31.3.12

Arrisca-te urso



Falaram em piqueniques e trovoada e eu ri-me. Até perceber que estavam a falar comigo.

“És um homem ou és um rato” perguntaram a seguir? Depende do queijo que houver em casa, respondi.

“Vais lá ou nem por isso?” Deixa ver se o fato de urso já saiu da lavandaria, pensei eu.

Isto não é um filme, as pessoas não ficam felizes com cargas de água no lombo.

Deixa lá ver o que será de mim.

30.3.12

Não batam nos ceguinhos, mandem-nos antes cantar

Ideal para um blind date, para jogar à cabra cega ou para arejar as vistas. Ponham os olhos nesta banda, que eles agradecem.

A minha vida não dava um BILF

Aprendi a escrever com um monge quase cego.
Este, sabiamente disse-me um dia “Tem cuidado com os sentimentos que imprimes nas palavras, pois quando os passas para o papel eles passam a ser também de quem te lê”. Olhei com algum pesar para o monge, não pelo conteúdo das suas palavras, mas pelo facto de as ter dito voltado para um castanheiro, confundindo-o comigo.

Foi um período proveitoso mas, ao mesmo tempo, tumultuoso na minha adolescência, já que a minha mãe não aprovava o meu convívio com monges invisuais, ainda que pródigos na área de letras. Quando nos despedimos pela última vez, o monge colocou-me nas mãos um presente.
“Deixo-te com algo que te servirá bem melhor do que alguma vez o fez por mim”
“Pastilhas para a azia, monge?”
“Ah, desculpa filho, enganei-me...”

Retirando-me a caixa das pastilhas, entregou-me um pequeno livrinho com uma inscrição manuscrita na capa - “O segredo de perceber as mulheres”. Ri-me ao abrir o livro, que no seu interior estava completamente em branco tirando na primeira página, onde vinham dois símbolos desenhados – um smilie e uma lâmpada a piscar.
Voltei-me para questionar o monge sobre a origem do livro, mas ele tinha misteriosamente desaparecido. Quero acreditar que foi um mistério, apesar daquele miradouro em obras não ter sido o melhor local para uma despedida e à medida que me afastava ter ouvido ambulâncias uns quarteirões mais abaixo.

Durante muito tempo pensei, devido à simbologia do livro que o que as mulheres apreciavam eram electricistas sorridentes. Ponderei seguir Electrotecnia e colocar aparelho nos dentes. Confuso, acabei por colocar material eléctrico na boca, o que constituiu um choque, um sorriso brilhante e a noção que para mim essa carreira não dava.

Só mais tarde, quando comecei a escrever regularmente, é que percebi a metáfora no livro que o monge me tinha dado e não foi aquilo com que eu sempre sonhara – o smilie simbolizava o humor, a boa disposição e a lâmpada as ideias. Resumindo, um segredo para conhecer as mulheres afinal era o humor inteligente, o que me deixou danado porque eu acreditava mesmo na teoria do electricista.

Portanto, em retaliação por uma teoria falhada o máximo que aqui ofereço são laivos de pseudo humor inteligente que, longe de presunções, não têm como alvo as mulheres ou até os homens em geral, mas sim os electricistas. E isso, está longe de ser vida de BILF.


Nota: Serve o presente apontamento para honrar a alegre tertúlia bilfiana levada a cabo por esta senhora e o facto desta outra senhora ter tido a gentileza de me nomear para um certame em que, mais do que um outsider, sou um alien.

29.3.12

Olha-me o anormal a escorregar no corrimão

Este apontamento não tem um vídeo com um tipo a partir a cremalheira no cimento. Nem sequer conta a história de amor entre o cimento e a cremalheira de um tipo que desafiou um corrimão.

Fala do facto de, durante toda esta semana, me andar a armar em viajante do tempo e a descer escadas do Metro em registo “Deslizador de Corrimão Master”, tal e qual nos tempos de escola.

De manhã tem sido assim e amanhã também é dia. Acho que me aguento.
Já agora, a estação é Entrecampos, caso pensem em sacar de uma máquina na eventualidade disto dar um sucesso do Youtube. Peço-vos só que liguem para o INEM primeiro, caso a coisa corra mal.

O risco de um gajo ver o Extreme Makeover

Levantei-me ainda meio abananado. Decidi que o que era preciso era um pequeno almoço à homem para me redimir.

Não havia líquido para desentupir canos, tive de beber um copo da limonada mais ácida que consegui fazer. Reparei depois que não eram limões, mas sim cebolas o que tinha espremido.

Comi um naco de carne seca que por ali andava na cozinha. O cão quase não se queixou do bocado que lhe tirei à pata traseira.

Para terminar um batido, despejando o que havia no lixo na centrifugadora e misturando com leite. Infelizmente não havia azedo. Os olhos de peixe dão uma consistência estranha aos batidos.

Senti-me melhor, sentindo-me mal. A coisa eventualmente iria ao lugar.

Agora ver o Extreme Makeover Home Edition e quase derramar uma lagriminha antes de deitar, isso é que não. Não me apanham mais a fazer misturas dessas.

28.3.12

Duas vezes o mesmo acorde antes de ir dormir

O original




O sample





Gosto de ambos, mesmo não sendo um devoto do Lou Reed (um belo contador de histórias musicadas) e mesmo sabendo que o hip hop ainda faz muita gente torcer o nariz. No entanto, cresci a ouvi-lo e muito fora do estereótipo do gueto e de outras cromices associadas.
São gostos, tal como o de ouvir música ante de ir dormir.

Eu vou ser um velho radical

E na minha ride ninguém vai tocar.

O dia em que acabou o meu reinado nos carrinhos de choque

Já fui grande no Portugal dos feirantes e das diversões.
Tempos houve em que o meu nome era segredado por entre arrumadores de carrinhos de choque e o meu conselho era ouvido antes de se decidir se a pista ia bombar ao som da colectânea “NOW Vol.321” ou se Fernando Correia Marques e o seu “Burrico” iriam dar ritmo à noite.

A minha destreza ao volante de um carrinho de choque era tal que chegaram a vir italianos da Ferrari ver se era possível levar este know how para a Fórmula 1. Não era, mas pelo menos levaram farturas e algodão doce.

Cheguei a dar autógrafos com o pé direito enquanto fazia um pião e lia Roberto Bolaño, nessa altura ainda só os esboços que ele me enviava, nada de coisas publicadas. Com algum pesar, lembro-me de ter feito a piada de mau gosto, “Tu és bom Roberto, só te falta uma doença terminal para seres brilhante”.

