30.4.12

Sabedoria de meio dia (fuso de NY) Vol. IV


Há quem escreva para tocar pessoas e há quem use a escrita para tocar em pessoas.

Ir ao mercado é super


Este fim de semana não só salvei um conjunto de artefactos raros, tendo para isso enfrentado um grupo de múmias, como reduzi o aquecimento global e assisti ao desarmar de uma bomba. No entanto, penso que o que realmente importa é falar da minha ida ao mercado.

Moro a dez minutos a pé de um mercado municipal, mas o facto de morar a cinco de um supermercado muitas vezes faz com que seja a preguiça a mandar. Este sábado foi diferente e até o gesso que tenho na mão direita concordou que era uma boa ideia, uma vez que estamos a passar os nossos últimos dias juntos.

Bastou um pé lá dentro, com o barulho, os cheiros e todo aquele movimento pela frente para pensar que devia ir lá muito mais vezes. Para além dos produtos perderem toda aquela dose de plastificação e de produção em série, o que ganham em vida ganhamos nós também, indo de banca em banca, falando com as pessoas, vendo tudo de mais perto.

Para mim, no limite, todos os putos deviam ir a um mercado pelo menos uma vez por mês e ter aquela experiência, não só é pedagógico, como já estão habituados a alombar com os trolleys da escola e podem carregar as compras aos pais.

Do ponto de vista financeiro, a diferença também não é assim tão grande para as grandes superfícies, se tivermos em conta a qualidade e frescura dos produtos. Farto de fruta bonita de supermercados que apodrece em dois dias já eu estou.

Além disso, para além das compras que trago eu também me alimento de histórias e personagens. E nisso, não há super que chegue ao nível do mercado.

28.4.12

A vacina do medo


Trabalhou a vida inteira em algo que ninguém mais acreditava. Sem desanimar, sem deixar cair os braços, deixou sim tudo para trás, por não se deter por nada e seguir sempre em frente. Um dia conseguiu alcançar o que sempre desejara, uma vacina capaz de eliminar todos os medos.

Faltava experimentá-la em alguém e não poderia considerar outro que não fosse ele próprio. Mas segundos antes de o fazer sentiu-se dominar por uma sensação desconhecida que se transformou em medo, muito medo. Foi aí que se apercebeu no que se tinha tornado por nunca ter tido medo de nada – uma sombra.

Parou.
Queimou tudo.
Saiu do laboratório a correr.

Percebera no último instante que precisava de um pouco de medo para se arriscar a viver.

27.4.12

One with everything



Imaginem aqueles encontros únicos, especiais, aquelas ocasiões que ficam para sempre na nossa memória em que estamos frente a frente com alguém com um significado especial.


Agora imaginem não resistir a fazer uma piada nessa situação. E a piada ser basicamente um lixo.


Supositório filosófico


Embora oficialmente em Portugal tenhamos lacunas na área dos grandes cromos da filosofia que dá direito a que nos lembremos de nomes de tipos que há muito fazem tijolo na Grécia ou na Alemanha, tenho aprendido que no mercado não oficial, temos um filósofo em cada esquina.

Podem não vir nos manuais, podem não ter obra editada, podem nem sequer saber muito bem do que estão a falar, mas sempre que nos apanham a jeito, estas autênticas Bimbys da sabedoria não hesitam em dar-nos um supositório filosófico da sua autoria, sempre com a melhor das intenções.

Ora eu que de Bimby tenho pouco, custa-me no entanto ter tanta sabedoria empilhada lá em casa e ser um desperdício ninguém a utilizar. Também tenho camisolas tricotadas com alces, mas dessas não me estou disposto a separar, pelo menos para já. Por isso, deixo à vossa escolha alguns supositórios filosóficos ainda dentro do prazo, para escolherem algum que vos possa dar jeito. Peço apenas que assinalem na caixa de comentários o que levaram, por causa da gestão de stocks.

“As pessoas que aceitam todas as derrotas são derrotistas invencíveis”

“Certas pessoas são como a lixívia, não são nódoas, mas se te caem em cima lixam-te todo”

“Não confio na Natureza, essencialmente porque todas as pessoas têm uma”

“Não acredito na sorte, tudo o que consegui foi à custa de ter o corpo no sítio certo à hora certa”

“Se o amor curasse tudo as farmacêuticas já tinham dado cabo dele”

“Quando te sentes perdido abraça o desconhecido. Pode não ser perfeito, mas pelo menos não dormes na rua”

26.4.12

Já não há uma linha que separa o que eu quero do que eu não quero.


O meu primo agarrado foi lá a casa e snifou-me a box da Zon.

Amizades de infância são uma pedra


A amizade é uma coisa muito bonita pelo que leio nos livros, em postais com animais mimosos e, com alguns erros ortográficos, em paredes espalhadas pelo mundo inteiro. Da minha parte, nada a dizer em contrário, embora pense que muita gente confunde por vezes amizade com coisas como interesse, dependência, carências, chupismo emocional ou partilha de espaços comuns. Felizmente, não tenho de provar nada disto, é a vantagem de ser um cínico optimista, basta dizer “Oxalá esteja enganado”.

