31.7.12

Dueto de coração partido, carcaças e um velhão


Descia a escada despreocupada sem se agarrar ao corrimão. Saiu para um beco escuro e tropeçando num pão duro deu um grande trambolhão. Já no chão desconsolada, percebeu que por aquele nada, tinha partido o coração. Nisto um homem muito velhinho e que usava capachinho apareceu e pediu-lhe a mão.

Estranhou, não o pedido, mas sim a aliteração. Não lhe dava jeito o coração partido, mas ser engatada pelo velho careca não era solução. Os membros faziam-lhe falta, ao pedido disse não, ficou o velho entretido com uma carcaça que encontrou no chão. Fez-se à estrada solteira com aliviada sensação.


Saravá e bem haja, senhorita




100 palavras : 2 pessoas = Duetos improváveis plenos de falta de sentido.

O mundo do meu cão


Tenho um cão que nem sempre foi meu. No entanto, a partir do momento em que passou a ser, foi como sempre o tivesse sido. Não é de raça, mas é um cadela com fibra. Não é obediente, é teimosa, tem manias e já não tem idade para deixar de ser assim,  nem é isso que se quer, caso contrário não seria o canídeo que nos conquista à primeira vista.
Não é grande, mas também não é daqueles micro-cães irritantes, não é um cão atlético, mas sempre foi elegante, não tem um bafo que se suporte por muito tempo, mas dá sempre para aguentar e levar mais um beijinho.

A verdade é que o tempo passa e esta cadelita, por mais jovem que pareça, está quase a chegar aos 19 anos. A qualidade de vida ainda está lá, mas também se notam os efeitos da idade. Mais idas ao veterinário, um ou outro susto, redução da capacidade física e por ainda em diante. Toma os mesmos comprimidos que boa parte dos avós na casa dos 80/90 e recentemente foi preciso aprender a dar-lhe soro em casa. No entanto, mantém-se resistente, mantém-se com apetite e dá muito mais do que se poderia pedir a uma veterana com a sua idade.

O resto, será o tempo a ditar, mas a verdade é que prefiro dizê-lo agora, a vir um dia fazer um elogio em tom de saudade. Não porque não fosse merecido ou sentido ou porque a ela lhe faça qualquer diferença, mas porque a mim é assim que as coisas devem ser. No que puder ser evitarei sempre a expressão “mas já foi tarde”.

Por isso, fico feliz por poder fazer parte do mundo do meu cão o tempo que for possível, sem me preocupar com o que vem depois. Da parte dela sei que muito provavelmente o sentimento é mútuo e, enquanto estivermos bem assim, será assim que as coisas se vão passar.


30.7.12

Istamos todos a olhar para o lado


E a senhora do Metro alerta insistentemente para que eu “isteja” atento aos carteiristas à entrada e à saída do Metro, mas eu estava era disposto a dar bom dinheiro dessa mesma carteira para eles tivessem "istado" atentos à pronúncia de quem nos avisa.

Uma história feita a par e passo


Contou os degraus que iam da saída do metro até à porta de sua casa. Não tinha bem a certeza de como as distâncias se podiam converter em passos, mas sentia que aquilo era importante.
Não estava habituado a contar tantos números de seguida, por isso resolveu criar rotinas que lhe permitissem acompanhar a sua rápida passada. Primeiro, quando chegava aos cem passos, recomeçava a contagem, anotando mentalmente o total. Depois, em certos momentos, repetia apenas contagens até dez porque era mais fácil fazê-lo ciclicamente.
Do que não se apercebeu foi do facto de agora estar a dar a todas as situações com que se deparava uma equivalência em passos, mediante a duração da sua passagem por determinadas situações. Cão a rebolar, vinte sete passos, dois velhotes num banco a fumar e a dizer mal da vida, sete passos, mulher bem vestida que olha pelo canto do olho a ver se reparam nela, sete passos (ok, dez passos, mas três deles foram já depois de ela ter sorrido).
Desceu o túnel e constatou que cinquenta e oito dos seus passos tiveram um eco mais profundo do que os outros. O seu único passo pendente deu-se curiosamente na passadeira, quando um carro fez de conta que não o viu. Foi um momento de tensão, entre o 621 e o 622, mas felizmente a situação teve um final feliz.

