31.5.12

O guru estava mesmo a pedi-las


Numa dada caixa de comentários, uma senhora a quem eu já troquei os links 50 vezes referiu por estas bandas a palavra “guru”. Compreendendo eu a grandiosidade que o termo pretende definir, nunca consegui que esse palavra deixasse de ter associado um tal grau de regabofe que, cada vez que o oiço, ainda me dá sempre uma certa vontade de rir.

Para que isto sirva de base para uma história há que explicar em que contexto a palavra “guru” teve pela primeira vez um impacto idiota na minha vida.

Por altura do meu terceiro ano da faculdade, avançava já eu para um mestrado em matrecos a par da licenciatura, quando tive pela frente uma cadeira chamada Ciência da Administração. Visava a cadeira transmitir aos alunos os princípios estruturais das organizações ou matá-los de tédio, conforme o que chegasse primeiro. Para que o factor mofo não fosse descurado, o regente da cadeira, sobrevivente de três tromboses que já caminhava sobre a Terra  no tempo dos mamutes aparecia para dar várias aulas.

Numa delas, possivelmente das poucas que fui antes de me aperceber que mais valia tentar passar a cadeira sem o sofrimento das aulas, a certa altura pergunta “Alguém me saberá dizer quem foi Henry Mintzberg, um dos gurus da Ciência da Administração moderna?”.

O silêncio imperou e quando o silêncio impera aumenta a tendência em mim para o abismo da idiotice. Antes de pensar disparei entredentes mas de forma bem audível “A nível de gurus só posso dizer que conheço o can-guru”. Galhofa monumental instantânea, seguida por silêncio sepulcral dados os protestos do regente: “Quem disse isso? Quem ousa esse tipo de brincadeira em ambiente académico que se quer elevado?”.

Como ninguém se acusou e as tromboses já lhe minavam a vista de um lado, tratou de partir para uma dissertação sobre os valores perdidos da juventude, antes de partir para outros gurus como Taylor ou Faiol.

Anos mais tarde, esse mesmo senhor mostrou ele próprio ser um guru da trafulhice, pois foi um dos principais envolvidos no escândalo de outra universidade onde tinha responsabilidades, a Moderna. Mas, digam o que disserem, para mim Mintzberg será para sempre o can-guru que tirou toda a credibilidade à palavra e me atribuiu o rótulo de parvo vitalício.

Histórias da meia noite e picos


Saiu à rua só porque gostava de andar a pé pelo seu bairro quando a noite já ia avançada. Não fumava, não passeava o cão, nem sequer tinha insónias e se lhe perguntassem o porquê daqueles passeios dizia apenas que o ar fresco da noite lhe fazia bem aos pensamentos.


Aqui e ali cruzava-se com uma ou outra pessoa, casais que voltavam a casa e por vezes velhotas que não resistiam a segurar a carteira com mais força à sua passagem. Nunca se sentava nos bancos que existiam junto à zona ajardinada mas por vezes parava em frente a eles, lendo com curiosidade as mensagens lá gravadas – “Jomi loves Karla”, “Dread AC é que é” ou um dos seus favoritos “Sentado vi minha vida passar sem ter forças para ir com ela”.

Perguntava a si mesmo se chegaria o dia em que se sentaria só para ver a sua vida passar. Não obtendo resposta, olhava para o céu e tentava apontar algumas estrelas que aprendera na escola. Não se importava de errar em Orion ou de não saber bem se aquilo era mesmo Vénus. Quem é que o iria corrigir.

Fazia então o caminho de regresso, passo largo mas ainda assim pausado. Via quase sempre luz no rés do chão do 38, imaginava se era alguém que dormia de luz acesa ou gente dada ao trabalho nocturno. Uma vez vira uma mulher seminua junto à janela do primeiro andar direito do 44 e tivera pena de não ser antes a do 50.

À entrada do prédio cruzou-se com a velhota do segundo esquerdo, que ia pôr o lixo. Sofredora profissional, viúva e vigilante da vizinhança, nem sempre por essa ordem, gostava de falar com ele. Na realidade gostava de falar com toda a gente, mas ele fazia-lhe porventura lembrar o filho, do qual falava muito mas via muito pouco.
“Está fresquinho, veja lá não se constipe aí às voltas à noite.”
“Foi só uma voltinha, quer que deixe encostada?”
“Se faz favor filho, que já me custa a andar a baixar com a chave.”
“Fique descansada. Até amanhã.”
“Até amanhã filho, olhe que a luz das escadas no primeiro não funciona e não há maneira de arranjarem o elevador.”
“Obrigado, força...”

Conforme subia as escadas, depois de cuidadosamente ter deixado a porta da entrada encostada, ocorreu-lhe que aquele prédio nunca tinha tido elevador. Teria de referir isso na próxima reunião de condomínio, pois andavam a tratar do arranjo há meses.

O bom das insónias

É que nos permitem ler textos do género jocoso e fraco teor literário, postados já depois da meia noite enquanto o seu autor dorme tranquilamente o sono dos justos ou, no limite, dos parvos.

Nem sempre as ferramentas do progresso, como o "Schedule" são utilizadas por gente séria e bastante organizada.

30.5.12

Usem um desconto de tempo pela manhã


 De algumas semanas para cá tenho pedido um desconto de tempo pela manhã. Se partirmos do princípio que não enlouqueci de vez, eis aquilo de que falo:

Quando saio de casa, a caminho do trabalho, esteja adiantado, a cumprir horários ou atrasado (sem que esteja ninguém a depender da minha chegada), aproveito o facto de passar por um jardim, sento-me num banquinho, de preferência ao sol e durante dez minutos leio ou escrevo sem me preocupar com mais nada.