Diria que uma excepção são os amigos de infância, pelo menos na sua génese. Surgem numa fase em que nada é definitivo e os que sobrevivem ao crescimento, à dispersão de caminhos e ao afastamento natural por norma têm fundações mais fortes do que a lógica.

Não acredito que se possam ter inúmeros amigos de infância, mas acredito que os poucos  que se tenham valem por muitos, talvez mais do que aquilo de que temos por vezes consciência. Se, como referi, sobrevivem aos filtros da vida é porque os valorizamos mesmo que, hoje em dia, ninguém perceba o que nos une. São uma ligação directa ao nosso passado e, por norma, tenha a infância sido má, boa ou assim assim, eles representam o que quisemos guardar de lá.

Tirando, no meu caso, o Carlitos. Tinha eu 5/6 anos e o Carlitos era o meu melhor amigo. Andávamos no mesmo jardim de infância, morávamos perto, brincávamos juntos e eu dizia insistentemente à minha mãe que me queria chamar Carlitos, tal como o meu amigo. Na altura a minha mãe ainda se ria quando eu lhe referia que queria usar nomes falsos. Até que um dia o Carlitos me começou a gamar berlindes, berlindes que eu de bom grado lhe teria dado se ele mos tivesse pedido. Mas não, roubou e negou, apesar de serem visíveis no bolso do bibe e eu tentei ir buscar a solução às fundações da nossa amizade. Tendo apenas encontrado escombros, resolvi aproveitar uma pedra da calçada, com a qual tentei meter juízo na cabeça do Carlitos, mesmo no meio da testa.

Foi a minha mãe que o levou ao hospital, de onde ele saiu com uma cabeça partida e eu com um castigo que durou uma eternidade. Hoje em dia, não faço ideia do que aconteceu ao Carlitos, mas continuo a manter uma óptima relação com pedras da calçada, apesar de já me terem causado uma rotura de ligamentos, me terem feito fugir da polícia e juntos termos danificado propriedade pública. Como vêem as amizades de infância têm uma solidez que não se explica.

24.4.12

Balada da boca seca


Sabia que ela estava ali desde que chegou mas continuava a sentir-se pouco à vontade. Estava um dia bonito de Verão, os pássaros cantavam e essas merdas todas, mas isso não ajudava nada. Sentia o suor a formar-se por debaixo da camisa e tinha a boca tão seca que só lhe faltava areia e camelos para lá ter um deserto, isto se ele próprio não contasse como camelo.

Desde que começara a ir correr para aquele parque que reparara nela, sempre no mesmo sítio como se soubesse que ele ia passar por lá mas, até hoje, tinha resistido a aproximar-se. Enquanto tentava chegar à conclusão sobre se era estúpido ou não, viu um camone a aproximar-se dela. Riu-se,  apontou a máquina para lhe tirar uma foto mas ela manteve-se impávida e serena.

Isso mexeu com ele e, sem mais demoras, decidiu que era hoje. O passo tornou-se cada vez mais lento à medida que chegava perto dela e quando estavam quase lado a lado, debruçou-se delicadamente.

Sentiu-lhe a frescura e decidiu arriscar.

Mal seria se a primeira vez em que bebesse da porra de uma fonte apanhasse uma micose ou uma doença mutante qualquer.

Ainda por cima, será que o camone tinha herpes?

A arte do engano a dar o número de telemóvel


Visitante, caso os contornos da tua moralidade sejam assim para o esbatido, certamente já terás feito isto ou algo parecido: perante alguém que te pede o número de telemóvel, tu acedes mas dás o número errado propositadamente.

Pode parecer um acto algo mesquinho mas, como dizê-lo, trata-se de sobrevivência social. O facto é que hoje em dia as pessoas levam a mal a recusa do número e não me refiro sequer a situações mais intimistas, até porque qualquer badameco de serviços ou inquéritos sabe que esse é dos prémios mais valiosos. Como tal, a solução alternativa é deixar tudo nas mãos de um destino trocado.

Trocar o número de telemóvel é, porém, uma arte que envolve algum requinte. Para inventar de forma natural e precisa, sem hesitações, descobri que o mais eficaz é trocar apenas um número número em relação ao nosso. Exemplo: partamos do princípio que o meu número é 91 234 567. Dona Maria Josefina, da Liga de Amigos a Favor da Fruta Fresca, insiste que eu vá provar a fruta na próxima iniciativa e que precisa do meu número. Simpático e bonacheirão, disparo sem hesitar 91 243 567.

A diferença é ténue e o facto é que o erro podia ser legítimo caso tivesse que me justificar num próximo encontro dos Amigos da Fruta Fresca. O facto de não ter trocado a rede ou o último número é propositado, já que são possivelmente os que seriam tentados de novo caso a pessoa fosse insistente e quisesse dar largas a uma vertente experimental.

Como vêem, sou um charme de pessoa.

Curiosamente, por vezes o destino também joga a nosso favor. Há uns meses encontrei um ex-colega do secundário que infelizmente continuava chato e boçal. O tempo não tinha sido um bom companheiro e a mentalidade ainda estava presa no secundário. Dez minutos à conversa e insiste em chamar-me Bruno, que não é o meu nome. Quando chegamos à parte do adeus e um abraço, pede-me o número: Por lapso, dou-lhe o certo e rezo para que não o utilize.