Todavia, numa estrelada noite de Agosto, ainda a Feira Popular era mais do que um buraco negro no coração da cidade, fui vítima da minha soberba e porventura de um batido de ananás, a minha bebida de preferência nos “Três Irmãos das Farturas”, batido esse adulterado por alguém que me queria mal. Não me sentia bem, mas avancei para a pista.

Tocava um clássico, possivelmente Technotronic ou 2Unlimited ou um remix techno de Samuel Barber.

Depois de algumas acrobacias, senti a visão turva no preciso momento em que um estranho ousava invadir a minha pista. Conduzia como se fosse um domingueiro, pausadamente, repito PAU-SA-DA-MEN-TE, como se tal fosse possível no frenesim e adrenalina dos carrinhos de choque. Uma mão no volante e outra nas costas do outro banco, o bandalho a pensar que aquilo era dele.
Fui rápido e incisivo, dei uma volta larga para ganhar balanço e fui no ângulo cego, para lhe acertar de lado em potência máxima e o fazer rodopiar contra um rebordo.

No momento do embate, a tragédia. O braço que sobrava não estava lá a repousar por dá cá aquela palha, mas sim a proteger um pequeno ser. Conforme vi o carro a rodopiar e os gritos de condutor e acompanhante, por momento rezei para que fosse um anão alcoólico mas não, era mesmo uma criança. O carro imobilizou-se em segundos, a música parou e eu fiz o que qualquer homem que estivesse sob o efeito de um batido de ananás adulterado teria feito.
Fugi dali a sete pés.

No dia seguinte, passei por um quiosque e espreitei “O Crime”, em busca de notícia da tragédia. Não vinha nada para além do habitual crime passional com caçadeiras e um tipo que tinha sido traído por um burro. Estava safo.


Mas, não tendo um tio sábio como o Homem-Aranha teve, a minha aprendizagem traduziu-se num exílio auto-imposto a durar para sempre. Foi o adeus aos carrinhos de choque, pelos quais passo ainda hoje em feiras da terrinha e locais de férias, só para ouvir os ecos da minha fama.

27.3.12

Cruzamentos para saborear

Some people won’t dance if they don’t know who’s singing.
Metaforicamente é um fact of life. Musicalmente é isto e é bom.

Dicotomia das passadeiras

Ser peão é lixado.
No xadrez é o que se vê, não só vais em primeiro lugar como a probabilidade de seres comido por qualquer um que te apareça pela frente é enorme, sem qualquer tipo de satisfação para ti. Quando as coisas te correm mesmo bem, trocam-te por outra peça mais valiosa.

Na vida real, o teu maior perigo não é, ao contrario do que pensas, o veículo motorizado que tende a malhar-te no lombo quando não tens cuidado. Esse veículo raras vezes é a razão do confronto, já que quem manda nele é um peão como tu, tirando quando está ao volante. Aí passa a ser um condutor, muitas das vezes enraivecido, prepotente e desdenhoso de peões como tu (e como ele, tirando se vive no carro e cedeu as pernas numa acção de caridade).

Tu, que és um peão consciente, sabes bem que existem os chamados cam-peões, na forma de velhotes que desafiam as leis da física e da lógica ao atravessar a estrada ou também em formato adulto/jovem inconsciente que ainda não acreditam que o chassis é mais resistente que o esqueleto. Mas tu não és assim, jogas pela certa quando há semáforos e quando não há benzes-te duas vezes, mesmo que não sejas religioso, porque mal não há de fazer.

É que uma passadeira sem semáforo é o expoente máximo da relação entre peão-condutor. O primeiro pensa que esse devia ser um local sagrado, estilo igrejas no Highlander, onde nada lhe devia poder fazer mal. Já o segundo vê muitas vezes no peão prestes a passar na passadeira um empecilho para chegar sete segundos mais cedo a onde quer que tenha de ir exercer a sua pressa.

Quantas vezes não ficas tu, peão, parado na passadeira a ver mais uma tipa a acelerar e a fingir que não te vê ou um artista que mostra pelos seus óculos escuros que não tem tempo para lidar com peões, ainda por cima dos que atravessam estradas.

E é nesses breves instantes que tu, peão, cidadão calmo e atento às prioridades da vida, gostavas de ter super-poderes, não daqueles que dão para despir modelos checas à distância, até porque para isso já foi inventada a Internet e os cartões de crédito. Mas, por uns momentos, não te importavas nada de ter o poder de furar múltiplos pneus a um carro, sem causar mais órfãos, deficientes ou dramas familiares. Só para criar uma noção de que o tempo é um factor muito relativo e que a vingança também cheira a borracha queimada.

Mas peão, provavelmente tu não entras numa série da TV e não és um mutante que caminha entre nós. Resta-te suspirar, dar graças por fazeres parte da metade menos imbecil desta relação e seguir o teu caminho olhando em frente. Mas tem cuidado, onde não há condutores, há cocó no passeio.

O filme é bem melhor que o blog

Está na hora de pagar uma dívida.
Ao longo dos anos, muita gente tem vindo cá parar parar por causa do nome do filme que lhe é homónimo. No entanto poucos devem ser os que viram o filme por causa do blog, esperando eu que a razão principal para isso seja o facto de já o terem visto.

Assim sendo, nem que seja por descargo de consciência, eis 50 das 10 mil razões porque vale a pena ver O bom, o mau e o vilão.

E sim, é um western.
E não, não tem um enredo romântico.
E sim, é extenso.
E não, o Clint Eastwood nem sempre foi velho.
E sim, o Morricone merece vénias. Por isto e por muito mais.
E não, não levo a mal se não gostarem. Tanto do blog como do filme.


O nome do blog foi inicialmente apenas um curioso paralelismo que deu jeito mas, à medida que o tempo passa, cada vez me faz mais sentido que assim seja e eu um dia explico porquê. No entretanto, todos os dias aumenta a minha dívida para com o Sr.Leone.

Quem diria que, tendo eu um certo gostinho pela originalidade, iria manter durante tanto tempo um tasco virtual com o nome rapinado a obra alheia.

26.3.12

Népia de blog sexy-sensível

Dizem-me que este blog não tem uma dimensão sensível para além da idiotice patenteada do seu escriba residente. No entanto, é minha convicção que não raras vezes mostro um lado desconhecido de mim mesmo, para que a minha capacidade de surpreender se mantenha sermpre em forma.

Não tem que ser através de um texto, de finas palavras ou requintados argumentos. Basta um facto – como por exemplo o de tomar banhos de espuma.