A contagem acabou no momento em que chegou à porta de casa, tal como previamente definido. Preparou-se para deitar a chave à porta, esperando ouvir uma voz familiar do outro lado, perguntando -lhe o que tinha feito de diferente hoje. Esqueceu-se que, às horas que eram, não estava ninguém em casa e por isso deixou apenas um papel com um número escrito, sabendo que possivelmente só regressaria muito tarde.

Muito mais tarde, quando a noite já abraçava a cidade e lutava para que as últimas peças do puzzle fizessem algum sentido recebeu uma SMS “717 sempre foi o meu número da sorte”. Sorriu e preparou-se para contar os passos que faltavam até ao fim do dia.

27.7.12

Dueto com picante orgânico


Abriu os olhos, estremunhada, com o barulho do despertador que não conhecia, Olhou para o desconhecido a seu lado e tentou levantar-se, enquanto verificou que as pernas não lhe obedeciam. Tentou falar mas não conseguiu emitir um único som. Baixou a cabeça e viu uma ferida aberta no abdómen. Hã???
Já tinha tido muitas ressacas, mas nenhuma que levasse o seu fígado a fugir. Podia ao menos ter deixado um bilhetinho. Mas quem era ela para exigir isso, também não ia deixar bilhete nenhum ao marmanjo deitado a seu lado. Suspirou, nem sequer tinha trazido maquilhagem para tapar a ferida.

Arigato spiced popcorn



100 palavras : 2 pessoas = Duetos improváveis plenos de falta de sentido.

Não sou poeta e não me chamo Orlando Furioso


Percebo tanto de poesia como do cultivo de morangos. No entanto, tenho a ligeira sensação que embora me pudesse safar melhor como poeta, prefiro continuar a comer morangos a poemas.

Fora isso, quando me falam em poesia, há sempre um nome que me vem de imediato à cabeça: Orlando. E tudo por causa do título do poema Orlando Furioso. Sem investir no conteúdo, acho delicioso a ideia de um Orlando que está furioso e de alguém que nos vai explicar em várias estrofes abababcc as suas razões, até porque é preciso não esquecer que já havia um Orlando Enamorado, certamente uma versão mais mariquinhas que só contribuiu para a fúria do verdadeiro Orlando.

São nestes breves instantes em que pondero se não seria uma afortunada coincidência chamar-me Orlando, para que as pessoas que conheço dissessem de quando em vez “Pareces furioso Orlando, assemelhas-te prodigiosamente ao do poema...”. Mas depois penso melhor e ocorre-me que é escassa a fauna de amigos pródiga nas artes poéticas e ainda mais escassa a que fala como se estivéssemos numa peça de teatro clássico.

Ainda assim, não é a falta de amor pela poesia, nem estas circunstância que, furioso ou não, me demovem do nome Orlando. Para isso chega o facto de haver no bairro em que cresci um tipo com esse nome, grande em tamanho e na apetência pelo consumo de drogas, que associava ao ridículo que é ver um matulão a conduzir um Fiat Panda, a sua relação com um tipa que teve a sua beleza, mas que conseguiu envelhecer para aí 20 anos em menos de dez.

Por isso Orlando Furioso não serei, mas ao Prometeu o olho piscarei.
Não é poesia, a esta hora é sono mesmo.

26.7.12

A vida feita em tinta





Uns usam uma folha de papel, um bloco, um livro, um post it ou até uma parede para dizerem o que lhes vai na alma, transformando a vida em tinta.

Outros, usam o corpo.

25.7.12

Esquina das lamentações


Há no Saldanha uma esquina, junto à saída do Metro, que tem uma particularidade muito interessante. Sendo um ponto de passagem que cruzo com regularidade reparei que, ao fim da tarde, invariavelmente está lá alguém a lamentar-se ao telemóvel.

No triângulo que fica entre a mota dos gelados, o BES e o Metro, há sempre quem tenha aí uma (ou várias) palavra a dizer. Não consigo explicar a razão, embora o óbvio seja o “Não quero ir berrar para o Metro”. Coisa que faz pleno sentido, já que com o bom tempo é bem melhor berrar lá fora.

Nos últimos dias tomei a liberdade de apontar mentalmente três excertos de lamentações a que assisti e que provam que, nesse aspecto, o que nos falta em criatividade compensamos em cordas vocais e falta de discernimento.

Situação A (senhora bem composta possivelmente ligada à consultoria, anda de um lado para o outro, tipo tigre na jaula)

“Eu já lhe disse que não gosto de sushi (o tom de voz vai aumentando)…Não está a perceber pois não. N-Ã-O GOSTO de sushi e quero lá saber que seja o seu irmão. Se ele fosse educado, teria pensado em toda a gente, e não em encher a barriga, que já de si está cheia…”
Ironia A – Não gostar de sushi não implica não gostar de peixeirada.