Há coisa de duas semanas, recebi uma chamada de um tipo que queria falar com um Bruno. Respondi honestamente, sem me lembrar da situação, que devia ser engano. Ligou de novo e eu voltei a dizer o mesmo, acrescentando que se calhar lhe tinham dado o número errado.

Horas mais tarde, lembrei-me de tudo e sorri. A sorte protege os audazes e, pelos vistos, os trafulhas.

23.4.12

Eu gosto de me despedir

Não no sentido abichanado da coisa, com comboios a partir em estações e lágrimas a cairem em cascata. Para essas situações os filmes e a ficção já deixaram a fasquia muito alta.

O mesmo se passa quando se deixa um emprego. O típico email de despedida, pelo menos na minha área, tem se tornado tão competitivo que eu acho que há gente que faz de propósito para ser despedida quando não consegue arranjar propostas para sair, só para mandar aquele mail planeado há tanto tempo.

Tudo bem que a crise ajuda, mas vamos lá com calma. Há formas mais úteis de expressar criatividade e se o email não tem fotos escandalosas ou videos de fazer corar um arquitecto da nossa praça, há sempre maneira de o superar.

Mas, para os sentimentais, há músicas que fazem o trabalhinho. Se estão a pensar mudar de ares, recomendo por exemplo esta, mas só se deixarem insultos e ameaças encapotadas, para deixar as pessoas confundidas a pensar "Mas afinal esta pessoa gostava de nós ou temos de ter cuidado no parque de estacionamento?"



O labirinto da letra


Juro que sou dos tipos mais racionais que existem no que à visita a lojas, superfícies comerciais e afins diz respeito. Sei o que quero antes de entrar e, caso não o encontre, rapidamente consigo gerar planos alternativos. Não gosto de andar a pastar por corredores, de dar por mim a perder uma tarde, duas horas que sejam, sem tirar dali o retorno objectivo que pretendo.

A excepção dá-se nas livrarias.

Posso ter definido ao milímetro, a ponto de saber em que prateleira está o que vou buscar e de repente dou por mim perdido num labirinto de letras, a ler contracapas, a folhear páginas e páginas, mesmo de livros que sei que nunca irei comprar, mas sobre os quais tenho a curiosidade de saber um pouco mais.

Neste labirinto de livrotauros o tempo pára, por entre fascínios e pequenas invejas “Este artista escreve que é uma limpeza”, até ao desdém e uma certa incompreensão por determinados êxitos literários. Daquilo que fujo de alguma poesia nas horas vagas chego a um curso intensivo de quinze minutos por obras de referência na matéria e a promessa mentirosa de na próxima levar um destes.

Só que, na realidade, o tempo não pára e meia hora ao almoço passa para uma hora e pouco em dois tempos e o livro que é suposto levar transformou-se em seis e a prenda facilmente escolhida complicou-se ao ponto de pensar em ligar para a pessoa que faz anos amanhã e pedir-lhe para adiar três meses a coisa, para eu poder ler primeiro os livros que me deixaram indeciso.

No entanto, por mais atrasado que saia de uma livraria, mesmo que o faça de mãos a abanar, nunca dou o tempo por mal empregue. Precisamos, ou melhor eu preciso, de algum tempo nestes labirintos, para me poder perder em sítios em que essa sensação me dá um verdadeiro gozo.

22.4.12

Jardinagem hardcore


Não cresci no campo, nem numa qualquer propriedade em que a jardinagem fizesse parte das actividades regulares. Aliás, no que ao tema diz respeito. nunca questionei legumes, fruta ou flores que me chegassem às mãos sobre o seu passado e eles tiveram para comigo a mesma cortesia, o que facilitou a nossa relação.

Ontem isso mudou já que, ainda com uma mão imobilizada, fui desafiado a mostrar dotes de jardineiro e se há coisa que encanta multidões sedentas de entretenimento é um indivíduo munido de ferramentas aguçadas e apenas uma mão disponível. Podem dizer “Mas porque não recusaste, dado o teu estatuto de inválido temporário?” e eu respondo-vos que a vossa pergunta já tem incluída a resposta pois se há coisa que um tipo activo não gosta é que o rotulem de inválido.

Uma hora e meia depois tinha os pés bem assentes na terra, em quilos de ervas e numa panóplia de insectos empreendedores, alguns dos quais fazendo parte do meu sorriso. Há quem diga que o desempenho foi patético, que nem sequer estamos na época da poda de roseiras e tudo mais. No entanto, algo em mim mudou e não me refiro aos uso de produtos adubados.

O meu respeito por velhotes que passam horas a cuidar de jardins, quintais e canteiros aumentou grandiosamente. Aquilo cansa, não tem posições cómodas ao fim de um certo tempo e as ferramentas são perigosas armadilhas. Além disso, as plantas não dão tréguas e a fauna de jardim é quase tão teimosa quanto o tipo que a está a tentar realojar.

A jardinagem não é para meninos e um gang de espinhos tentou tatuar-me essa mensagem nas costas.

20.4.12

E porque hoje é sexta feira à noite vou tirar o bigode da garagem...

(isto de fazer títulos com reticências é aliciante. Durante três pontos consigo criar a expectativa de que tenho algo interessante para dizer, antes da desilusão total)

É altura de puxar o lustro ao bigode, depilar os pelos do peito e mostrar o distinto charme da violência, se a ocasião se proporcionar. Estilo este senhor, mas sem ser no Martim Moniz.