Sei que se tivesse escrito que me visto apenas com uma gabardine, me escondo atrás de uma árvore e surpreendo mulheres com uma espécie de flashmonomob pervertida possivelmente causaria mais impacto, mas a realidade é pura e simplesmente esta.

Depois desses dez minutos, tudo me parece muito mais fácil de relativizar. Tirando uma velha com o fato de treino excessivamente apertado, oscilando as suas formas durante o seu power walk.

29.5.12

Um dia o teu pacote perde a piada. E já foi ontem.



Há que começar com um mea culpa – não é bonito utilizar repetitivamente a palavra “pacote” num título. Aliás, é coisa para trazer até este espaço gente ainda mais problemática do que aquela que por aqui já pulula. Mas adiante que, bem vista as coisas, a clientela de um sítio apenas espelha a essência do mesmo.

Imaginemos um bom pacote, um pacote trabalhado e bem cuidado, um pacote que surpreende quem o vê, lhe desperta o interesse e se torna um pacote que dá gozo tê-lo nas mãos, falar dele aos amigos e até ficar a pensar nele até tarde. Mas, ao fim de um certo tempo, o pacote não deixa de ser um pacote e, perdendo a noção disso, vai-se desleixando pensando que a mesma surpresa repetida mil vezes continua a ser uma surpresa. De tanto uso, o pacote perde a piada, já só lhe colocas a mão em cima a medo e suspiras quando pensas que aquele pacote, que já foi tão agradável, não é mais do que uma sombra de si mesmo. E de repente, olhamos para o pacote e já não vemos nada que nos atraia.

E foi exactamente por este processo que passou a Nicola. Quando foi lançada, quer se goste ou não do tom, a campanha “Hoje é o dia” da Nicola teve a mais valia de pôr a malta curiosa em ver o que lhe calhava no pacote (força de expressão) e não faltou quem tirasse dali lições, inspiração para a vida ou dois ou três momentos de paródia. Seja como for, a coisa resultou.

O problema de ter sucesso é também saber geri-lo. A marca viu ali um filão e até aos dias de hoje tem explorado a coisa até à exaustão. Primeiro passou-se de frases escritas presumo eu pelos copys da agência de publicidade para o apelo ao poeta que há em cada consumidor. É engraçado, é dinâmico e “engaging”, palavra muito em voga no mundo da comunicação, mas levanta a questão de, por cada poeta decente, aparecem cem de arrepiar cabelos.

Depois, passou-se do dia para a noite. E “Hoje é a noite” é já um bonito universo que promete descambar a qualquer momento sem o controlo adequado e esse perde-se na hora, com a ânsia de passatempos e tentativas de capitalizar nas redes sociais (onde, com sorte, 30% das marcas sabem o que andam a fazer, 50% andam a tentar e 20% ainda tentam perceber o que isso é). De repente, temos frases “inspiradoras” nascidas ao desbarato, que certamente fazem as delícias de quem acha que esta campanha ainda não morreu, mas que se traduzem em coisas deste nível:

“Uma noite uso uma frase Nicola para o engate. Hoje é a noite.”

“Uma noite embaciamos os vidros do carro. Hoje é a noite.”

“Uma noite conto todos os sinais que tens no corpo. Hoje é a noite.”

“Uma noite exploro o teu interior. Hoje é a noite.” (M-E-D-O)


Longe do puritanismo, que é coisa que não uso, vejo um pacote à deriva com mensagens de ir ao pacote. E vejo a Dona Alzira a pensar em quantos sinais terá no corpo, enquanto bebe a sua meia de leite a olhar para o pacote. E vejo que a Nicola já deixou para ontem a mudança que devia fazer.
E quem paga é o pacote.

28.5.12

Até onde chega a corrupção?


Pelos vistos até ao meu Word, já que num documento onde tinha alguns textos gravados, incluindo tudo o que vocês sempre quiseram saber sobre pacotes caídos em desgraça, o que ontem estava bem hoje é só corrupção.

Portanto, não sem antes dizer aos senhores da Microsoft que não pretendo apresentar um relatório mas sim antes desejar-lhes que sejam massajados suavemente por uma ceifeira debulhadora descontrolada, agora só da parte da tarde.

É que o trabalho que tinha adiantado para hoje, isso eu até dou de borla, mas tinha ali tiradas de pacote de bradar aos céus e isso sim deixa-me a precisar de uma vacina contra a raiva.

O meu único consolo é que o Word também já vos deve ter feito a folha muitas vezes. E eu sou assim em termos de Office, mesquinho até à medula.

27.5.12

Vão mas é levar no pacote

Um dia um gajo satura-se de frases de pacotilha, inscritas em pacotes de açúcar que em tempos foram engraçadas ou pelo menos diferenciadoras, mas depois foram exploradas até à exaustão e ficaram ainda mais chatas e obtusas que 98% dos programas da televisão nacional ao domingo à noite.

Hoje foi o dia, amanhã é o texto que detalha a coisa, que hoje estou cá com uma hiperglicemia que até apita.

25.5.12

O roteiro dos últimos dias


Embora este título soe ligeiramente a seita religiosa, serve apenas como pequeno mapa para dar a conhecer por onde tenho andado nos últimos dias. De um ponto de vista simplista, podia dizer as coisas deste modo:

Andei por Angola.
Andei por Paris.
Andei a olhar o Tejo de cima para baixo.
Andei até por Leiria.

No entanto, não fui eu que viajei, mas sim aquilo que escrevo e devo dizer que as minhas palavras tendem a ser bastante mais viajadas do que eu, pelo menos na conjuntura actual. Não me chateia muito, mas às vezes fica uma pontinha de inveja. Então um tipo cria mundos e fundos, tem o poder de ter um mundo por baixo do teclado ou na ponta da caneta e depois, com sorte, orienta uma viagem até à Trafaria ou à Brandoa.