Afinal de contas, podemos ser personagens mas, não sendo sexy podemos no mínimo ser asseados.





PS – O facto de estarmos a falar no plural de personagens dá a ideia que ainda não estamos curados daquilo da personalidade múltipla, um factor positivo na hora de criar mistério e muito negativo na hora de ir às compras.

Os missionários da corrida

Correr está na moda. E como eu sou daquele tipo de crápulas que gosta de ser contra as modas, digo sempre que comecei a correr antes de correr estar na moda, por isso sou diferente. Diferente não no sentido anormal, acrescente-se.

Como ao facto de estar na moda se junta o facto de ser uma actividade saudável, tirando se dissermos que costumamos ir correr para o parque de estacionamento do Colombo, as pessoas que correm/aderiram à corrida de forma muito regular tendem a ter um entusiasmo peculiar. Tal como ex-fumadores, ex-gordos ou ex-qualquer coisa que faça mal, os missionários da corrida tentam convencer carradas de gente a correr, a vir fazer uma corridinha ou a ir comprar uns ténis, que depois começa-se a correr logo na hora.

Eu defendo uma posição contrária, até porque muita gente encara a corrida como as senhoras que comiam cogumelos na floresta encaravam a Inquisição – mais vale ser queimado na fogueira a fazer o que eles dizem.

Corro porque gosto e compreendo perfeitamente quem não corre porque não gosta. Corro meias maratonas e compreendo perfeitamente quem ache que correr 5 ou 10kms já é um limite. Aliás, o facto de ter corrido uma maratona só fez com que alguns amigos que corriam comigo regularmente achem agora que já sou um maluquinho das corridas e que não estão ao meu nível para uns kms em ritmo tranquilo. O que é falso, até porque a ser maluquinho, tenho outras áreas que me interessam mais na especialidade.

É certo que corro muitas vezes sozinho, mas porque também gosto de usar o tempo em que corro para pensar em tudo aquilo em que não tenho tempo quando estou parado. Mas aprecio a companhia de quem corra comigo e o faça por gosto, até porque de obrigações já está a vida cheia. Por isso, não tento convencer ninguém para ir correr até porque acho que as pessoas não têm de ser convencidas, têm de fazer o que lhes apetece e se lhes apetecer correr, bom para elas. Caso contrário, amigos como dantes e se calhar arranjamos outra coisa para nos divertirmos, como o macramé por exemplo.

Tudo isto não impede que as pessoas venham ter comigo e me peçam conselhos sobre corrida, alguns dos quais nunca me sinto confortável para dar, já que é sempre difícil adivinharmos as motivações dos outros. Faço o melhor que posso, mas nunca como missionário, já que essa (piada manhosa involuntária) é uma posição que dispenso.

25.3.12

Eu e mais 37999

Pequena sondagem blogosférica para verificar quem usa as pernas ao domingo de manhã.

Então e quem é que foi para a ponte hoje (só para sacar uns bonés da EDP à pala)?



(depois amanhã logo vos falo dos evangelismos de corrida que, não sendo Testemunhas, sempre são uma seita cool para correr com as outras)

23.3.12

Rosé for dummies




A vantagem de não perceber mais de vinhos para além do “gosto/não gosto/isto é bom para matar bicho da madeira?” é que podemos ficar imunes durante uma discussão sobre vinho rosé, lambruscos e o diabo a quatro. Imunes e a encher o copo, acrescente-se.

É para meninas? Está na moda? Não é vinho? É para meninas de barba rija? Tem o seu je ne sais quois, mas só isso em francês que o léxico também não é vasto? Desconheço.

Sou a Suíça da escolha de vinhos mas, aproveito sempre um jantar de quando em vez para levar mais uma pomada da espécie e deixar o festival começar. Posso não ser um ás do copo, mas sempre fui mestre a gozar o prato.


Até já.

Yuri, o c"#%ão que me lixou a teoria dos taxistas

Considero-me um tipo inteligente que está sempre a aprender. Contudo, ao longo dos anos desenvolvi algumas teorias cujos princípios se mantêm válidos há já algum tempo. Ou, no caso da teoria dos taxistas, “se mantinham”.

Ao contrário das pessoas que preferem que o taxista vá caladinho quando vão sozinhos num táxi, na minha teoria o princípio defende que é positivo que o taxista fale, dentro de um nível controlado. Afinal de contas, o seu silêncio leva a que o tipo possa ir a pensar nos males da vida, em bater o recorde de velocidade em avenidas de Lisboa, vá a dormir ao volante (82% dos taxistas que conduzem à noite têm mais de 200 anos) ou, pior ainda, que estejamos ambos a ouvir a estação de rádio da sua escolha.

Assim, o meu método sempre foi simples: pegando numa frase dita por ele ou lançando eu o primeiro o tema, a partir daí só precisava de repetir a última palavra dita por ele para manter uma conversação em loop. Não só não tinha que prestar atenção, como o percurso parecia mais rápido, com o tipo a debitar todo alegre as suas teorias.

Exemplo:

“Boa noite, é para rua Volfrâmio Santos, junto ao Jardim do Tragabolas”.
“Tem preferência pelo caminho?”
“Tanto faz, a esta hora não há trânsito, de dia é que...”
“Não me diga nada yada yada yada yada... e as pessoas ainda se queixam da economia.”
“...Pois e a economia já se sabe...”
“Então não, a economia yada yada yada, yada...o Governo”
“...O governo é o que temos...”
“É, mas nós yada, yada, yada, yada...e o Benfica”.
“Ui, o Benfica deixe lá ver...”
“Eles vão lá, yada, yada, yada...haja dinheiro”
“Por falar em dinheiro, pode encostar ali à frente, ao pé do largo. Quanto é?”

E posto isto, mais um percurso concluído e mais um taxista satisfeito, com o bónus de apenas com 10% de atenção ainda conseguia ficar com histórias para contar.

Até ontem, quando conheci Yuri o taxista.

Em dia de greve, tive de ir acompanhar o que na gíria se chamam “cenas profissionais a decorrer fora do local habitual de trabalho”. No regresso, o táxi era a opção óbvia, porque a boleia para lá não era válida para o regresso e visto dividir a viagem com uma simpática moçoila, a coisa fazia-se em dois tempos.

