31.1.12

Oportunidades dão-se aos talheres

Dentro das pancadas que cada um tem dentro de sua casa em relação às pequenas coisas do quotidiano, dentro do meu lote apercebi-me recentemente que gosto de dar uma oportunidade democrática aos talheres que tenho ao meu serviço.

Assim, quando do alto do meu cabedal burguês retiro a loiça lavada da máquina ou do escorredor tenho o cuidado de a colocar por debaixo da que está nos suportes na gaveta. Uma espécie de palmadinha no inox que diz “Vá, eles estiveram a mostrar serviço nos últimos tempos, agora é a vossa vez”.

Apanhado do clima? Talvez, mas não quero começar a ver na internet relatos de cutelaria insatisfeita a dizer que são sempre os mesmos a ter oportunidades e que estão fartos de esperar, etc.

Curiosamente, em relação às pessoas, a minha política diverge um pouco ao nível de oportunidades. Não me sinto tão inclinado a dá-las, mas bastante mais a sentir que há vontade em conquistá-las.

26.1.12

Os condenados também se abatem

Já tinha passado a fase de ter medo. Aliás, o segredo por detrás da calma que mostrava na hora da sua execução era o facto de não haver segredos. Sabia o que tinha feito, a razão pela qual o tinha feito, sabia porque tinha sido condenado, quando e como ia ser executado e que quase todas as pessoas, senão mesmo todas, não esperavam mais de si do que a notícia da sua morte.

No entanto, ao ver a respiração condensada dançar à frente dos seus olhos naquela fria e húmida manhã de Janeiro, lembrou-se de algo de que tinha saudades de fazer pela última vez e se havia altura pior para ter saudades do que quer que seja era aquela, com oito tipos de espingarda em punho a menos de 10 metros.

- Tem algum último pedido? – O oficial de serviço era sensivelmente da sua idade e parecia estar mais nervoso do que ele.

- Sim, se for possível, aproveitando o facto de sermos da mesma idade, gostava de falar um ou dois minutos sobre bandas dos anos 80...

- Muito bem – o oficial permitiu-se um ligeiro sorriso – é um tema interessante. Pelotão, aguardar a minha ordem para disparar.

- Epá, agradeço imenso, tenho aqui uma música na cabeça e falta-me o nome da banda. Era aquela que começava com uma letra muito nonsense tipo “Hot dog, jumping frog...”

O oficial sorriu, desta vez de forma mais aberta. Sabia bem do que ele estava a falar, curiosamente aquela música também tinha feito as delícias dos seus tempos de jovem. A resposta foi quase imediata.

- O que eu gostava dessa música. E o nome da banda, fogo...para me lembrar de...

Demorou alguns segundos a perceber o que acontecera, ao concluir a frase por instinto.

-...Prefab Sprout...

Ao contrário dele, o pelotão nunca relaxara, aguardando a ordem final. A conversa informal só contribuíra para os enervar naquele eterno momento de espera, aquele “fogo” involuntário tornou-se numa ordem e tudo seguiu o seu caminho, menos a última resposta. Talvez o condenado estivesse destinado a morrer sem saber a resposta ou porventura teria conseguido ouvi-la milésimos de segundo antes de tombar. Bem, pelo menos sempre eram os Prefab Sprout e não os Level42.

Subiu as escadas vagarosamente assobiando baixinho a tal faixa. Se existir algo para desta vida, certamente que hoje tinha ajudado um homem a ter uma história para contar.

24.1.12

O problema da publicidade humana enganosa

Quem, como eu, lida de perto com a lógica “aspiracional” sabe que essa é uma ferramenta muito comum em publicidade. A tua cara metade “pode” ficar tal e qual um modelito de bom porte atlético usando este perfume. Não és um totó de meia idade a ficar ligeiramente careca com este pujante carro como teu bólide. Isto não é um telemóvel, é uma varinha de status social, que transforma em magia todas as tuas acções quotidianas. Quanto mais estranha for a substância que eu te referir, da baba de caracol ao extracto de borras de caju, melhor será o benefício que este produto oferece à tua pele, ao teu cabelo ou até mesmo às unhas dos pés.

O problema não está em ter aspirações, é não saber a partir de quando é que estas são ilusões ou, pior ainda, não ter noção da realidade e acreditar em soluções milagrosas.

E se dizer mal da publicidade, enquanto agente comercial que estimula necessidades que porventura não deviam existir nas pessoas, pode ser um consolo e uma justificação válida para alguns, não só não resolve o problema como é uma fraca desculpa.
Nos dias que correm, as pessoas deviam estar mais preocupadas com o facto delas próprias serem muitas vezes a pior publicidade que podiam fazer a elas próprias. E enquanto isso não houver consciência disso, não há maior exemplo de publicidade enganosa por detrás desse produto.