Portanto, hoje vou tirar as mãos do teclado, deixar a ficção e a profissão de molho e capitalizar no mundo real. Nem que seja em Fernão Ferro.

23.5.12

Uma questão de Zonas


Ao longo da minha vida, em termos de zonas, já conheci umas quantas e dos mais diversos estilo. Vejamos algumas:

Zona J (onde até participei num torneio de futsal)

Dead Zone (que li)

Boazonas (que conheci, convivi, vi ao longe ou sobre as quais derivei no meu imaginário)

Amazonas (o sítio de comes e bebes old school ali para os lados do Arco Cego e não as senhoras de cabedal sempre prontas para a porrada)

Zona (também conhecida por herpes zoster ou cobrão, não por padecer disso, mas por ter feito um trabalho sobre a dita cuja)

Podia juntar mais umas quantas, todas elas com o seu impacto nos meus dias. Agora, assim de repente, já não posso é gramar nem mais um segundo do bolo rei de sapiência e enchidos diversos sobre a Zona Euro que todos os dias me querem impingir..

Até porque, mais do que me preocupar com a saída ou não de Portugal e da Grécia da Zona Euro, custa-me ver as quantidades de Euros que saem à bruta da minha zona.

22.5.12

O miúdo que atirava pedras dentro de um livro


Toda a sua vida, desde a primeira edição, tinha vivido entre a página 37 e a 39 do livro. Muitos passavam na obra e nem davam por ele, tão embrenhados que estavam na história, ao passo que outros sorriam ao ver a descrição daquele miúdo que atirava pedras aos vidros das janelas daquele armazém abandonado. Sorriam porventura lembrando-se dos seus tempos de miúdos, em que tropelias como aquela faziam todo o sentido.

No entanto, ninguém sabia bem o que estava ele ali a fazer. O autor já nem sem lembrava dele, na verdade tinha-o deixado ali por engano, a ideia do que fazer com o miúdo tinha sido, tal como o armazém, abandonada. Mas ficou ali, a atirar pedras enquanto a história ia a caminho de outro sítio qualquer e ninguém queria saber o porquê.

Tantas vezes vira pequenos momentos do mundo, alguns tão rápidos como raios, quando se tratavam de leitores rápidos noutros, com um pouco mais de tempo, vira o sol, cheirara a praia e os bancos do jardim, rostos concentrados e sorrisos e decidira que gostava mais deste mundo do que do seu. Chegara até a ver duas formigas a passar por cima do segundo parágrafo da página 38 e ficara fascinado. Mas, o dia que ficara para sempre na sua memória fora aquele em que o livro ficara esquecido na varanda, uma chávena em cima da página 37 a impedir que ele se fechasse. Ao fim de alguns minutos largara as pedras e espreitara, vendo as colinas velhas da cidade e o rio lá ao fundo. Havia um jardim por perto e as escaramuças habituais dos jogos de futebol entre miúdos.

Decidiu aí que não ia ficar a atirar pedras ao armazém para o resto da sua vida. Demorou o seu tempo mas, com ajuda do alfaiate da página 51, da menina da lavandaria do capítulo II e III e de um varão de ferro abandonado no final da página 32, conseguiu levar a cabo o seu plano.

Escondeu o ferro junto ao sítio onde apanhava pedras e a corda feita de lençóis costurados juntos enrolou-a à cintura, puxando para si a palavra “Gordo” utilizada na página 110, tornando-se assim num miúdo gordo a atirar pedras. Esperou que o seu novo leitor passasse na página e, quando ele a ia a virar, puxou do ferro e usou-o como calço, algo que por fora não parecia mais do que uma pequena dobra no canto da página.

Quando não ouviu nada vindo de fora do livro, soltou a corda que tinha à cintura e, espreitando pela abertura viu que o livro estava numa mesa de jardim. Desenrolou rapidamente as cordas, desceu de forma hábil e segura e, quando deu por si, já estava sentado no chão. Sorriu, olhou pela última vez para o livro e desatou a correr.

O leitor voltou, com um copo de sumo na mão, espreguiçou-se e resolveu voltar a pegar no livro. Decidiu voltar duas páginas atrás e ficou surpreendido com a descrição de um armazém com janelas partidas ao lados dos quais estava um varão de ferro e um conjunto de lençóis cuidadosamente unidos como se fossem uma corda. Por vezes lia coisas em histórias que pareciam não fazer sentido nenhum.

Conspiração animal


Sou capaz de jurar que o cão e o gato que andam lá por casa, passaram da fase em que se ignoravam mutuamente e faziam de conta que o outro era apenas uma versão empalhada com rodas, para um frenesim de conspiraração para reduzir as minhas horas de sono.

Vou agora à hora do almoço comprar umas câmaras de vigilância para provar o que afirmo e entregar as provas na esquadra ao fundo da rua. Se bem que os tipos têm sempre à porta da esquadra um gato preto que ainda não percebi se é um agente infiltrado ou se é efectivamente o chefe e, tendo essa situação em conta, a coisa pode voltar-se contra mim.

Só vos digo, ainda bem que desisti da ideia de ter um saguim.

21.5.12

A angústia do dirigente mundial no momento do penalty


 
Uma verdadeira delícia.
Da euforia semi hooliganesca do inglês, ao entusiasmo descomprometido do Obama, passando pelo melão da Merkel e o “Não está a dar nada de jeito no Mezzo?” do Hollande, às reacções nos cantos da sala.

Só Durão Barroso destoa, também ele uma espécie de árbitro “convidado” a marcar presença no palco das decisões. Porventura, a deduzir pela expressão, a prisão de ventre também não ajuda.


Nota: Reunião do G8 por altura dos penalties no Bayern Munique-Chelsea

Na tua cabeça ou na minha?