PS – Isto é só bazófia, na verdade encaminho-me para um serão de uma espécie de trivial pursuit glorificado, no ginásio de uma colectividade da capital. Tem tanto charme como retirar sujidade das unhas com os cantos de uma folha de papel, mas é igualmente divertido de observar.

Quem não quer ser bobo...

A normalidade, ao contrário do que muita gente pode julgar, não é uma doença. Por isso, se és normal experimenta rodear-te de anormais, se possível no bom sentido mas se não houver disso ficas com os que estiverem disponíveis.

Aí, terás duas escolhas: ou és tu próprio e distingues-te normalmente por aquilo que és ou então tentas ser um deles e não só não serás como eles como também não serás tu, resultando num normal anormal que não agrada a ninguém, começando por ti.


Há uma terceira possibilidade, és normal mas pediste roupa emprestada às pessoas erradas para ir a uma festa. E elas, pouco normais, disseram ao olhar para ti “Estás bem assim”.

19.4.12

O Eça, os Maias e o fim do mundo

Farto de ouvir falar na história do calendário dos Maias, resolvi ir folhear o velho calhamaço do Eça que tinha lá em casa. Posso ser pós-moderno mas ainda tenho valores lá em casa e para defendê-los nada melhor que surpreender um possível assaltante com um peso pesado da literatura portuguesa.

Folheei com calma e nada de calendário, voucher para rebater na Portugália ou posters com as 10 melhores modelos eslovacas para ter como irmã. Ao que parece, na altura bastava uma boa trama com laivos de incesto, um relato colorido da sociedade portuguesa e um extremo entusiasmo pelo detalhe para fazer obra. O fim do mundo e teorias apocalípticas têm de facto muito mais a ver com o Portugal de hoje e o Eça, embora com plena consciência crítica na sua época, lá arranjou outras formas de compor o ramalhete.

Alertaram-me depois que os Maias do fim do mundo eram outros e eu só sosseguei quando me disseram que não tinha nada a ver com a outra senhora que deita cartas e ocasionalmente tira a roupa para promover a venda de garfos para espetar nos olhos.

E estando nós a falar do saudoso povo Maia, espero que nisso de serem muito à frente em várias coisas também estivesse incluída a ironia. Nada me daria mais gozo, do que ver TecuqdefaFazuma e Sombreroqoatl a laminarem o seu calendário e, ao verem que a pedra não dava para mais, terem o seguinte diálogo:

“TecuqdefaFazuma, pelas minhas contas, se isto ficar assim o calendário só estica até 2012...Vou buscar mais pedra?”

“És parvo Sombreroqoatl? Pões-te com essas merdas de serpente emplumada e não chegamos ao Chichen Itza Sports Café a tempo de ver o jogo da bola entre os Pumas de Guadalajara e os Cancun Boys”

“Pois, tens razão, os gajos lá mais para a frente que se desenmerdem, que eu desde que masquei umas folhas de coca com a vidente mamalhuda e vi que os espanhóis vão rebentar com isto tudo, já nem me devia ralar...”

“Sim, grava aí uma cena qualquer profética e põe por baixo do relatório das sementeiras. O patrão nem vai ver...e vais ver que um dia ainda vamos pôr o mundo à rasca com iso. Ouvi dizer que há uns tipos em Nazca que já trataram de fazer uma cena parecida”.

Cinema sem fitas

Fiquem descansados, não vos venho impingir os filmes que vejo ou dissertar sobre os desafios com que se debate o cinema iraniano. Não venho sequer apedrejar uns quantos filmes, apesar de ter as pedras nos bolsos e isso me fazer impressão por causa dos boxers.

Na realidade venho só dizer que me preocupa e me apraz simultaneamente o estado das salas de cinema nos dias de hoje. Pode ser estranho mas quando a meio da semana se consegue ir ver à noite no centro da cidade um filme perfeitamente aceitável e na sala só estamos nós e a companhia que escolhemos, isso é bom e mau ao mesmo tempo.

Bom porque estou longe de gostar de ver filmes em salas cheias e o número de pessoas que distingue o sofá lá de casa de uma sala de cinema tem vindo a reduzir-se. Acrescente-se que, para quem como eu tem as pernas compridas, poder esticá-las para além do micro-espaço habitual é uma dádiva.

Mau porque, factor crise à parte (sempre existem n ofertas para redução do preço), salas às moscas vão contribuir cada vez mais para redução da oferta o que, para quem não é apenas fã de blockbusters e êxitos da pipoca, não augura grande futuro no capítulo “ir ao cinema”.

O conforto das séries, dos downloads e do sofá pode coexistir perfeitamente com o hábito saudável de ir ao cinema. Basta querer de vez em quando.

Nota técnica – O 3D é um chupismo. Só 10% dos filmes que o usam actualmente justificam a sua utilização. O resto são efeitos menores e modinha dispendiosa. E com esta pedrinha atirada, lá se ajeitam melhor os boxers.

18.4.12

Lampejos de modernidade

A música é só para enfeitar, eu queria mesmo era fazer um título com a palavra lampejo.