A senhora sai primeiro, vamos pela Avenida Sinbad que ela fica lá. Yuri, nessa altura ainda um taxista anónimo vai de bico calado e nós na conversa. Ela sai, estamos perto do centro da cidade e dou indicações para o resto do percurso. Yuri, noto-lhe o sotaque de leste, que confirmo no nome da licença, começa a desbobinar. Eis um excerto:

“Ser dia de greve e pessoas a trazerem ainda mais carro. Serem estúpidos.”
“...É uma estupidez é ...”
“C#”%”%lho, burro de m#&/da, vai lá no teu carrinho. Chegares a casa já nem veres telejornal ahahah.”
“O telejornal também é o que é...”
“Fod!$”#$-se, um frango dava para comer um frango e ainda ter dinheiro para sobremesa.”
“...Um frango?”
“Sim, esses c”#%ões não saberem preço de gasolina? Quase dois euros, o tempo que estarem aqui dava para poupar para frango e resto de jantar”.
“Pois...jantar...já deve haver pessoal com fome...”
“Filh#”!%!% da p#”$a, trazer carrinho novo, não ver nada à frente, eu que estar a pensar por mim e por ele. Vamos os dois para casa mais tarde e culpa ser desse p#!”$%!”%eiro”
“Vamos para casa?”
“Já estar aberto o sinal c€#$%lho. Estar tudo maluco, tudo a ir para casa de carro. Eu não trabalhar mais assim. Deixar senhor e f”#%”-se ir para casa, ainda não saber bem como.”
“Olhe, eu fico ali ao pé da paragem.”
“Ah, ser fácil, encostar ali mal p#”%”#%leiro do c#””#%#%lho que estar em segunda fila parar. Muito obrigado senhor”.

Saí espantado, acenando a Yuri que arrancou acenando de volta e soltando alguns impropérios contra um tipo que se atravessou à frente. A minha teoria falhou com Yuri, porque Yuri, se bem que não de feitio tresloucado, tinha um pensamento desconexo cujo único factor de união era o uso perfeito do melhor calão português. Cada tema que eu lançasse ia esbarrar na sua vontade de dizer vinte palavrões para qualificar o mundo que o rodeava.

Yuri do c#”%”%lho, lixaste-me a perfeição da teoria, mas foi um p”#$ta de uma viagem de táxi sui generis.

22.3.12

Nem só da mente vive o homem




Por isso, o serão de hoje também mete desporto.
No entanto, só chegarei a este ponto se perder alguma aposta, até porque levo o basquetebol demasiado a sério para jogar com um fio de ouro ao pescoço.

E, para quem desconheça os meandros das instalações desportivas medianas do país, marquesa estofada é coisa que só mesmo em filme e os bancos corridos em madeira apresentam sempre o perigo de lascas e falhas.

Eu hoje vim assim

Os chulos da Cinderela



Cindy, sinto que te posso chamar assim, não só por nos conhecermos há anos, mas porque esse nome também é mais condizente com a área em que te situa o título do post – tu vê lá se te atinas.
Dizem-me os tronchudos dos tipos da Blueticket, sempre recebidos na minha caixa de email com a desconfiança com que encaro na rua qualquer dupla de idosas com uma pasta na mão, que agora dás umas voltinhas no gelo a troco de dinheiro.

Pensava-te melhor na vida, mas esta foto diz-me que andas com o mesmo gosto na roupinha do que a Babá (sinto também que a posso tratar assim) Guimarães no cartaz de promoção dos Ídolos e isso não é bom. Se bem que no caso desta última, o erro foi ter ido pedir roupa emprestada à Ana Malhoa (esta não é minha, li algures e achei que valia a pena a citação).

Se é para andares a fazeres “favores” a militares, ao menos pede aos senhores da Blueticket para escolherem bem as patentes, que esse rapazola que alomba contigo pelo fatinho nem sargento deve ser quanto mais príncipe-já-marchavas.

Agora vai lá cortar fiambre com as botas que tenho de ter uma conversa com os teus patrões.

Senhores da Blueticket, não estou em posição de condenar ou sequer julgar o sucesso que possam ter com a Cindy a fazer truques no gelo. Creio que a posição certa seria em espargata, depois de um triple axel duplo, mas tenho uma meia maratona no domingo e estou a tentar evitar lesões.

Ainda assim, o advento do marketing relacional deu-se para que a comunicação pudesse ser filtrada e optimizada junto de, por exemplo, clientes e bases de dados. Coisa que vocês passam a ferro quando me mandam divulgação de tudo quanto é porcaria em cartaz.
Vamos entender-nos, de uma vez por todas – Cinderelas no Gelo, Toinós Carreiras e troupe desse circo, não obrigado.

Chutem lá uma Bela Adormecida a engolir fogo ou wrestling de anões mexicanos e aí sim, já podemos falar de oferta cultural a sério.
Até lá, não me lixem com estes programas.

21.3.12

O Prince das marés

Sempre pareceste uma espécie anão de circo pseudo-estiloso mas, no teu auge, a tua música tinha qualidade suficiente para fazer desculpar até vídeos que não lembram ao demónio, como este.






Não são 8 minutos como a full version do Sexy M/F, mas já dá para um certo toque de anca, quase imperceptível quando se está sentado num open space.

Mazelas

Ao acordar hoje reparo nas minhas pernas e o cenário não é de encantar. Parte da frente do joelho direito esfolada, parte interior do joelho esquerdo com uma clara marca de uma pancada. Se não doem para além do toque, parece-me que o segredo talvez seja não tocar. Já com o dedo médio da mão esquerda não é bem assim, está inchado e ligeiramente dorido.

Nestas alturas lembro-me sempre do que a minha mãe me diz, quando calha a ver algum deste tipo de marcas “Ai filho, o que é que o desporto te deu para além de mazelas?”

Tendo em conta que desde os seis anos pratiquei sempre alguma modalidade, incluindo largos períodos a nível competitivo, o desporto é capaz de me ter dado alguma coisa para fazer companhia às mazelas.

Acima de tudo deu-me tempo para aprender o valor de uma equipa, a noção que não tens de gostar de perder mas precisas de saber aceitá-lo e que deves sempre escolher pessoas mais pequenas do que tu para andar à porrada. E a verdade é que sempre fui competitivo e sem o desporto, possivelmente seria insuportável nesse aspecto.

Mas a minha mãe sabe disso tudo e, conhecendo-me, ficaria desconfiada se eu lhe desse uma resposta tão composta como esta. Por isso, quando lhe respondo coisas como “Olha também me deu fama, dinheiro e mulheres de bom porte, mas deixei tudo lá embaixo porque o teu elevador é pequeno” dá-me um calduço e ri-se. Se não me tiram a capacidade de ser idiota, não devem ser mazelas importantes.