Apesar da tralha toda que havia lá dentro, o espaço parecia tão vazio que qualquer som ecoava como se estivessem num museu. A verdade é que já não falavam a sério há algum tempo, cada um entretido nas suas tarefas básicas, ocupando-se ao máximo para não terem de enfrentar a realidade.

Naquele dia as coisas iam mudar.

- Já reparaste há quanto tempo estamos sozinhos aqui os dois, juntos?

Tentou lembrar-se, mas não conseguiu – Bem...já perdi a conta ao tempo.

- Pois, eu também, mas terás que admitir que sempre houve uma certa química  entre nós.
- Sim...mas o que queres dizer com isso?
- Se calhar está na altura de nos reproduzirmos...
- Então, mas isto é assim? Não há romance, não há sedução, nem sequer uma música ambiente?
- O que é que não percebeste na parte do “estamos sozinhos há demasiado tempo”? Achas que isso ia mudar alguma coisa? Acho que temos de ser racionais.
- Portanto, não posso sonhar é isso? Trato de tudo o que são tarefas básicas, nunca me queixo e agora chegas aqui assim e é “Bora lá reproduzirmo-nos”.
- Só estou a ser prático.
- E também estás a ser básico e primitivo.
- Mas isso também é a minha função.
- E ser um calhau frio e racional, também é a tua função?
- Tirando a parte do calhau, sim. Deixo a emotividade, ainda que primária, para ti.
- Mas como, como é que tu julgas possível que nós juntos....eeerrrgh nem quero pensar.
- Fácil, estamos aqui os dois, sozinhos.
- Epá vai lá fora ver se eu estou no esófago.

A neurónia afastou-se furibunda e o neurónio ficou ali sem perceber o porquê daquela história toda “Então se estavam ali os dois sozinhos, juntos...”. Suspirou e carregou na ligação para tirar aquela gaja da frente do espelho, que já lá estava há 20 minutos. Só esperava que aquela discussão não deixasse a miúda baralhada, já que da última vez que acontecera algo igual a rapariga tinha acabado a declarar a uma revista que o seu sonho era acasalar com um panda, porque ao menos eram fofinhos, simpáticos e assim sempre ajudava a Natureza.

A vida não era fácil, no cérebro daquela modelo/actriz/apresentadora/figura pública/relações públicas.

20.5.12

A minha verdade mete água de quando em vez


Confesso que ontem não fui totalmente honesto convosco. Disse-vos que o dia de hoje ia ser devotado na totalidade ao flor de estufismo mas, à última hora, desviei-me um pouco da rota, mais ou menos 12kms.

Quero antes de mais dizer que gosto que a nossa relação se baseie no sincero princípio de que eu vos vou enganar e fantasiar a realidade conforme me aprouver, enquanto vocês me aturam as patranhas, tentam distinguir alguns laivos de sanidade e, ocasionalmente, pensam “Epá, ainda bem que não tomo o mesmo que este gajo”. Assim, quando revelo mesmo as verdades mais embaraçosas, fica instituído aqui um princípio de dúvida que pode sugerir que, lá no fundo, eu até podia ser uma pessoa minimamente interessante.

No entanto, esta verdade não sendo embaraçosa, é apenas chuvosa já que se compõe de uma simples revelação – gosto de correr à chuva. Não é nada de mais, podia ter acrescentado “nu” ou “apenas de kilt” à equação, mas isso já foi feito por uns tipos com muito melhor aspecto que eu e que até tinham cavalos, ao passo que eu optei por calções de lycra (por questões técnicas, já que fossem estéticas seriam fuschia e não pretos).

E, quando dias como me hoje me assobiam da janela, tenho dificuldades em dizer-lhes não. Em dois ou três kms estamos no Parque Eduardo VII, a Feira do Livro está de saída e a chuva está a chegar. Uma subida temperada a pingos, seca-se pelo caminho, dois passos e já se está em Monsanto e entretanto é tempo de voltar. Aí sim, chove mais um bom bocado a valer, a satisfação ainda é claramente maior do que o cansaço e, de cara lavada ao natural, lá se percorre a Avenida da República rumo ao fim e ao resto do dia, em que aí sim o flor de estufismo será rei.

Até lá, com a chuva nas ventas e umas milhas nas pernas, quem manda é o meu lado pseudo desafiador das forças da Natureza.

19.5.12

18 horas de flor de estufismo

Anuncia aqui a gerência que se estão prestes a iniciar para aí 18h de flor de estufismo que incluem, banhos de imersão, brunches, requintado regabofe e quiçá jardinagem. Nada temam os que julguem que tal tour de masculinidade pós-moderna seja sinal que não tarda nada estou a produzir as minhas próprias compotas caseiras - só hoje já empurrei uma vizinha de 80 anos das escadas, tirei-lhe o dinheiro para o brunch de amanhã da mala e corri 20kms descalço, tendo durante o percurso ajudado a demontar o esquema de uma quadrilha de malaios que se dedicava a tirar fotografias de decotes, pés e comida gourmet para vender a bloggers e idosos com demasiado tempo livre. É só mais um fim de semana tranquilo.

18.5.12

Quiz night


Por esta altura já deverei ter vestido o meu fato de geek, utilizado o meu aperto de mão secreto e, numa sala plena de gente pertencente ao mesmo grupo pseudo underground, devo estar a responder (com sorte) a perguntas como estas:

Que banda teve na sua formação Damon Albarn, Paul Simonon, Simon Tong e Tony Allen?

Ou

Qual o nome “oficial” do Jardim da Estrela?

Nota: Googlar é para losers.


E, com tudo isto, o melhor da noite anda algures entre o jantar prévio com amigos numa churrasqueira que conheço desde os seis anos de idade, o preço ridículo das bebidas numa sociedade recreativa ou os bolos comprados nas traseiras de uma padaria já de madrugada a caminho de casa.