Ainda assim, em registo pós-moderno, que se tire o ensinamento "Time will tell us nothing / I'll take a chance on something".
Como por exemplo comer pratos italianos em restaurantes indianos.

O quadrado da marmita é igual à soma do quadrado das conversas requentadas

Arriscando a passar no horário de risco na copa empresarial, espaço destinado a receber no seu seio a vasta multiplicidade de marmitas, culturas e conversas de aquecer no microondas, oiço o sentido desabafo:

“Foi então que o meu gato começou a tomar comprimidos para a depressão”.

Não precisei de contextos e saí, disfarçando o passo apressado, rumo ao armário empresarial de medicamentos, espaço destinado aos comprimidos para aliviar o ardor causado pela exposição a conversa requentada.

Os x e y da criatividade

A criatividade não é um fim, é um meio.
Tendo isto em conta, diz-me a experiência que, embora isso aconteça, as pessoas não deviam fazer x ou y para mostrarem que são criativas, mas sim serem criativas ao fazer x ou y. É, de facto, uma tentação pensar que basta mostrar criatividade e que ela, por si só, resolve todos os problemas e situações.

Mas, a meu ver, não é assim. E note-se que talento, criatividade e sucesso nem sempre andam de mãos dadas e este facto já nem é de agora. Veja-se o Van Gogh que, salvo erro, vendeu um quadro em vida (a um parente) e morreu na miséria. Apesar de estarmos a falar de uma pessoa conhecida por dar ouvidos aos outros, o timing torna-se então outro factor importante. Mas o timing é um factor que não controlamos e por isso fica para outras linhas.

A verdade é que todos somos criativos, mesmo que de maneira inconsciente, até nas tarefas mais comuns do nosso quotidiano. No entanto isso não dá fama e raramente dá dinheiro que se veja, embora possa dar um jantar com apenas três coisas no frigorífico. E a nível profissional, ser criativo não é andar com uma gravata na cabeça, usar ténis de cores berrantes ou enviar mails em forma de poema.

Isso são apenas coisas que se toleram nas pessoas que, em áreas em que isso é relevante, usam a criatividade como ferramenta para fazer a diferença ou mostrar novas formas de fazer melhor aquilo que já é feito há muito tempo.

O resto é circo. Palavra de palhaço.

17.4.12

A diferença entre sonhar e fazer



Este vídeo não é uma resposta, é só uma demonstração que os sonhos podem assumir qualquer forma, até cartão, e seja qual for ela há sempre uma forma, por mais estranha que seja, de os realizar.

São 10 minutos que se recebem de volta facilmente e com um sorriso de bónus. Sacana do puto, faz-me pensar que devia correr ainda mais depressa atrás de certas coisas.

Pisei um pensador contemporâneo no Metro



Não é uma espécie tão rara como o nome pomposo indica. Os jornais falam sempre com uns quantos, na televisão surgem outros tantos e nos obituários de publicações respeitadas caem sempre mais uns. Aliás, ainda outro dia ia a andar na plataforma do Metro quando reparei que alguém tinha deixado no chão um pensador contemporâneo. Ainda pensei que fosse da senhora que tinha o saco do Pingo Doce, mas ela nem sequer reparou nele, pisando-o. Chegou o Metro e entrou toda a gente menos eu, que fiquei a vê-lo partir e a deslocação do ar a fazer o pensador contemporâneo ficar por ali a pairar sem destino.

Com um toque em habilidade dei-lhe um pontapé para que não caísse no chão e ele não gostou, ganindo qualquer coisa sobre o declínio dos valores da sociedade e o isolamento sensorial dos indivíduos. Apanhei-o com uma mão e reparei que era leve no peso embora denso no raciocínio.

Por um instante pensei como é que se podia estudar para pensador contemporâneo ou se era uma coisa que se apanhava em miúdo ou até numas férias exóticas. Não cheguei a nenhuma conclusão e do pensador que tinha colado à mão só ouvia que o amor é o sal da vida, mas que esta também sofre com o colesterol.

Talvez todos sejamos pensadores contemporâneos, estilo mononucleose, mas a coisa só se revela nalguns casos anómalos. Comecei a pensar então que se calhar já estava afectado e que ia começar a falar de um modo distanciado da realidade em que me insiro.

O bandalho já me estava a passar a cena. Sacudi-o rapidamente das mãos enquanto ele balbuciava algo sobre o capitalismo ser a nova fronteira e o egoísmo uma nacionalidade em ascensão.

Pisei-o e deixei-o quietinho ao pé do gratuito enrolado. Decidi que isso de pensador contemporâneo não era para mim e que ainda havia tempo para formar uma boys band da escrita.


Nota: o Metro na imagem é o de Budapeste, porque fica bem e condiz com o tema. Já este episódio teve lugar em Cabo Ruivo.

16.4.12

Outra onda

A tarde caía a pique e na água era só ele. Via os outros lá ao longe na areia e pensou em deixar-se levar até lá, como fizera tantas vezes ao longo dos anos. Sentia os músculos tensos com o cansaço e tentou lembrar-se de há quantas horas tinha entrado. Não se lembrava e nenhum dos peixes tinha relógio.Voltou-se para trás e foi então que o viu, maior do que nunca, estendendo-lhe uma passadeira de prata, desafiando-o a um último esforço.