Situação B (tipo que, mesmo usando gravata, não disfarça uma certa mitrice latente)

“Ó morrr, foi sem querer…então moorrr, não digas isso…. Nem sabia que era tua prima morrr….. Mas então mor, dá para passar aí depois de jantar? Antes não mor, então eu tenho futebol com a malta lá do bairro…. Ó mor…não digas isso. Môrrr? Môorr? F!$$”%#-se, desligou cabra do car#””$%o”.
Ironia B – Ri melhor o mor que desliga primeiro.

Situação C (gaja móderna, não hipster, mas móderna, sem medo de assumir a pastilha que mastiga)

“…Faz o jantar porra, ouve o que eu te digo….Mas fdx, brincamos, estou a falar com uma parede? Já te disse, faz o jantar, que a miúda não pode ficar sem comer…E tu comes o quê? Olha, come m@rdas, que é o que essa conversa é…Não, não, não estou a ser estúpida, mas ouve bem…FAZ O JANTAR…”
Ironia C – Mesmo que não te apeteça jantar, às vezes tens de comer com os outros.

Uma viagem e um dueto de macacada.


Nunca teve grande queda para a ficção. Escrever era, a par de viajar, a sua eterna paixão. Porém, tropeçava invariavelmente no registo auto-biográfico, como se escrever ficção fosse perfumar-se com uma essência rasca, barata... Mas porque lhe era tão difícil exprimir sensações que não eram suas?
Decidiu então viver mil vidas ou, pelo menos, todas as que pudesse. Seria tudo o que tinha sonhado ser, mas seria também tudo aquilo com que nunca tinha sonhado. Talvez assim, escrever sobre si se tornasse também ficção e o relato das viagens da sua existência, biografias de outros eus que não ele próprio.

Grazie zee monkey girl




 100 palavras : 2 pessoas = Duetos improváveis plenos de falta de sentido.


24.7.12

Um mundo de fantasias desfocadas


Um tipo sai para correr para aí às 7.15 da manhã. Cruza-se com um total de cinco pessoas no jardim em que faz os seus 30/40 minutos da praxe. Uma delas é uma tipa habitué a esta hora, com os kits todos modernos da corrida e com a qual troca sempre um “Bom dia” de atletas matinais, outros dois são um casal de meia idade a tentar fazer algum exercício, há ainda um gajo que parece tentar ser mais rápido do que o ataque cardíaco que vem atrás dele e finalmente um gajo alto que corre descontraidamente no relax. Como é que eu sei que ele ia descontraidamente no relax? Porque só assim é que um gajo consegue ir com um sorriso Colgate que se vê a 300 metros de distância.

O que é que isto tem a ver com fantasia?

Nada.

Essa tem a ver com o regresso ao meu prédio e ao argumento de filmes de quinta categoria. Nestes, um tipo suado depois de ter feito exercício cruza-se com uma vizinha sexy de robe que lhe gaba a condição física e lhe faz uma qualquer alusão dúbia sobre qualquer dia lhe ter que mostrar que está em forma.

Na realidade, um tipo suado depois de ter feito exercício cruza-se com uma vizinha com 80 anos de robe que lhe gaba a condição física e lhe faz uma referência directa sobre lhe mostrar que está em forma e acartar com o caixote do lixo para dentro do prédio.

É por isso que eu gue eu gosto da realidade, os clichés têm sempre um sabor diferente.

23.7.12

Extractos

Cinco amigos conversam sobre o casamento que se avizinha. Não será nenhum deles a casar-se, mas todos vão ter um papel importante. Debatidos os pormenores e os afazeres, há todo um conjunto de histórias e vivências que se desenrolam por detrás de um copo de vinho.
O bar é frequentado maioritariamente por estrangeiros, certamente de férias, o Chiado ali a dois passos, mas a animação centra-se na mesa deles. Contam-se extractos da realidade na vida de cada um, da namorada nova, ao "quando é que se casam?", passando pela incerteza do futuro, de casas e de empregos que em Portugal parecem não bater certo. No entanto, as pequenas sombras são isso mesmo, pequenas, perante o ambiente. Tudo o que se tem que resolver não tem que se resolver agora, por isso fica para mais tarde. E todos os momentos são bons para ser aproveitados.