Sobretudo sobre nada


Quis escrever sobre moda, disseram-me que me faltava estilo.
Quis escrever sobre política, disseram-me que não tinha voto na matéria.
Quis escrever sobre música, disseram-me que não ia entrar no ritmo.
Quis escrever sobre polícias, disseram-me que isso era um crime.
Quis escrever sobre fantasia, disseram-me para cair na real.
Quis escrever sobre mulheres, disseram-me que isso não era de homem.
Quis escrever sobre fantasmas, disseram-me que não era um tema do outro mundo.
Quis escrever sobre piratas, disseram-me que ia meter água.
Quis escrever sobre ciência, disseram-me que não ia encontrar a fórmula certa.
Quis escrever sobre o passado, disseram-me que isso não tinha futuro.
Quis escrever sobre a morte, disseram que isso não era vida para ninguém.
Quis escrever sobre a loucura, disseram-me que não estava bom da cabeça.
Quis até escrever sobre mim, disseram-me que nem parecia eu.

Farto de querer, decidi escrever sobretudo sobre nada. Disseram-me que isso não era tudo.
Não lhes valeu de nada.
Já tinha começado.

Empregos, autoconfiança e que nunca vos digam que não fazem magia


Aqui há uns anitos, quando comecei a trabalhar na área onde ainda hoje estou, tive oportunidade de ter como big boss um indivíduo que aliava três coisas: era genial naquilo que fazia, muito frontal no trato com as pessoas (às vezes um autêntico casca grossa) e um entusiasta de jogos psicológicos em termos de gestão de pessoas.

O senhor, entre outras coisas, era mestre em pôr as pessoas a questionarem-se sobre as suas próprias capacidades. E, neste último capítulo, a história da autoconfiança é decisiva para sobreviver a isso num ambiente de pressão como era o caso. Conheci histórias de pessoas que lá, depois de postas em causa e entrarem num loop de dúvidas e receios, chegavam a ouvir duas ou três vezes o “My way” do Sinatra antes de lhe irem apresentar trabalhos. Outras houve que perderam 10kgs em três meses só com os nervos.

Depois de um início promissor, certo dia fui ter com ele e questionei-o sobre a minha progressão, tendo em vista melhores condições face aos resultados do meu trabalho. Às tantas chutou-me uma frase que me ficou na memória “Tu és bom, mas não fazes magia”. A coisa ficou por ali e eu, que sempre me habituei a questionar o meu trabalho como forma de fazer melhor, por instantes fui forçado a pôr em causa as minhas capacidades, dada a opinião de alguém que consideramos ser de top naquilo que fazemos. Apercebi-me então que, mais do que batalhar para mostrar o que sabia valer, tinha de lidar com o facto de ter chegado a um tecto ali.

Tal como eu, muitos percebem que em certos sítios há um tecto que se cria pelo facto de seres “o miúdo” e que, independentemente das tuas capacidades, não passas dali. Se queres progredir e acreditas em ti, tens de sair. Ficar é sinónimo de avinagrar ou definhar, consoante és autoconfiante e sentes que não te reconhecem o valor ou começas a acreditar que se calhar a culpa é tua, que podes já não ser tão bom como pensavas e por aí em diante. Um dia já nem o Frank Sinatra te salva, o teu trabalho começa a reflectir a forma como pensas e depois é muito difícil dar a volta.

Como tal, nem dois meses passaram até aceitar um convite para ir para outro sítio. Na despedida, sem qualquer inimizade, concluí a conversa com o futuro ex-big boss dizendo-lhe “Depois um dia mostro-lhe uns truques” e ele, que possivelmente já nem se lembrava bem da conversa, ficou a olhar-me com ar espantado. Um ano mais tarde, tive a oportunidade de participar num projecto com resultados positivos para além do que eu alguma vez esperava e, cromo que sou, não resisti a enviar-lhe um mail com um link que falava disso mesmo e disse apenas: “Há coisas que acontecem como que por magia.”

Tal como esperava, não respondeu.

Não pretendo com esta história dizer que sou o maior em calções mas simplesmente reforçar o seguinte – várias são as vezes na vida em nos vamos questionar em relação ao que fazemos e às nossas capacidades e é bom que o façamos. A questão é se queremos ser nós a responder ou se deixamos que sejam outros a responder por nós. 

17.5.12

Variações de humor


Existem vários tipos de humor e de stand up.

Muitas vezes as pessoas estão habituadas, nesta última vertente, aos chamados storytellers que basicamente envolvem as suas piadas em histórias que vão contando à sua audiência. Este senhor representa uma outra faceta, que também muito me apraz - os chamados one liners.

É complicado disparar boas piadas, em sequência e com o ritmo certo. Mal feito é um martírio, bem feito é uma delícia.

E porquê lições de humor a esta hora? Porque me convidaram para fazer um standup experimental, entre amigos ou perto disso, mas eu continuo a achar que isso não é bem para mim. É que entre punch lines e punching bags as distâncias são bem curtas.

Por outro lado, as piadas secas deixam-me água na boca...

Lisboa e bicicletas, uma história que nem sempre corre sobre rodas


Há muito que, em muitas cidades pelo mundo inteiro, as bicicletas são utilizadas como meios de transporte regular por milhares de pessoas das mais diversas idades, estilos e convicções, pelas mais variadas razões.


Acrescente-se que, entre outras, este fenómeno é verificável em cidades maiores que Lisboa, com trânsito pior que Lisboa, com sinalização pior que Lisboa, etc. Por outro lado, a adequação das vias à circulação de bicicletas é anedótica (ciclovias em parques, jardins e ruas laterais não são mais do que acção de charme e não uma funcionalidade prática no quotidiano), a geografia pode dificultar em certos casos e os espaços de parqueamento específicos não só são escassos, como provam que não existe sequer uma coordenação pensada entre redes de transportes e utilizadores de bicicletas.