Fechou os olhos e sentiu no rosto um vento que lhe secava o rosto salgado. Num impulso molhou de novo a cara, virou a prancha na direcção da passadeira prateada e com vigorosas remadas seguiu rumo ao meio círculo vermelho alaranjado que chamava por ele. Estava decidido a ser o primeiro surfista a apanhar o sol.





Acordou três dias mais tarde no hospital. Valera-lhe um barco de pesca chamado “Raio de sol”. Tomou uma decisão, nunca mais ia para a água ganzado.

Não aceito insultos fáceis

Há quem diga “Não há almoços grátis”, eu prefiro lançar a política “Não há insultos fáceis”. Afinal de contas, se vamos ter o prazer de insultar alguém, porque não capitalizar na sua possível ignorância e caprichar nos termos.

Se estivermos a lidar com um tronco, em termos de raciocínio/oratória, o mais provável é efectivamente não perceber e nos vir dar um abraço ou reagir com uma resposta no formato insulto fácil. Isso fará de nós benfeitores, porque de bom grado damos mais do que aquilo que recebemos.

Se, por outro lado, estivermos a lidar com alguém que tenha alguns skills argumentativos e hábitos de leitura superiores às notas de rodapé dos canais de televisão então a coisa é capaz de valer a pena.

Mas, para começar, testem sempre com palavras soltas e não com raciocínios elaborados.

Vejamos o vosso patamar, já que vislumbro entre vós um vasto grupo de gente insidiosa, malfazeja e com pouca capacidade de resposta a opróbrios.

Que me dão em troca?

15.4.12

18

É este o número de dias que me faltam até tirar o gesso e a esses haverá que juntar o período necessário para desempanar a gânfia. Mas 18 é para já o que é preciso aguentar e tenciono fazê-lo com uma mão atrás das costas.

No entanto, deixo algumas notas de semi-inválido temporário:


Hoje em dia possuo mais calças de botões do que de fecho de correr. Fixe para o estilo, menos fixe para quem só tem dois dedos livres numa das mãos.

Consigo teclar razoavelmente rápido só com uma mão livre, para aí ao dobro da velocidade de qualquer tipo no balcão das Finanças. Quando tirar o gesso planeio continuar a teclar com uma só mão e aproveitar a direita para pintura de aguarelas.

As Urgências são fantásticas para colocar a leitura em dia. Se andam a precisar disso, sugiro ferimentos de gravidade menor quinzenalmente.

Tomar banho com um saco de plástico na mão é fácil. Difícil é baixar o braço depois de uns quantos minutos numa posição que se assemelha vagamente a estar a chamar um táxi todo nu com uma mão enfiada num saco de plástico.

Toda a gente gosta a) de fazer uma piada sobre o aleijadinho b) contar histórias ao aleijadinho sobre a época da sua vida em que também foram aleijadinhos c) dizer “ainda por cima na mão direita”.

Sacar do telemóvel do bolso é difícil, especialmente no Metro, mas ainda se recebem uns trocos pela habilidade.

10.4.12

Paciência

Aviso: Iato não tem nada a ver com surf e ainda menos que ver com cerveja. Pelo menos para mim.




He waits; that's what he does.
And I tell you what: tick followed tock followed tick followed tock followed tick...
Ahab says, 'I don't care who you are, here's to your dream.'
The old sailors return to the bar.
'Here's to you, Ahab'.
And the fat drummer hit the beat with all his heart.
Here's to waiting.

O roupão

A primeira vez que o vi foi junto ao Jardim do Campo Grande.
Era comprido, tinha ar de ser quentinho mas, acima de tudo, era cor de rosa. Não um rosa comum, nem sequer rosa choque era, o seu tom único era certamente fruto de anos e anos de utilização contínua, com a ironia por detrás do nome rosa velho. Os rebordos desgastados e coçados quase até às costuras e o cinto fino e triste, depois de tanto tempo e da monotonia do apertar e desapertar diário.

Sem ninguém por perto, preso a uma manga estava um saco de migalhas de pão que vagarosamente a outra manga espalhava à sua volta, rodeando-o de uma multidão de pombos sedenta de tudo o que Lisboa rejeita.

Passei por ele e observei-o durante esse ritual, lento e vazio de sentido, mas possivelmente a única coisa que ainda lhe dava forma. Despido da alma que o preenchia, o roupão limitava-se a fazer o que tantos fazem, a rotina dos dias.

Assim continuou, por mais alguns dias, até que um dia desapareceu. No chão, apenas um cinto fino, velho e caído no esquecimento ao qual até os pontos voltavam as costas. Talvez roupão e dono se tivessem voltado a encontrar num sítio melhor.

9.4.12

Eu podia fazer parte de uma tetralogia

Tenho uma considerável estima pela obra de Ítalo Calvino (não confundir com Itálico Calvino como uma vez me foi apresentado). Vagueando pela sua obra, a minha predilecção vai para a trilogia Os nossos antepassados, dentro da qual cada título traduz a singularidade dos personagens principais.

Temos O visconde cortado ao meio. O barão trepador e O cavaleiro inexistente.

Se eu fosse um presunçoso de um personagem, a querer colar-me a estes senhores e a tornar isto uma tetralogia, sentir-me-ia no entanto dividido pelo título a dar-me. Não me decido entre:

O palhaço filósofo / O ferreiro irónico / Camolas, o intermediário


Contudo, o que mais me assusta ao pensar em tetralogias é que me vem logo à cabeça certa e determinada quadrologia.