20.3.12

Selecção dos Restos do Mundo

Os portugueses irritam-me e não apenas por eu ser um deles. Mas atenção, irritam-me da mesma forma como se dão duas lapadas a um irmão mais novo, não quer dizer que não gostemos deles, mas por vezes tiram-nos do sério.

Por um lado somos malta que durante a estadia em hotéis, pensões, residenciais, móteis e locais ocasionais de chavascal pilha tudo o que puder da casa de banho, sob o mote – “Epá, eu paguei a estadia, tenho direito a levar as coisas”. Por outro lado, ao contrário de outros povos de economias bem mais sólidas, andámos anos a resistir pedantemente à ideia de levar o que sobra de uma refeição paga no restaurante para casa. Tirando naquele historial óbvio que envolvia frases como “Meta por favor num saquinho, que é para o cão”.

A crise tem vindo a mudar isto e entre gangs da marmita e restaurantes às moscas, não são raros os locais em que vejo as pessoas a pedirem para levar o que resta da dose. E por pessoas não me refiro apenas a idosos que comem um carapau em dez fascículos.

No entanto, a mesma razão porque me irritam é aquela que tantas alegrias me dá na hora de contar histórias, como esta que envolve sobras num restaurante e uma família pseudo-possidónia.

Cenário: Restaurante, hora de almoço. Numa mesa, um casal e a sua filha estão prestes a pedir sobremesa. Empregado apresta-se para levantar os pratos, quando a senhora fala.

“Olhe, por favor ponha os restos numa embalagem que sempre ficam para o cão.”

Gritos de alegria da filha. “Papá, papá, viste a mãe. Afinal sempre vamos ter um cão.”

Sabedoria de meio dia - Vol. 3

Diz todas as verdades de forma pausada e a sorrir e deixa que seja a cabecinha das outras pessoas a transformá-las em piadas quando decidirem que o assunto lhes custa muito a engolir.

Pensa nisso como um LOL ou um :) da vida real e vais ver que os inibidores de seriedade fazem maravilhas pelo lado social da tua vida.

19.3.12

O meu esquilo profissional

Descobri há alguns anos que tinha um esquilo profissional. Ao início fiquei preocupado, pensei que podia ser grave, pois nem sequer sabia se era preciso ter licença para ter um esquilo profissional mas depois disseram-me que não havia problema, era normal as pessoas terem os seus e muito possivelmente na volta eu até tinha mais do que um.

Posso dizer que a emoção foi grande nos primeiros tempos, afinal de contas para quem cresceu na cidade como eu ter um esquilo, mesmo que profissional, é quase uma aventura. No entanto, os dias foram passando e cheguei à conclusão que o ele devia ser tímido já que teimava em não aparecer, pelo menos a horas decentes, o que me levou a preocupar sobre o tipo de profissional que poderia ser.

Voltaram a acalmar-me, disseram que se estava mesmo a ver que o meu esquilo profissional, tendo tudo a ver comigo, tentaria ser o menos previsível que possível e faria os possíveis por surpreender e arranjar forma de fazer uma entrada triunfal. Lá fui esperando, imaginando o meu esquilo a trabalhar arduamente para se apresentar, até que um dia achei que a coisa não podia continuar assim. Fui ter com a pessoa que me tinha dito que tinha o raio do esquilo. Acalmou-me e disse-me que muitas vezes o esquilo tinha uma forma estranha de se revelar, havendo até histórias de esquilos profissionais que só se revelavam sob pressão e de outros que só apareciam camuflados, sem que isso os transformasse em esquilos militares. No meu caso, o melhor seria escrever um texto tentando sensibilizá-lo para que, mesmo que não se deixasse ver, ao menos se revelasse de forma consistente.

Depois de ter feito o primeiro texto finalmente percebi onde se tinha andado a esconder o sacana do esquilo. Conseguia agora vê-lo claramente ali aos saltos no meio de linhas e palavras, roendo raciocínios idiotas e ideias ao desbarato. Na verdade, parecia-me que chamar-lhe profissional era limitar um pouco o meu esquilo dava-me ideia que ele tinha aspirações para alem de um horário das nove às seis mas, se fosse possível, iria continuar a levá-lo comigo para o trabalho.


Conforme o tempo vai passando às vezes tenho medo que um dia o esquilo se vá embora. Quando isso acontece, escrevo logo um texto, mesmo que à primeira vista pareça não poder haver ponta de esquilo profissional à vista, só para depois com mais calma o possa ler para o ver a rebolar-se cá dentro.

16.3.12

Sabedoria de meio dia – Vol II

A citação recorrente e abusiva de expressões como “Carpe Diem” e outras frases inspiracionais ditas algures por alguém é uma perda de tempo. Tempo esse que podia ser melhor utilizado para inventar frases motivacionais para outros poderem utilizar, citando-vos como fonte de inspiração.

Fiquem com esta, que vos ofereço: “Lá porque a vida é um circo, não temos de gostar de palhaços”.



PS – O Horácio, o tipo que alegadamente disse “Carpe Diem” pela primeira vez, também disse algo como isto: “O bom senso é o primeiro princípio e a fonte da boa escrita”.
Por aí se vê o pouco que ele percebia disto...

O génio torturado

Mesmo para quem não goste de música do género, se for capaz de fazer uma avaliação distanciada do percurso do senhor Trent Reznor reconhece ali particularidades de génio. Da mesma forma que há quem goste mais de Mahler do que de Mozart sem que isso ponha em causa o talento de cada um.


Há ali a exploração racional e ao mesmo tempo emotiva do eterno mito do génio torturado. Aquele que produz a sua arte através de uma sensação de vivência em sofrimento. Há quem faça isso de forma natural, porque não consegue fazê-lo de outra maneira e há quem o faça de forma sublime mas intencional ao género "Eu sofro, mas sei que quem sofre como eu percebe este mundo".

Grande artista o Trent, ainda por cima inteligente.
Gosto de génios.
A parte da tortura é que me custa um bocadinho, mas também quem vos escreve é um tipo que se arrepia todo quando ouve uma lima de unhas.

Já se viu que o género de genialidade que por aqui se pinta...
Ainda assim amanhã, se não acabar a pilha ao mundo nos entretantos, falo-vos de criatividade.



15.3.12

Sabedoria de meio dia – Vol I

Já corri mini maratonas.
Já corri meias maratonas.
Já corri a maratona.

Não corro para apanhar um autocarro ou o metro.