Acredito que a massificação do uso ou, pelo menos, o aumento dos utilizadores regulares sirva para se irem fazendo pequenas conquistas na matéria, mas dificilmente poderão ser mais do que medidas graduais a médio prazo.

Mas, isso é o lado que muitos já conhecem, o lado mais óbvio e mais fácil de apontar. Do outro existe uma faceta igualmente pertinente – saber andar de bicicleta não é o mesmo que saber andar de bicicleta numa cidade plena de trânsito.

Com o aumento de popularidade das bicicletas, vejo situações de gente em cima de bicicletas que me fazem pensar como é que o Correio da Manhã não possui uma secção de óbitos e acidentes graves só dedicados a ciclistas.

Desde malta que circula nas vias erradas e ataca cruzamentos como quem joga roleta russa a gente que quando o semáforo fecha cruza via como se fosse um peão, quase atropelando os que propriamente o são, passando por malta que circula em passeios por ter falta de confiança nas estradas e ainda reclama pela falta de atenção de quem vai a andar do passeio e não se desvia da bicicleta, indo até a quem entra em contramão em certas vias porque é a forma mais fácil de chegar a determinado sítio, porque ao contrário é a subir.

Isto são exemplos comuns e já os vi acontecer com senhoras ciclistas, jovens ciclistas, velhos ciclistas, matulões ciclistas. Provam apenas que muitas vezes não são apenas as condições proporcionadas que falham, os utilizadores também. Faz-me uma certa confusão porque assim se juntam vias e trânsito mal preparado a ciclistas mal preparados, uma boa receita para desgraça.

Podia juntar a isto o facto do ciclista domingueiro, que considera que ter uma bicicleta o torna um radical e lhe devolve a juventude/irreverência que a mentalidade e não o tempo lhe retiraram. Eu, que corro normalmente quer na cidade, quer em circuitos lido não raras vezes com gangs de ciclistas que desprezam o peão corredor (ou seja, levando a atitude de muitos dos que conduzem o carro para cima da bicicleta), equipados a rigor para os trails mais duros mas efectuando apenas o circuito Belém-Cais do Sodré. Já apanhei tipos na Marginal, em zonas em que o passeio é estreitíssimo de bicicleta no passeio por terem falta de cabedal para rolar no alcatrão a ficarem indignados porque eu, a correr em sentido contrário, os obriguei a desmontar da bicicleta. Tipos numa zona da Expo em que diz “Proibido a bicicletas” irem por aí, dizendo bem alto “Epá, por ali não vou que cago a bicicleta toda”.

Sou totalmente a favor da bicicleta como meio de locomoção urbano em Lisboa. Simplesmente acho que às vezes não é só a cidade que não está preparada, são também as pessoas em cima das bicicletas.

Sabedoria de meio dia Vol. V



Nos Angry Birds da vida real eu sei que as vedetas são sempre os pássaros, mas às vezes não consigo deixar de torcer pelos porcos.

16.5.12

Voz à Barry White


Não sei se é pelo facto de não se conjugar com o ambiente à nossa volta, mas há um efeito curioso que por vezes se dá quando estamos meio engripados numa época de calor – o efeito “voz à Barry White”. A minha voz, perfeitamente normal noutras ocasiões, adquire uma tonalidade grave e profunda o que, juntamente com temperaturas elevadas e gente mais sonhadora leva a que tudo aquilo que eu digo lhes soe como parte de uma música do saudoso e sedutor Barry.

Entro no local de trabalho e cumprimento a recepcionista de forma simpática “Bom dia, tudo bem? Não precisas de te levantar, eu sei o caminho sozinho”.

A cara que ela faz, leva-me a pensar que ouviu I know there's only, only one like you / There's no way they could have made two / You're, you're all I'm living for, your love I'll keep for evermore / You're the first, my last, my everything”. Afasto-me rapidamente e não digo mais nada.

Mais à frente no corredor, cruzo-me com uma colega, daquelas com quem te dás nem mal nem bem, que te questiona sobre o prazo de um trabalho em curso. Respondo “Bem, vou tentar que isso não descambe para amanhã mas, se isso acontecer, no limite tens tudo do teu lado à primeira hora da manhã”.

O sorriso do outro lado do corredor e o ar embevecido fazem-me jurar que o que lhe disse soou a “You were made to love, you were made to hold / You were made to love, and not control / Oh I can search a lifetime and never see / Noone can do the things, you do to me.”

Enfio um sorriso amarelo nas fuças e afasto-me. Por esta altura podem pensar que isto é ilusão minha, típico sonho de macho e que a gripe, em casos graves, também pode causar alucinações. Fiquem então com o último exemplo.

Prestes a chegar ao meu lugar, dirige-se a mim o motorista/homem dos sete ofícios, um tipo old school com quem me dou lindamente e que me veio dar uma descasca por não lhe ter dado uma coisa que era para pôr no correio. “Ouve lá pá, pedes-me um favor e depois deixa-me apeado? Quando fui aos correios, por ter ficado à tua espera gramei quase uma hora na fila”. Eu juro que a minha resposta foi “Ó artista, não viste o teu email? Lá dizia que só te ia dar isso hoje, tu é que és do tempo das cavernas e só vês mails uma vez por semana. Vê lá se te orientas senão não te dou um chocolatinho de prenda”.

A reacção dele leva-me a crer que ouviu algo como “in my fantasies, I see us together /
I'm loving you, you're loving me, this could be forever / Make me your fruit, between your sheets / Is what you do to me, yeah babe / Some guys will tell you lies and love is never in it /
They only want some sex but sex alone won't get it.