Esqueçam por um momento a gaja loira




Ai coitadinha da Marilyn, uma diva que nos foi retirada cedo de mais, um ícone de uma geração que brilhou de uma forma única, blá, blá, blá, estilo, glamour e regabofe.

Difícil era ser black, feioso, convertido ao judaísmo, com um olho de vidro ainda o José Cid não sonhava com isso e ser bem sucedido no mundo do espectáculo dos EUA nos anos 50/60. E anos mais tarde levar com o bónus da tua história também não acabar bem.

O resto são os mitos que fazem a diferença.

8.4.12

As verdadeiras caixas que mudam o mundo

Esqueçam a TV, pelo caminho da coisa os tempos em que mudava o mundo já eram e agora é o mundo que se quer mudar para lá.

A caixa a que me refiro é a curiosidade e, para o bem e para o mal, a mudar o mundo já ela anda há muito tempo ainda as novelas eram escritas nas paredes de cavernas. Aliás o truque da caixa, embora nem sempre sendo feito de forma propositada, é uma excelente maneira de ver a curiosidade em movimento.

Exemplo nada pessoal: Fracturem parte de uma mão. Não revelem a algumas pessoas como o fizeram e a vossa “caixa” está criada. Enquanto alguns não se preocuparão em saber o que está lá dentro, para outros a curiosidade será insuportável.

Se lançarem versões contraditórias e educarem amigos na nobre arte da especulação vão ver o poder da vossa caixa aumentar e lembro-vos que isto é uma questão menor, para não dizer de vão de escada.

Agora imaginem quando a ideia é que o que está dentro da caixa é realmente valioso.


6.4.12

Fracturar a mão está na moda

“Ainda por cima foi a direita, que azar...” Passa sempre por aqui a conversa de quem me vê com a mão engessada desde ontem à tarde. Sorrio, para logo de seguida informar quem ainda não saiba – sou esquerdino.

Os incómodos desta situação não são o fim do mundo. Parte do meu trabalho passa por pensar e escrever e, até ver, só a segunda capacidade está mais lenta e apenas na sua versão teclada. Posso até contar a história da lesão, maravilhando os que me rodeiam e pensam que já não é possível esmurrar um unicórnio no mundo real. Tenho relatos de uma tarde no hospital e de como passei a manhã a ultimar um trabalho ao computador já com a mão feita num molho de brócolos.

Se me apetecer arriscar, posso até ir para um fila prioritária quando for às compras ou desafiar uma idosa por um lugar no metro e tentar não sair de lá com a outra mão igual a esta danificada.

Até ao momoento, para ser franco, só duas coisas me incomodam: o facto de apesar de ser a mão que está partida, não me deixarem correr e a dificuldade que é arranjar um lenço com algum estilo para colocar a mão ao peito quando saio à rua.

Que cores estão na moda para os inválidos nesta estação?



Quem diria, foi preciso ficar mão de gesso, para este blog começar a ter preocupações fashion...

5.4.12

Talk is cheap

É fácil dizer mal de publicidade.
É fácil dizer que estes ou aqueles são todos iguais.
É fácil fazer escolhas quando não são as nossas.
É fácil ser intelectual de fachada.
É fácil ser fashion de fachada.
É fácil ser pedante de trazer por casa.

É fácil dizer que tudo é mau.


Difícil é não ser apanhado pela onda do facilitismo.

E levam com isto porque nem tudo é mais do mesmo.





Este artigo foi escrito ao abrigo do bom senso de um tipo que está meio maneta mas acha que é mais fácil escrever primeiro e ver se vai ao hospital de manhã.

4.4.12

Festivais de Verão alternativos



Quando o calor aperta e o Verão bate à porta, a escolha dos festivais divide sempre o pessoal. No entanto, para a comunidade sado-maso a escolha é fácil e estão sempre amarrados ao festival da sua preferência – o Paredes de Couro.

3.4.12

Horas extra ordinárias com sotaque

Às vezes quando trabalho demais, como hoje, imagino-me a atender o telefone e a ouvir do outro lado uma voz bem gordurosa com sotaque brasileiro.

“E aí cafajeste está gostando?”
“Estou gostando do quê? Quem fala?”
“Está gostando de ser possuído à bruta sua onça?”
“Mau....”
“Me chama nomes seu pilantra, eu vou fazer filé de você”
“Isto é assim? Estou a trabalhar...”
“Trabalha canalha, que meu negócio é possuir você todjinho...”
“Vamos lá parar com a conversa do possuir...”
“Mas eu gosto seu cara dji pau...”
“Gostas do quê?”
“De fazer você seu safado...”
“Mas quem és tu?”
“Sou sua hora...”
“Que hora?”
“Sua hora extra ordinária....”

É nessa altura que desligo mentalmente, arrumo as coisas e saio. Se é para trabalhar até às tantas e ainda por cima manter diálogos telefónicos com horas extra ordinárias, aviso já que só alinho nisso quando tiverem, no mínimo, sotaque checo.