Corro atrás de objectivos, por mais utópicos que sejam, não corro atrás de rotinas.

Workshop de culinária já é coisa de macho

O bom da culinária ser cool é que um tipo já pode mostrar dotes culinários que vão para além do denominador “A grelhar umas febras ninguém me bate” sem que a malta pense “Ui, dá-lhe mais quinze dias e está a desenhar flores em bules de chá”.
A verdade é que, a título de team building a la profissional, acabo de sair de um jantar em que cada um cozinhou o que comeu e o tipo que cozinhou para mim tinha ar de quem se safava de avental ao peito.

Há vinho pelos intervalos, aprendem-se umas coisas e um tipo que se safe nos tachos pelo menos com metade da desenvoltura com que escreve demagogia temperada a gosto tem tudo para degustar o acepipe que confeccionou com a confiança de quem diz “Jamie Oliveira e Henrique Sai da Pessoa, a vossa sorte é que para mim isto é hobbie”.

Depois amanhã a coisa até pode soar de outra maneira, mas por hoje sou one night chef stand. E agora vou cozinhar ali umas tâmaras até adormecer com o focinho nos tachos.

14.3.12

Não me digas 10 minutos, porra

Prólogo: Atrasados somos todos e não falo de teor mental. Falo apenas do facto de, inevitavelmente, mais cedo ou mais tarde ficarmos atrasados para qualquer coisa.

Deixando as questões metafísicas para gente que lida com Buda, Yoga, Teló e outros filósofos contemporâneos, o conselho é simples e factual – quando estiverem atrasados não digam a quem espera: “São 10 minutinhos e já está” ou “Daqui a 10 minutos estou aí”.

A trampa já está feita e, ainda que metaforicamente, limpar o rabo com a melhor seda não resolve a coisa. Quem espera já está, por norma lixado e quem faz esperar, por norma, gosta de pôr paninhos quentes.

A solução para um problema mundial que não sendo a fome também faz mal ao estômago: Não digam que estão lá dali a 10 minutos a não ser que na realidade consigam estar lá daqui a cinco. Quando põem um tempo num atraso estão a incluir uma agravante – o factor de reclamação dupla: “Não só chegas atrasado/a como ainda por cima dizes 10 e demoras 30”.

Para evitar isso, digam o dobro do tempo que o vosso raciocínio inicial vos leve a pensar. Isso inclui o desconto de “Epá, a ver se ele fica menos chateado” e o factor “Se tudo correr bem...”. Não vai correr e vão ouvir a dobrar.

E porquê dizer o dobro do tempo? Porque quem espera exige respostas concretas, porque já está em brasa com o atraso e quer conversa: “Estou um bocado atrasado...”, “Um bocado, quanto?”, “Epá, dez....... CORTA

“Epá, meia hora.”
“F”#”%”#%, C”#%”%lho. Para a próximas, “%”#%” e %&”$!4 antes de “#!”$!%”

Passados vinte minutos estão lá e a coisa não é tão má como podiam ser.
Não há milagres, vão ouvir na mesma meus atrasados.
No entanto, serão adiantados em relação ao vosso próprio atraso, o que evitará para sempre a carta “Ainda por cima demoraste muito mais do que disseste”.

13.3.12

Esta tarde dei uma abada ao Nick Cave

Foram horas com ele a bombar a artilharia pesada, os êxitos escondidos e as armas de desespero. Certamente não se lembrou da última vez que nos vimos ao vivo, quando lhe disse “Nick, a tua música é do caraças mas não me arrastas para esse covil negro de onde vem a tua inspiração”. É certo que na altura estavas no palco e eu estava na plateia, mas a forma como a seguir atacaste o “Mercy Seat” demonstrou que me ouviste perfeitamente.


Ao fim da tarde, o meu sorriso continuava lá, nem sinais de negrume no espírito ou depressão no bolso de trás das calças. Haverá coisa melhor do que apreciar música com um toque noir fora desse estado de espírito? É quase como ver programas de gordos na televisão enquanto se come uma sandes de torresmos ostentando um físico exemplar.


Nick, se já aprendeste português só para ler este blog, lê o que te digo - és o maior e não te desencantes por isto. Nunca te vai faltar gente depressiva para lhes dares falta de sentido à vida e, aconteça o que acontecer eu nunca vou deixar de te apreciar, só que à minha maneira estupidamente positiva.


E agora bota aí um Weeping Song para me alegrares.

Tu tens um vizinho esquisito



Toda a gente tem um e este é um facto imutável da vida de quem não more no deserto do Atacama e afins. Quer seja a família hiper-disfuncional que faz do andar de baixo uma novela acústica ou o tipo assustador do lado que insiste em combinar obesidade e longas horas em tronco nu à janela fumando cigarros, apesar das temperaturas glaciares.


Pode ser a velhota que tem 22 gatos, cospe quando passas no átrio do prédio e ouve Rádio Renascença em altos berros até às três da manhã. Isto para não falar na quase cinquentona divorciada que encharca o elevador em perfume duvidoso e ainda “recebe” o ex-marido de quando em vez, apesar de o comparar à peste negra em confissões à porteira.


O facto de morares numa vivenda ou moradia não te livra do fenómeno. Os vizinhos esquisitos encontram sempre gente normal para se instalarem por perto.


Caso insistas no facto de não teres vizinhos desta espécie, isso sim é caso para te preocupares, porque assim sendo é provável que este texto seja sobre ti. E peço-te que pouses esse animal mutilado que estás a embalar enquanto lês isto antes de tomares qualquer decisão sobre este assunto.


Ainda vais a tempo de mudar ou, se eles já te começam a evitar, de te mudares.


PS – Na blogosfera isto também existe, há sempre um blog esquisito que linka para o teu. A vantagem é que pelo menos é mais difícil cheirar a perfume barato.



12.3.12

As teias do email

Deixem-me começar por fazer uma afirmação plena de análise critica e um toque francês: É muito mais fácil varrer emails antigos para debaixo do tapete virtual, do que varrer lixo para debaixo de um tapete a sério. A análise é fácil de constatar, o toque francês vem do facto de estar a comer uma fatia de queijo Brie, o que não é de somenos importância.

Tudo isto vem na sequência dos dois tipos de maluquinhos que existem no que toca ao estado de arrumação da caixa de email – os que mantêm a caixa tão vazia como o interior da cabeça de malta que participou na Casa dos Segredos e os que a têm tão preenchida como o cadastro e o historial de parceiros sexuais do mesmo grupo.