Primeiro olhou para mim surpreso, esboçou um sorriso, mas a seguir foi ele que quase sprintou dali para fora.

Já vi que isto pode causar danos graves, “a voz à Barry White” não foi feita para ser usada nos domínios dos comuns mortais. Portanto, bico calado até sair daqui para fora.


O drama das coisas que ficam a meio


Tenho em mim uma espécie de doença que, quando a quero transformar em qualidade, se pode definir como persistência e/ou capacidade de sofrimento. Por norma, quando me meto nalguma coisa, a não ser em circunstâncias catastróficas, não consigo deixá-la a meio.

Não tem a ver com qualquer gosto particular em sofrer ou apreciar chouriçadas, mas sim porventura com a consciência crítica que me leva a pensar “No final ninguém vai poder dizer que desisti e eu vou poder dizer o que realmente penso sobre o assunto”.

Ora isto é tudo muito divertido e eloquente mas já me fez passar por coisas que no fim dava tudo para ter o meu tempo e/ou o meu dinheiro/paciência de volta. Espectáculos da treta, livros da seca, filmes da tanga e isto é apenas na vertente social mais light.

Em relação a filmes, no cinema nunca saí a meio, mas duas vezes estive perto. Numa não o fiz porque me tinham dado um convite e tive receio que a anfitriã me visse a sair, na outra o filme estava a ser tão entediante que confundi uma cena de transição com a cena que antecede os créditos finais. Levantei-me, mas voltei a sentar-me.
Já em casa, os milagres de ver filmes a x4 na velocidade têm ajudado, como no caso do “Assassínio de Jesse James pelo cobarde Robert Ford”. A fotografia é magnífica, mas o filme é tão lento e mastigado que até em x4 me pareceu ir devagar.

No que toca a livros, também nunca o fiz e prefiro nem começar se achar que vou sofrer horrores para chegar ao fim. Por isso, se quiserem, avisem-me já sobre bodegas que tenham deixado a meio, em termos de leitura, para que eu pense duas vezes, caso pondere começá-las.

A única excepção em que não tenho problemas em deixar coisas a meio, tem a ver com textos do blog, porque esses

15.5.12

Os dois lados do oh-la-la

Para alguns, oh-la-la é uma expressão plena de glamour e finesse, passível de usar em França ou a imitar gente que esteve em França, como suplemento chic, em ocasiões especiais ou perante gente descascada que nos pareça apelativa.

Para mim, durante o dia de hoje, foi a porra da música que andou debaixo da língua durante a tarde inteira e que trouxe ao de cima todo o meu lado dread. Mas atenção, um dread com finesse, glamour e com um toque chic, não se deixem enganar pelo dente de ouro.


Também eu assinei livros na feira do dito cujo


Deixei passar um dia sobre o domingo que encerrou a Feira do Livro para poder falar das coisas com mais algum distanciamento. Pela primeira vez tive a oportunidade de ir a um evento que tanto estimo como mais do que apenas um leitor e apreciador de literatura. Foi a minha estreia e, ao mesmo tempo, a passagem para junto dos que já tiveram o prazer de assinar livros para fãs e curiosos.

Depois de horas a escolher a caneta ideal, optei pela mais comum que tinha, apercebendo-me que as pessoas não vão lá pela caneta, pelo penteado ou pela camisa de quem assina, mas pela possibilidade de, por breves instantes, estarem perto de quem tantas (ou pelo menos uma vez) lhes contou uma história que gostaram de ler.

O nervoso miudinho apodera-se de nós, apesar de dizermos a todos que está tudo bem, que é tudo natural e de fingirmos que acreditamos naquilo que estamos a dizer. Com os primeiros momentos de espera surge dentro de mim um receio que é, ao mesmo tempo, uma esperança “Pode ser que não venha ninguém”.

É então que surge a primeira pessoa, passo ante passo, com uma expressão no rosto de quem porventura nos conhece, que se calhar já leu algo nosso, porque nem todos os autores têm o reconhecimento de outros tantos com outra obra feita.

As mãos estão em cima da mesa e, conforme a pessoa se aproxima, mecanicamente agarram na caneta e no primeiro livro da pilha, largando-o de imediato, não vá a pessoa tomar-nos por presunçosos. Trocam-se umas palavras de circunstância e, sem darmos por isso já temos pronta uma simpática dedicatória para a Nádia, sem trocadilhos nem piadas, que a ocasião merece outra solenidade.

E de repente, a simpatia no ar desvanece-se, quando a Nádia observa com mais detalhe, quer o livro, quer a dedicatória.

“Oiça lá, Nicholas Sparks, você está a assinar um livro do Nicholas Sparks?”
“Pois é, tem razão, escolhi mal, prefere que assine um de um autor mais clássico? Ou um do Peixoto, que é português...”
“Mas afinal você não aquele da astrologia, o oráculo do Fellini ou lá como se chama?”

O barulho alertou o pessoal da editora a quem ocupei disfarçadamente uma mesa e, rapidamente me levanto, ponho os livros da pilha no saco e começo a afastar-me, perante o ar incrédulo da Nádia e de meia dúzia de pessoas que entretanto se tinham aproximado.

Subo um pouco e sento-me na relva, a olhar para as formigas literárias lá em baixo. Só não fumo um cigarro porque acho que começar a fumar só para dar estilo a uma história não vale a pena. Chego à conclusão que as pessoas não apreciam o valor de uma boa dedicatória quando não és tu que escreves o livro.
Sacanas, fazem de tudo para me dar trabalho mas, quando livro estiver escrito, hei de contratar um anão para estar ao meu lado a escrever dedicatórias, para ver se gostam mais assim. E se a Nádia aparecer, vou lhe dizer para escrever a primeira coisa que me veio à cabeça desta vez, antes de refrear os meus instintos.