Bispo José Santos, temos de falar de spam

Caro Bispo Zé,
(creio que nos podemos tratar assim tal a sua insistência em me enviar emails)

Sei que possivelmente os rapazinhos da sua paróquia não lhe têm dado a atenção devida e que essa falta de carinho nem sequer é suprida pelos esforços daquela beata reformada bem nutrida que lhe trata das velas.

Quero porém, e apropriadamente, confessar-lhe que me incomoda que dia sim, dia não vá limpar a minha pasta de spam do email e tenha lá novidades suas. Compreendo o seu esforço em dialogar comigo em português, ao contrário daquela rapaziada que me está sempre a perguntar se quero alargar os ténis ou se preciso de me abastecer de vinagra, apesar de eu nem sequer ligar a esse tipo de desporto e não ser dado a abusar do tempero.

No entanto Bispo Zé, estou longe de precisar que me empreste uns cobres, apesar das taxas atractivas que me propõe e de se estar pouco ralando para o meu passado financeiro, que só não é tão mau como o meu futuro financeiro, porque este não existe. Aliás, sei que possivelmente só está a safar o seu amigo St. Patrick, mas olhe que pelo que sei o tipo é dado a bebedeiras e a regabofe com irlandeses, por isso veja lá no que se mete.

Mas, se quer mesmo fazer alguma coisa por mim Bispo Zé, eis o que podemos fazer: eu prometo dar uma moeda a um pobrezinho na rua (sem ser das escurinhas) se o Bispo Zé prometer que só me manda mails quando tiver o link do Youtube que tem Jesus a caminhar por cima da Lena d’Água.

2.4.12

O improvável não bate à porta...

...junta-se a nós quando menos se espera.

I coulda had class...

Troque-se a palavra “bum” por “blogger” e aí está uma frase que faz todo o sentido.

O síndrome Chuck Norris



Existem dois tipos de síndromes que me incomodam, três se contarmos com o filho da p@#a do ca€@÷¶[ do síndrome de Tourette.

Um deles tem que ver com o fenómeno dos tipos que vêm a sua obra escrita ganhar projecção depois de mortos, não morrendo eles propriamente de velhice, o chamado síndrome do “Ponto final primeiro, prestígio depois”. Para além de ainda me faltar obra, iria ficar chateado se para produzir prosa de qualidade tivesse que abdicar de anos de vida, até porque já tenho coisas marcadas pelo menos até aos 80 anos.

Mas esse é um ponto mais utópico, já que vir a sofrer do síndrome Chuck Norris é mais preocupante. Basicamente é quando uma pessoa passa a vida ser foleira naquilo que faz e depois, quando já está basicamente feito num bolo rei, começa a ganhar uma aura mítica. No entanto, não é uma coisa tipo milagreiro e gente a ver o sol a rodar quando se fala no nosso nome, é mais o facto da nossa foleirice se tornar mítica.

Sofrer do síndrome Chuck Norris é ser aquela pessoa que, passados 20 anos, ainda toda a gente conta histórias acerca de ti, muitas vezes deformadas e parodiadas, mas que exacerbam a tua foleirice. São histórias porreiras e divertidas mas nas quais basicamente o pessoal usa as tuas façanhas para se rir um bocado sem que haja qualquer valorização da tua parte.

Tudo bem que cair anonimamente no esquecimento não é uma alternativa gloriosa, mas sofrer do síndrome Chuck Norris é saber que um dia vão haver gajos a vender tshirts à pala do que fizeste, disseste ou do teu mito sem que tu vejas um tusto.

E nem sequer lhes vais poder dar um rotativo para equilibrar as contas, porque no auge do síndrome de Chuck Norris provavelmente já nem te mexes.

1.4.12

Menti a mim mesmo e meti água

Não é por ser dia das mentiras, tradição que há muito se resolveu generalizar em Portugal para o ano inteiro, mas hoje tentei mentir a mim mesmo. Como é comum, na maior parte das pessoas há coisas que sabemos perfeitamente serem virtualmente impossíveis mas, ainda assim, tentamo-nos convencer do contrário.

Tendo ido dar um giro nocturno ontem e tendo também trabalho pendente para despachar sem falta de manhã, resolvi que a minha corrida matinal seria dada ao fim da tarde. “Ah meu granda palonço preguiçoso” dirão vocês que têm por mim uma estima esquisita “Coçaste a micose a tarde inteira e não te apeteceu sair de casa”.

Errado. Nesse aspecto consigo vencer facilmente a minha preguiça, a falha foi convencer-me que sou um muito mais rápido do que na realidade sou. Vendo o céu cinzento ao fundo e tendo em conta o percurso e o tempo que devia faltar para começar a chover, disse a mim próprio “Dá perfeitamente para fazeres isso tudo junto ao rio antes que comece a chover, tu estás praticamente um queniano de importação”. Meti a camisolinha mete nojo que diz “I finished the Lisbon Marathon 2011” e lá vou eu.

Está bem ó queniano de importação. Os últimos vinte minutos foram em ritmo duche e virei o meu lado mentiroso para o lado em que caía mais água, para aprender.

E sabem aquela sensação meio omnipotente que sentimos ao correr contra os elementos? Ela existe, mas conjuga-se facilmente com a sensação “ensopado de borrego”.

Toma lá o 1 de Abril diluído.

Novela do trabalho ao domingo

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