E assim é.

Semana de trabalho a começar, a animação não é para durar, mas é boa enquanto dura. Uns é o trabalho quem espera por eles em casa, outros vão juntos para casa e há ainda quem não saiba se é para casa que vai a seguir. Seja lá para onde forem, os caminhos vão cruzar-se lá mais à frente.

E juntos vão voltar a colar pedacinhos da realidade, que pode não fazer sentido, mas que ganha outro sabor quando é partilhada assim.

Dueto com o coração na ponta dos dedos



Tenho um problema. Há quem tenha o coração ao pé da boca: articulam a fala pelos sentimentos. Eu… Tenho o coração na ponta dos dedos: problemático para quem tem uma arma na mão.
Disseram-me que a operação não era complicada.
Iriam tirar-me, um por um, todos os pedaços do coração que tenho na ponta dos dedos e voltar a colocá-los, todos juntos, no sítio certo. 
Não vai doer, disseram, o perigo quase não existe.
Não disseram mais nada, pois disparei antes que voltassem a falar. Se é para viver, vivo como sou. Não morrerei a tentar deixar de o ser.

Cheers Ricardo. 


 100 palavras : 2 pessoas = Duetos improváveis plenos de falta de sentido.

Está alguém desligado?


Experimentem desligar o telemóvel sexta à noite e voltá-lo a ligar segunda de manhã. Pelo meio, não se aproximem do computador, de tablets e de tecnologia semelhante. Se ainda se lembrarem como, ainda assim arranjem forma de estar com pessoas.

Se os dias se passarem tranquilamente, não se sentirem stressados, nem estão a dizer aos outros que estão na maior, mas vão à casa de banho ver tudo a que têm direito no smartphone, ainda há esperança. Não estão ainda demasiado dependentes das ligações virtuais que cada vez mais constituem a base das relações entre pessoas.
Por outro lado, é interessante chegar a segunda e ver quem do outro lado já está num tal grau de dependência que muito provavelmente ficou ofendido com a vossa atitude, acha que são parvos ou que isto que sugiro não faz sentido nenhum.
Não quer isto dizer que não tenham razão na parte em que acham que são parvos, mas tudo o resto são inseguranças e dependências criadas pela era do “sempre ligados” em que vivemos.

20.7.12

Como é bom não perceber um cu de música


Há coisas na vida para as quais acho que sou verdadeiramente dotado, mas a modéstia e o decoro impedem-me de fazer um texto com para lá de mil linhas. No entanto, apesar de gostar de muita e boa música, de variados sectores e influências, não tenho pejo em admitir: tecnicamente, não percebo um cu de música.

E é exactamente isso que me faz delirar com ela. O conhecimento técnico ou seja lá o que lhe queiram chamar é uma coisa espantosa, mas também nos tira um pouco de liberdade inconsciente de apreciar uma coisa pelo que ela é (apesar da vantagem de saber apreciar com conhecimento técnico).

Coisa que não me acontece com a escrita ou com outras áreas, em que tenho a tendência natural de avaliar a coisa não só pelo que é, mas também pela forma foi feita, analisar mais racionalmente e por aí em diante.

Não sei fazer música, não tenho o mínimo talento para cantar, não percebo de composição para além do que qualquer comum mortal sabe. O que me permite viver as coisas com um prazer mais inconsciente. E isso, quando é bom, é do caraças.

E ontem, no hipódromo de Cascais, foi exactamente isso, do caraças. E é também por essa razão que a música é um território  de conhecimento técnico que, enquanto as peças no tabuleiro continuarem assim, planeio deixar virgem por muitos e bons anos.




19.7.12

Show me what you got



Na cabeleira já vi que levas a coisa a sério, não espero menos do resto daqui a bocadinho Erykah.

Causa-Efeito

Larga-me que eu atiro-me. Larga-me, já disse. Não me estás a ouvir, larga-me. Não me agarres. Laaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaar....








ga










-me

Os piratas e o IRS


- É uma vergonha – proferiu Barba Fuchsia em tom exaltado – digo mais, é uma vergonha que tresanda como as entranhas do mar.
Tem calma, que se passou? A orelha inchou outra vez por causa dos brincos mal esterilizados? – Capitão Berloque, sempre preocupado com os acessórios, não reparara que Barba Fuchsia nem brincos tinha naquela manhã.
- São os cabrões das Finanças, recebi hoje um envelope quando atraquei na doca de Antígua. Querem penhorar-me o navio, porque dizem que ando a enterrar tesouros em ilhas offshore.
- Qual navio, o “Floribella”?
- Esse mesmo, caraças. E alguém me explica como é possível uma ilha não ser offshore??