Até ontem, as minhas duas principais caixas de email estavam mais cheias do que o historial de uma cabeleireira de Massamá, prestes a entrar nos seus quarenta. Hoje, estão tão limpas como o cadastro da Irmã Lúcia nos seus tempos áureos.

Não se trata de mudança de personalidade, fuga eminente do país ou uma inovadora forma de exorcismo virtual. Simplesmente cheguei à conclusão que o que nunca foi relevante ou que há muito perdeu a sua relevância não faz falta nenhuma, mesmo que não ocupe espaço.

Entre mails estilo “Um dia vai ser giro ver isto” a conversas “Epá, isto é que foi um fartote, não posso apagar” e outras tantas mensagens que ficam a pairar com três e quatro anos no vazio, o bolo é gigantesco.

E a verdade é que não faz falta, porque 90% das coisas só nos lembramos delas no instante em que as vemos e desaparecem dois minutos depois de lhes tirarmos a vista de cima.

Por isso, arriverderfsdifvcci (ou lá como se escreve) tralha virtual. Eu diria que vais fazer falta, mas prefiro guardar a hipocrisia para outras alturas que valham a pena.

PS – Não fui totalmente honesto. O facto é que a criação de pastas permite que guardemos algum passado cibernético mais lustroso. Mas só o fiz com a mesma convicção com que as pessoas vão guardando fotos digitais em CD’s na expectativa que um dia vão ver as fotos das férias em Cernache do Bonjardim, uma por uma.

9.3.12

O segredo dos segredos

Posso contar-te um segredo?

Por norma, é assim o início do fim de qualquer segredo. E se for verdade que a curiosidade matou o gato, a descrição mais pormenorizada do fatídico evento deve incluir o desgraçado felino a ser espezinhado por alguém que vai a correr ouvir um segredo que outra pessoa lhe quer contar.


A verdade é que a maior parte das pessoas é curiosa e as que dizem não o ser, muito provavelmente são-no em segredo. E o problema de qualquer segredo é que é guardado por uma pessoa que, seja pela ele negativo ou positivo, mais tarde ou mais cedo vai achá-lo demasiado pesado para ser carregado sozinho.

Os segredos perfeitos são como os crimes perfeitos, fazem parte do lote de coisas que, a terem acontecido, nunca ouvimos falar neles. O resto é como dizem os antigos, sejam eles lá quem forem: “Duas pessoas que saibam um segredo já é uma pessoa a mais”.

Até porque será muito difícil encontrar alguém que há pergunta “Sabes guardar um segredo?” responda “Claro que não e aviso-te já que, mal me contes isso, vou passar a informação com a maior rapidez possível, pelo número máximo de pessoas e o mais detalhadamente que conseguir, sem omitir pormenores”.


Por isso, tiremos aos segredos que contamos a carga de informação confidencial e sigilosa que lhes queremos conferir. Afinal de contas, a partir do momento em que deixam de ser só nossos, deixam de responder pelo nome que lhe damos.


E embora existam milhões de nuances por detrás de cada segredo e das pessoas que os guardam, razões inexplicáveis que cada um justificará à sua maneira tornam o segredo uma espécie em permanente risco de extinção, sem que a mesma alguma vez aconteça. Procriam como coelhos estes segredos e, ao que parece, por cada um que morre, nascem logo dois a seguir.


É que, não digam a ninguém, mas melhor do que contar um segredo só mesmo a sensação de ter um segredo para contar.

8.3.12

Sexo, Violência, Palavrões (dos fortes), Trafulhice e Cereais

Não tenho muito mais a acrescentar, só estas coisas já me ocuparam parte da manhã. Desde que descobri a técnica de sintetizar partes do dia em cinco palavras a minha vida parece muito mais interessante.

7.3.12

Monólogo de um lanche

Eu e um iogurte líquido de kiwi. Ele não falou. O kiwi também não. No entanto bebi tudo o que tinham para me dizer.


Coloquei a garrafa na reciclagem porque onde se fecha uma etapa como iogurte pode iniciar-se uma nova vida como alguidar.

Backstage de almoço a dois

2 Fatias de pão de milho (bom, mas ligeiramente seco, é o problema de ter cestos de pão pré-preparados)

1 Bife de Espadarte com esparregado (posta não demasiado alta, mas grelhada na perfeição, o esparregado cumpriu sem deslumbrar, o restante acompanhamento caiu no esquecimento e não no goto).

1 Garrafa pequena de vinho tinho da casa (solução conforto e económica para duas pessoas que bem um copo, mas não querem sair de gatas).

1 Maçã Assada (sobremesa típica de gente com o dobro da minha idade mas que gosto de apreciar, de longe em longe, enquanto possuo dentição própria)


Almoço casual em restaurante não trendy mas com cozinha tradicional respeitável. Denote-se que fui consumidor minoritário do vinho, mas quando se é convidado é de bom tom deixar que quem efectua o convite tenha primazia no acesso ao álcool.


A esta imagem de conforto alimentar posso juntar o conforto económico de ter pago cerca de zero euros. Deixa ver o que se arranja ao lanche. E sim, vou descrever tudo o que coma hoje.

A história do Pequeno Almoço

1 Caneca de Leite, sem adição do que quer que seja, aquecida 1 minuto no microondas a 900w (morno a tender para o frio)

1 Pão com cereais abichanados (cortado ao meio, aquecido na tostadeira, metade com manteiga, metade com doce de abóbora)

1 Fatia de pão integral (igualmente tostada, para complementar o pão abichanado que não chegou para saciar o indivíduo que vos escreve)


Pequeno almoço tomado pausadamente à mesa, porque falamos de uma filosofia de vida que acredita que vale a pena sacrificar minutos de sono por um despertar gradual com refeição incluída.


Isto tudo para dizer que posso não aderir à moda de “fotos daquilo que como” que faz furor nas mais diversas redes sociais, mas hoje tudo o que passar pelo meu bucho passa por aqui.



PS – E isto incluiu a maçã que não chegou a conhecer o meio dia de hoje.

6.3.12

É t-u-d-o u-m-a q-u-e-s-t-ã-o d-e r-i-t-m-o

Não vou dizer que tudo o que resulta na vida tem a ver com questões de ritmo, até porque em termos de métodos contraceptivos a coisa é capaz de dar para o torto.


Contudo, isso é uma clara verdade no que toca à forma como se contam histórias. E isto vai da anedota, ao relato de como ontem houve um tipo no metro que se enganou numa sinfonia de Mahler que tentava executar utilizando apenas um garfo e uma lata de sardinhas vazia.