“Tudo de bom e que nunca te digam que não vales Nádia”

14.5.12

Ligados a tudo, a desligarmo-nos de todos


É irónico que escreva isto para uma plateia essencialmente virtual, mas é apenas mais uma nuance naquilo que esta senhora tem para dizer sobre o crescente fascínio que os telemóveis, as redes sociais e outros que tais exercem sobre a dinâmica do relacionamento interpessoal.

Aviso já, são vinte minutos, mas se têm vindo a assistir à vossa volta a uma crescente preponderância da tecnologia e do contacto à distância na relação com aqueles que vos rodeiam, em detrimento da vertente mais “real”, então isto pode fazer sentido.

É um alerta, não uma visão apocalíptica da coisa e embora seja dito algo como cada vez mais querermos os benefícios da proximidade sem os custos que as amizade real acarreta, acredito que nisto das relações não há determinantes absolutas. Depende de cada um, tal como ver esta conferência ou não.


Estúpidos prazeres



Desde que me lembro que gosto da sensação de chegar ao pé do vidrão, com um bom lote de garrafas e, uma a uma, atirar tudo calmamente lá para dentro com alma e apostar se se vão partir ou não.

É idiota, não tem explicação, mas ainda hoje de manhã como resultado de um fim de semana de regabofe lá cheguei eu com as garrafas e ar de reguila satisfeito. Num resultado impossível de verificar em absoluto, ficou 9-6 para o vasilhame que se partiu. A senhora idosa que esperava não reagiu à piscadela de olho vitoriosa que lhe enviei, segurando a garrafa de azeite de modo ameaçador.

Não sei se Freud explica, mas teria todo o gosto em que ele passasse lá por casa para bebermos uns copos e depois irmos juntos ao vidrão com as garrafas vazias.




PS - Coloquei esta imagem de vidrão, porque este post precisava de um toque urbano-artístico. O meu é daqueles clássicos verdinhos, como manda a lei.

Atrás do pavilhão da escola


Nos dias que correm, não sei se ainda é atrás do pavilhão da escola que se escondem as histórias que anos mais tarde vamos buscar para contar e passarmos por ex-jovens rebeldes. De facto, nem me interessa muito saber, porque cada geração tem os seus segredos e o nosso acordo é: eu não mexo nos deles e eles não se metem nos meus.

No entanto é impossível negar que, no percurso escolar de qualquer pessoa da minha idade, os pavilhões foram feitos para dividir os alunos entre os que contavam as histórias sobre o que se passava lá atrás e os que estavam lá atrás a criá-las.

Até porque não fazia sentido nenhum pensar no pavilhão como uma coisa criada a pensar no ensino, já que se tratavam na maior parte de câmaras frigoríficas no Inverno e saunas no Verão.

De épicos do romance trapalhão aos clássicos da fumaça havia apenas que juntar as pessoas certas (ou as erradas) para termos história.

Curiosamente, o apontamento que me vem de imediato à cabeça quando se fala em histórias atrás do pavilhão da escola foge um pouco deste âmbito.

A história deu-se numa altura em fui suspenso (nota: na realidade toda a turma foi suspensa e eu fui uma vítima das circunstâncias, cof cof). Para não acumularmos faltas, o conselho disciplinar dava oportunidade de trocarmos os dias de suspensão por trabalho comunitário na escola. A mim calhou-me ir limpar ervas no matagal que havia atrás dos pavilhões, o que não me seduzia tanto como outras actividades que se passavam no mesmo matagal. Como tal, exerci a minha arte de contar histórias e fiz ver à minha mãe que ir limpar uma zona em que já tinha sido encontrada uma vez uma seringa não era a melhor opção, face a ficar um dia em casa pois ainda não estava tapado por faltas. Preocupada com o seu rebento acedeu e eu tive um dia de férias.

No dia seguinte, fui à escola e um dos artistas que tinha ficado com a tarefa de limpar o matagal contou-me a ideia peregrina que tivera para simplificar a tarefa e que iria pôr em prática à tarde. Tentei dissuadi-lo, porque era aquilo a que se chama uma estupidez, mas ele foi inflexível e eu calei-me, pensando que o mais provável era ser só conversa.

Depois do almoço já me tinha esquecido disso, até que vi chegar o carro dos bombeiros. O gajo tinha efectivamente deitado fogo ao matagal de ervas atrás da escola, tentando fazer uma queimada controlada. Falhou e os pavilhões não arderam por sorte. Já ele, teve a sorte de ter o resto do ano de férias.

E foi assim que, durante o ano seguinte, não houve nenhuma história vinda das traseiras dos pavilhões da escolha, essencialmente porque não havia atrás do pavilhão da escola, tirando cinzas e mato ardido. Até que o amor e as ganzas renasceram das cinzas.

13.5.12

O ritmo da incerteza



É só isto, nem sempre temos de saber tudo.

12.5.12

Encontra-se



Procura alguém que te desafia.
Procura alguém que te faça querer mudar, não te mudando.
Procura alguém que te ponha os pontos nos is.
Procura alguém que te faça rir de ti.
Procura alguém que te tire a máscara.
Procura alguém que te dispa do supérfluo.
Procura alguém que te apoie na loucura e te censure na certeza.
Procura alguém que te ature as metáforas mas não te ache uma hipérbole.
Procura alguém que te faça esperar o inesperado.
Procura alguém que te deixe sem jeito e tenha jeito para isso.
Procura alguém que te ofereça um sorriso como despertador.
Procura alguém que te dê luta para que ambos saiam a ganhar.
Procura alguém que te deixe sem vontade de procurar mais.


Um dia esse alguém encontra-te.

E então, juntos, podem procurar-se para sempre.