Ao dizer esta frase em tom mais enervado, voltaram-se alguns olhares na taberna “O Perna de pau”. Por aquela altura poucos eram já os piratas que frequentavam sítios assim, os mais modernos frequentavam agora a “Assembleia”. Os poucos que restavam, eram um pouco como idosas à entrada do posto médico, estavam ali mais para se queixar do que para procurar soluções.

Capitão Berloque, que valorizava como acessório máximo o rum, já estava ligeiramente tocado e a manhã ainda nem tinha chegado ao fim. Também, o que é que isso importava, afinal de contas ele era o pirata, mas a ex-mulher é que o tinha saqueado de tudo num divórcio disputado até à última bala de canhão. Sobrava-lhe o seu velho amigo Barba Fuchsia, um dos poucos que ainda se conseguia safar. Pelo menos até agora.

- E agora, ainda por cima, dizem que estou mal enquadrado no meu escalão. Que não tenho as credenciais de pirataria em dia. COMO É POSSÍVEL? Eu próprio levei à repartição a caveira com os dentes de ouro e a língua de um corsário para validar o processo...
Capitão Berloque acenou com a cabeça. Viviam-se tempos difíceis, as Finanças eram agora mais rentáveis que os piratas e a burocracia não se combate com canhões. Tentou confortar o seu amigo.
-Olha, pelo menos ainda tens a tua tripulação. Eu, tirando um macaco cego e um mimo, não tenho nada, depois do que aquela cabra me fez.
Os olhos de Barba Fuchsia abriram-se ainda mais – MAS QUAL TRIPULAÇÃO? Já só lá tenho nove ou dez e começo a ter que lhes cortar membros para lhes poder cortar no vencimento. A semana passada tive de atirar CINCO, CINCO ouviste bem, borda fora porque tinham salários em atraso e tive medo que fosse lixar-me nas Finanças.

Capitão Berloque ficou em silêncio, girando o chapéu nas mãos. Parecia estar a ouvir Barba Fuchsia em slow motion, o rum estava a bater-lhe mais forte do que é costume. De repente, puxou a barba do amigo e, atraplhadamente, tentou beijá-lo.
Barba Fuchsia levantou-se de um salto, afastando Berloque com o Braço e sacou da espada. Com o punho bateu na cabeça de Berloque, que caiu estatelado no meio do chão da taberna. – Então, que merda é esta? Já não me bastavam as Finanças e agora tu...
Meio combalido, Capitão Berloque, esticou os braços para cima – Epá desculpa, isto do álcool e do divórcio, pensei que se calhar....epá pronto, desculpa.

Barba Fuchsia suspirou e guardou a espada. Enquanto o taberneiro e mais dois ou três cuidavam de Berloque, deixou dois dobrões em cima do balcão e deu ordens para que servissem do melhor rum ao amigo.

Saiu para ir pensar junto de Floribella frase que, sem o saber, era empregue pela primeira vez na história. O que o preocupava não era o amigo estar a abichanar, mas sim o facto das Finanças o estarem a tentar comê-lo à bruta e nem sequer uma pinguinha de rum usarem para criar ambiente. Uma ilha offshore, mas que raio de ideia.

18.7.12

O que é um misto?

É algo que, não se definindo, junta duas coisas diferentes que podem ser tudo e podem não ser nada.

Uns anitos depois de ver isto pela primeira vez, o gozo de não saber bem em que categoria colocar o que estou a ver, apesar de tudo estar bem definido (é um anúncio Sony Bravia, com música do Jose Gonzales, filmado em São Francisco) continua a ser um misto.

E, tal como uma boa tosta, é apreciá-lo como tal.


Dueto: O pionés e o cabelo


Tinha acordado às voltas com o raio da frase. "Engrossa cabelinho, engrossa cabelão". Não sabia se era resto de sonho, profecia, ou memória de um anúncio televisivo a um tónico capilar. A medo, passou a mão pela cabeça, mas nenhuma medusa se lhe tinha mudado para o escalpe.
Tomou um RedBull para acalmar e pensou: não deve ser nada, como da outra vez que passei uma semana a pensar na frase “tenho uma lágrima no canto do olho” e foi-se a ver nem era uma música, era um pionés que lá ficou depois da rixa na aula de trabalhos manuais.