E quem diz alarvidades de forma tão convicta não tem qualquer pejo em passar a questão de ritmo para o cinema português.


Muitas vezes, parece-me a mim que o que mata um filme português é o seu ritmo, a que se junta a nossa propensão cinematográfica para temáticas que batem até à exaustão no ceguinho da miséria e da tragédia.


Culpa-se sempre a tradição do teatro pelo exagero dramático e pela tendência para uma lentidão exasperante na qual se desenrola a acção. Pelo meio vêm as influências estilísticas, a falta de meios, a escassez e falta de diversidade de actores capazes e o diabo a quatro, que se fosse filmado em Portugal seria o diabo a 1,5. Não é preciso entrar no frenesim de produções americanas em que a acção é mais rápida do que a história. Há milhares de exemplos de filmes acessíveis (sem ter que ser um filme paquistanês sobre uma ovelhas molestada e as suas reflexões sobre isso) de pontos diferentes do globo. A meu ver todos eles com a distinta característica em que a história é privilegiada em detrimento do exercício de estilo.



Dentro de um raciocínio absurdo, tento pensar sempre num filme como uma história contada por uma pessoa. Quando bem contada ou contada com piada, pode ser o mais alucinada ou até o mais corriqueira que possível e eu oiço-a toda com gosto e prazer.


Infelizmente, em boa parte do cinema português, parece o meu tio Orlando a falar detalhadamente do seu último exame à próstata. O truque é fechar os olhos e esperar que acabe.



PS – O descontentamento em relação à temática trágico-depressiva admito que seja uma questão de gosto pessoal. Mas o rtimo ou a falta dele é mesmo uma questão estrutural que cruza géneros e gostos. E sim, admitem-se excepções.

5.3.12

Eu andei enrolado com a Economia

Sempre tive um carinho especial pelas letras, com a devida excepção do Q que sempre me pareceu um O excitado com más intenções, fáceis de perceber também pelo facto de precisar sempre de acompanhantes para funcionar.


No entanto, sempre fui aberto a novas experiências e durante uns tempos, quando andava na universidade, cheguei a ter uma relação com a Economia. Embora me chateasse a sua formulação picuinhas e a forma como tratava os meus amigos como factores de produção sempre tentei ver nela aqueles micro pormenores que a tornavam única no meu dia-a-dia.


Muitas das coisas que passámos juntos deixaram algumas mágoas que as folhas de ordenados não ajudam a apagar e os suspiros à vista de uma carteira vazia relembram sempre. Mas, isso não retira em mim a noção que aquilo que de bom houve entre nós ainda hoje me ajuda a olhar para uma máquina calculadora com um sorriso maroto.


Sendo ela muito mais experiente que eu, logo nas primeiras vezes fascinou-me a sua capacidade de, não economizando esforços, me ter ensinado de forma apaixonada tudo sobre o Custo de Oportunidade.


Na altura, com tanta coisa a acontecer ao mesmo tempo, posso não lhe ter dado o devido valor, mas se houve coisa que a Economia deixou em mim foi essa noção de custo de oportunidade. A vida é feita de opções, muitas vezes não existe sequer um certo e um errado, mas têm que ser feitas escolhas e cada escolha tem pelo menos o custo de todas as outras que se sacrificam para a fazer.


Quanto mais cedo se perceber isto, melhor se começa a escolher e menos se começa a choramingar pelos cantos quando se percebe que só uma ínfima parte de nós consegue ter o que quer sem ter que sacrificar alguma coisa.


E foi isso mesmo que tentei explicar à Economia quando a nossa relação ficou claramente abaixo do break-even point. A culpa não era dela, os horários tinham mudado e já não havia Química entre nós.


Ela melhor do que ninguém compreendeu, a minha escolha pelas Letras, tornara-a o custo de oportunidade para mim. E ela era valiosa de mais para ficar ali a fazer número.

4.3.12

Inspiração madrugadora


Ainda não eram oito da manhã quando aqui cheguei. É verdade que é domingo, mas também é verdade que não consigo dormir até tarde quando as ideias estão a gritar cá dentro.

Wake up and smell the keyboard.

Durmo depois, quando faltar a inspiração.

1.3.12

O glamour do caixa de óculos


Terá sido algures entre os 13/14 anos que se notou que o meu franzir de olhos não era apenas um gesto sedutor. Vai-se ao doutor da vista, ah o rapaz cresceu depressa e toma lá um certificado de miopia para mostrares aos teus amigos.

Não tendo que usar os óculos permanentemente, facto que em conjunto com alguns problemas de atitude, fez com que nunca fosse muito fustigado pelo resto da comunidade adolescente. No entanto, toda a gente conhece e conviveu com histórias de “quatro olhos”, “vidrinhos”, “caixa d’óculos” e os “fundos de garrafa” que envolviam dar largas ao gozo com quem tinha as vistas curtas.

Mas, apesar de míope, sempre tive uma certa tendência para tentar olhar mais longe e achei que, depois de crescidos, com lentes de contacto, óculos mais modernos e intervenções cirúrgicas que permitem corrigir problemas oftalmológicos menos, a tendência seria para esbater o fenómeno distintivo de usar ou não óculos.

Não previa era que, tal Clark Kent, a moda criasse uma nova variante, em que óculos “de ver” se tornassem um acessório hiper mega trendy. Já passámos do regresso dos óculos de hastes de massa, do kit hipster de lentes do tamanho do telescópio Hubble a la anos 80.

Estamos numa fase em que há pessoas que não usam óculos e não precisam de usar óculos usam efectivamente óculos, ainda que sem lentes graduadas, só porque fica bem no cenário.

São tendências dizem-me as pessoas que já estão a usar palas nos olhos porque os piratas estão de novo na berra. Já um grupo de amigos que tenho e que passou a andar de joelhos porque segundo um novo padrão, ser anão é a next big thing, aconselha-me calma e a não ver as coisas de uma perspectiva tão altiva.

Calando desde já mais um grupo de conhecidos que usa coleiras cervicais como camisola de gola alta, o meu lamento não são os óculos em si ou os artistas desta moda, é o facto de agora haverem por aí caixas d´óculos e vidrinhos amargurados a pensarem que, depois de anos e anos a serem enxovalhados na escola, afinal foram precursores na moda e não lhes foi reconhecido o devido crédito. É lixado, mas enxerguem-se...

E já agora, que se acalmem os que tiveram de usar botas ortopédicas. A vossa moda há de chegar e para chatos já vos bastaram os pés.