da janela da sua cela, ao olhar para o céu, saberia que lá ao longe alguém seria mais feliz assim.

7.8.12

E se a vida real tivesse um narrador?


Não sei se às vezes não faz falta um narrador à vida real, tal como nos filmes. Uma figura neutra e independente que nos conta as histórias como elas realmente são ou que, no limite, nos vai revelando as coisas pouco a pouco, de forma imparcial.

É certo que todas as histórias têm dois lados mas, quando não fazemos parte delas, rapidamente percebemos que se a juntarmos nada bate certo ou há partes que divergem profundamente. A razão mistura-se com a emoção, o envolvimento tolda a lógica e perdemo-nos ao longo do caminho.

Talvez um narrador estragasse parte da piada mas, de quando em vez, daria de facto muito jeito.



PS - Este conceito assemelha-se vagamente ao de um filme que já aqui referi "Stranger than Fiction", mas sem a necessidade de matar alguém para esse efeito.

PSS - A referência musical é metafórica, possivelmente tornou-se óbvia para quem passou o dia a ouvir o Sr. Saadiq