Grazie ragazza, és grande. 


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Abordado por um frango assado

Não és o primeiro alimento que fala comigo mas és sem dúvida alguma o mais atrevido. Posso parecer antiquado mas não estou habituado a conviver com frangos assados às nove e meia da manhã à saída do Metro.

Admiro-te a ousadia pois apesar de termos amigos comuns, a verdade é que a ti, propriamente dito, não te conheço. Vieste falar-me de rotinas, de não serem precisas cerimónias, do facto de eu estar à vontade e de como tu não és como as pessoas formais com que presumes que me dou durante o dia.

Sem vergonhas, dizes-me que te posso comer com as mãos e confesso que, depois disso, só me admirei de não dizeres que também te podia comer à bruta. Mas não deixaste de fechar a coisa com elegância, dizendo que podia trazer mais uma pessoa para te comer à borla.

Não sei o que andas a tomar frango assado, mas é isso que queres para ti? Alguém que traga um amigo e que ambos te comam com as mãos, pelo mesmo preço? E estás disposto a abordar qualquer pessoa na rua para conseguires o que queres?


Frango assado, tem cuidado. As pessoas podem começar a perder o pouco respeito que já tinham por ti.

17.7.12

Partículas de um deus hipster


A partícula de Deus, diziam eles. Esboçou um sorriso, algo contido, só ele sabia porquê. Fascinavam-no todos estes anos de pesquisas persistentes e extenuantes, porque, para ele, não passavam de uma vã tentativa de chegar àquilo que nunca ninguém haveria de chegar. Não no que dele dependesse.
Quem precisava de partículas de Deus, quando tinha um vinil de originais do Bob Dylan, seu desde aquela aposta sobre o agrimensor de Kafka. Se Deus fosse hipster, como ele teria rezado para que fosse, se a religião não fosse algo tão mainstream, certamente faria da sua partícula tudo menos algo alarvemente glorioso.

Thanks girl 


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O dia em que me lancei aos pés de uma mulher


Lembro-me bem desse dia, embora certos contornos pareçam agora vagos. Estávamos no Verão e eu devia ser adolescente, porque era bastante parvo, coisa que hoje em dia já não é assim, pois agora só apenas relativamente parvo.

Eram as férias grandes, mas nem sequer me lembrava disso, tal como muitas outras coisas só sentimos a falta delas quando já não as podemos ter. Estava Sol, eu tinha tempo livre e ia ter com um amigo meu a Algés. Como jovem ligeiramente dado à mitrice ocasional, resolvi que seria uma boa ideia andar na penda* do eléctrico para chegar até lá.
O esquema era o costume para quem conhecia essas rondas, descia-se a Belém, com o cuidado necessário para só apanhar o eléctrico à pendura depois da esquadra ao lado do Palácio de Belém. Caso contrário, um tipo arriscava-se a passar uns bons minutos a levar uma esfrega da polícia.

Portanto, por altura do Mosteiro, era esperar que ele parasse, que não trouxesse já dez mitras encavalitados e agarrar as frestas da porta das traseiras contrária à da saída. Depois eram 5-10 minutos até Algés a levar com o vento na cara a desfrutar da sensação de frescura e ser pelintra. Eis quando, já perto do destino, junto ao Aquário Vasco da Gama vejo uma jovem giríssima parada no passeio, a 300 metros da paragem.

Haverá forma melhor de impressionar uma miúda do que saltar de um eléctrico em andamento? Há, mas na altura não me ocorreu. Apesar de estar habituado a sair em andamento quando o eléctrico já vai a abrandar, quando a coisa não se passa assim as regras mudam.

Por breves segundos pensas que sabes voar e nada te pode parar. Depois descobres a gravidade. Quando os teus pés tocam no passeio, tentas acertar o passo e compensar a desaceleração face à velocidade do eléctrico. Consegui-o em pleno durante um segundo e meio. Depois troquei os pés todos, meio passo de corrida, meio gajo descontrolado a cambalear. As mãos à frente, antecipando a queda, que se vai atrasando mas avisa que não demora. Finalmente, joelhos ao chão, travagem e duas mãos a amparar uma semi-cambalhota. O mundo gira e quando acaba de girar tenho duas pernas à frente da cara.

Ela olha, meio assustada, meio divertida, para o alien que caiu do 15. Ainda sem dores aparentes, sorrio e acrescento “Peço desculpa por não ter trazido flores”. Ela ri-se e faz sinal para uma amiga que acaba de chegar do outro lado da estrada, antes de me perguntar “Estás bem?”.

Claro que sim, digo eu antes de me levantar rapidamente, como fazem todas as pessoas que caem e não querem dar parte de fracas. Aceno-lhe, pisco o olho e começo a andar, mordendo o lábio para disfarçar as dores que agora aparecem. Volto-me para trás e ela está a retratar a cena à amiga.

Chego ao pé do meu amigo a parecer que acabei de sair de uma oficina, todo cagado. Ele não acredita em metade da história, pelo menos na parte que não está gravada na minha roupa. Agradeço aos deuses o facto de ainda não existirem telemóveis de embarda e a net não ser o que é hoje. Como ainda não sabia que essas coisas iam existir creio que na realidade agradeci apenas o facto da plateia ter sido reduzida.

Jurei nunca mais me lançar aos pés de uma mulher.
Pelo menos depois de saltar de um eléctrico em andamento.




* penda - arte perdida de andar gratuitamente em eléctricos dos antigos, agarrado da parte de fora dos mesmos, no lado da porta não utilizada na parte de trás.

16.7.12

As alcunhas ficam congeladas no tempo

Apesar de ser bastante dotado na arte de chamar nomes às pessoas, nunca fui fã daquela alcunha boçal que é apenas um reflexo da falta de imaginação. Mas, sabendo como são os miúdos, multiplicam-se no passado os "gordos", os "caninas", os "vidrinhos", os "cabeças" e "carolas", as "miss piggys" e por aí em diante.

A questão é: como se lida com isso passado 10/15 anos e se encontra uma dessas pessoas? O "gordo" pode até já não ser gordo (mais difícil no caso do "canina"), mas por vezes o nome verdadeiro é coisa que não consta do banco de memória. E aí entra em jogo a capacidade de botar discurso sem nunca referir o nome dos outros. Aí é que se distinguem os verdadeiros artistas da retórica da malta que faz conversa de encher sem grande rendimento.

Complicação:

Eu disse que não gostava de alcunhas fáceis, mas mesmo que fosse só num grupo restrito nunca me abstive de criar outras mais artísticas para algumas pessoas. Admitia perfeitamente que me fizessem o mesmo, sem qualquer tipo de problemas, pois quem vai à guerra das alcunhas dá e leva.

Só que, temo o dia em que reencontre figuras que baptizei como:

"Bifana humana"

"Bardajona dos matrecos"

ou até "Uatchónei-me", também conhecido apenas por "Uatchó"


Curiosamente, neste momento da minha vida, lembro-me do nome real dos três mas que garantias tenho eu quando o disco rígido começar a falhar? É que nomes rebuscados obrigam a outro esforço e "Então bardajona dos matrecos, estas são as tuas filhas?" não me parece um bom início de conversa.


"O Gato e a Cabra" Dueto improvável Rosa Cueca


Ela levantou os olhos e viu-o, agora mais perto. Quis mover-se, mas sentiu que a qualquer momento poderia tê-lo em cima dela, louco. Hesitou e ele, de repente, acercou-se dela. A mílímetros, perscrutava-lhe os gestos. Aí, num último gesto, ela..abriu a lata de Whiskas e contemplou a refeição do gato.
Contemplou-a com desprezo, sempre a querer roça-roça, insistindo em falar-lhe como se ele fosse uma criança. Tinha cá uma lata…ainda por cima era Whiskas borrego e legumes. Só lhe apetecia saltar-lhe para cima, enfiar-lhe o borrego pela goela abaixo e vê-la sufocar na mistela que lhe impingia todos os dias.


Gracias, cara senhora.


 100 palavras : 2 pessoas = Duetos improváveis plenos de falta de sentido.

Fechou a torneira e abriu as janelas

A partir de hoje, começam a sair duetos. O primeiro é em tons de rosa boxer.


E já vos disse que gosto bastante de ouvir esta música quando está calor e as janelas do carro estão abertas?




Só é chato quando estou em casa, porque aí tenho de descer, ir até ao carro, abrir as janelas, voltar para cima, pôr a música para depois no fim voltar lá abaixo e rezar para que não tenham roubado o carro.

13.7.12

O drama de jantar com pessoas sem vida social


Para além das vozes na minha cabeça, há algo que me tem andado a perturbar.
Fui jantar no início da semana com pessoas que vim a confirmar serem estranhíssimas. Ninguém fez um update nas redes sociais durante a refeição, não foram tiradas fotos com Instagram, insistiram em ter conversas interessantes e até ao momento nenhum dos pratos que chegaram à mesa tem perfil no Facebook.
Tendo em conta que falamos de gente na flor da idade, tal como eu, e não parte de uma qualquer excursão de idosos dispostos a tudo por um garrafão de azeite, começo a pensar que não têm vida social...

11.7.12

Equação medicinal

Tenho a clara impressão que, em média, existem mais veterinários a gostar de animais do que médicos a gostar de pessoas.

Eu e o Project Runway - Dueto improvável ou talvez não


Confesso que ao aperceber-me deste facto tive que agredir indiscriminadamente dois escuteiros com o andarilho que tinha roubado a uma idosa dez minutos antes. Não foi bonito, mas foi uma garantia que não estava a amolecer de vez.

A verdade é que, um pouco mais tarde, ao tomar os poucos comprimidos de maturidade a que tenho acesso apercebi-me que afirmar sem medos que se vê o Project Runway, que se sabe quem é o Michael Kors e a Nina Garcia (sim, porque a Heidi Klum já eu sei bem quem é há muitoooo tempo) e que se acha que os tipos decidiram mal o vencedor da season 8, não é sinal que o nosso lado mais sensível é que usa as calças lá em casa. Até porque para contrabalançar também sei dizer de cabeça os clubes todos da ex-Liga Orangina, reconhecer 80% dos cromos do Euro2012 e saber quem marcou o golo da vitória no Itália90. Isto para não falar de saber o nome quer do vocalista dos Motorhead, quer da sua verruga.

Portanto, estou mais tranquilo em relação ao Project Runway, agora só me resta tentar evitar chorar a ver o Extreme Makeover.

Em relação a este tipo de duetos improváveis, no qualpodem alinhar comigo, como só vou começar a despejar os resultados para a semana, os interessados podem ir mandando o material, que eu aviso quando fechar a torneira de vez.

10.7.12

Me and Jackie O


And she stood there, silent, lost in what was before our eyes. That big old reservoir had much more than just gallons and gallons of water, it also had all our memories inside it.
“Do you think things will ever be the same?” i asked, knowing that when you ask something like that you already have your answer and it ain’t “yes”.
She gave me a smile as an answer, a sad and distant smile. We both knew. He wasn’t coming back and we both had to deal with it our own way.
She turned her back to the reservoir and started walking, touching me gently with her hand in my shoulder as she passed by. I made no attempt in following her.
I felt a cool breeze coming from the reservoir and i looked back to that very special oasis that made Central Park my second home.
It was then that i saw a midget swimming just a few yards to my left  and i finally understood why I was thinking, speaking and writing in english. 

David Lynch had done it again.

David Lynch, sai da minha cama


David, permite-me que te diga, quando ontem falei naquela história de duetos improváveis abertos a toda a gente, não estava à espera da tua atitude. Tudo bem que era segunda à noite, não é propriamente um sinónimo de agitação, mas hoje estou aqui que pareço um repolho.

Entre idas ao veterinário a meio da noite (não, não é a mim que me dói a patinha), cenas em que eu é que vou ao multibanco às quatro da matina e o tipos com mau aspecto é que mudam de passeio e a dúvida persistente sobre quem interpretava o “Knock on Wood” que passava na rádio a essa hora, confesso que me tinha dado algum jeito aproveitar as três horas de sono que me restavam.

Mas não David, tinhas que vir atrás e dar inputs no meu micro sonho. Eu que até sou apreciador do teu trabalho e gosto imenso da forma como deixas as pessoas baralhadas sobre o conteúdo dos filmes, não lhes dando outra opção senão sair da sala a dizer que gostaram muito e a rezar que não lhes perguntem o porquê disso mesmo. Mas não, tinhas de vir fazer duetos inconvenientes e deixar-me três horas a sonhar que a minha casa, não mudando de número, estava num sítio diferente da rua. E que por mais que eu tentasse descobrir onde é que estava a falha, quando entrava a casa era a mesma, quando saía para o jardim das traseiras já era diferente e quando saía pela frente a casa estava cerca de 200m mais à frente, mas todos os números se mantinham iguais.

Obrigadinho David, pelo labirinto mental que faz com que hoje consiga lamber as minhas olheiras sem ter uma língua tipo réptil. Vá lá que não arranjaste forma de meter anões ao barulho.