O resto, se tudo correr bem, virá por arrasto.

17.1.12

Um caso para o CSI

Aqui foi cometido um JoséCídio

16.1.12

O problema da escrita sensível

Dentro do universo gigantesco da escrita, há para muitos o que se pode designar por “escrita sensível”. É um termo como outro qualquer, dos milhares que se inventam para rotular isto ou aquilo mas, no caso da “escrita sensível”, lida simplesmente com sentimentos e emoções.

Há quem diga que a poesia faz parte desse género mas, para os menos exigentes, pode ser toda e qualquer escrita cujo teor seja voltado para os temas que referi, embora por exemplo considere que escrever sobre cintas adelgaçantes pode ser um tema sensível, mesmo que não transmita grande emoção ou sentimento.

No entanto, o problema da escrita sensível não está no conteúdo, mas sim no seu autor, que as pessoas confundem muitas vezes com reflexo do que escreve. Nem toda a gente que escreve belos poemas ou dispõe com mestria emoções no papel é aquilo que se pode chamar “sensível”.
A verdade é que podem até ser autênticas bestas, mas com a facilidade de canalizar emoções através da escrita. Tudo bem que aquilo tem de vir de algum sítio, mas podem estar escondidas debaixo de diversas camadas insuportáveis que constituem a sua personalidade. Quem diz isto diz também o humor, já que por detrás do texto mais cómico pode estar o maior animal.

Eis um exemplo, cujo o resultado final não espelha de facto o cenário por trás dele:

Pediram-me um dia, no contexto profissional, que fizesse um pequeno texto inspirador, quiçá poético, que traduzisse a origem e trabalho de determinada instituição. Depois de orientar essas linhas, foi-me indicada a pessoa que deveria dar o “ok” final ao texto. Pseudo-engraçadinho, não me conhecia muito bem, mas acho que a sua posição me faria encaixar qualquer piadola que achasse por bem disparar.

“Então, o que te traz por aqui?”
“Tenho aqui para aprovar a introdução X, que é suposto ser inspiradora, a puxar ao sentimento, assim um textinho sensível”
“Ui, textinho sensível....” gesto gozão ”Se calhar foi por isso que pediram para tu o fazeres...”
“Epá, isso não sei, mas se calhar foi por isso que me pediram expressamente para o aprovar contigo....”

Depois de umas quantas Indirectas, provocações baratas e jogo de cintura, veio a aprovação e um texto que ficou realmente sensível. Ah, como são bonitos os caminhos da escrita.

12.1.12

Apelo emocional aos meus pés

Sei que provavelmente estão mais perto do que possa imaginar mas, nesta altura, só vos posso pedir uma coisa – voltem.

A nossa relação já é longa, bem mais longa do que as vossas unhas pois sempre cuidei delas com o mesmo cuidado com que podaria bonsais, caso vivesse em mim um pequeno jardineiro asiático. Todos os maus tratos que vos possa ter infligido tiveram uma boa razão, aquela história de que o desporto dá saúde. Tudo bem que juntos aprendemos que também dá entorses, alguns hematomas e de longe em longe até uma rotura de ligamentos, mas foi um sofrimento que nos ensinou que há que cair para nos sabermos levantar, ainda que a coxear e aos gritos.

Nunca vos faltei com peúgas lavadas e o ocasional creme sem nunca deixar a coisa resvalar para a bichanice. Não houve luxo, mas também não houve cotão entre os dedos.

Ontem foi um dia difícil, mas juro que foi trabalho. Não queria deixar-vos horas e horas expostos ao frio só com uns sapatitos numa rua sombria, de madrugada até ao fim do dia, mas tal foi necessário. Quando deixei de vos sentir a meio da manhã pensei que seria passageiro, mas já passou muito tempo e não é bonito passar parte da noite à vossa procura sem o conseguir.

Por isso voltem, peço-vos encarecidamente que o façam. Não posso prometer que não volta a acontecer, mas posso prometer que só vos continuo a presentear com meias brancas para fins desportivos e que aquela experiência com saltos altos foi só uma brincadeira…

10.1.12

O drama do cabelo encaracolado

Depois de ter ficado perturbado (mais ainda) graças à minha incursão pela obra de João Simão, pensei nas coisas que temos em comum. E cheguei ao cabelo encaracolado, quando já pensava que não íamos a lado nenhum.

E quando o termo “Cabeleira à Marco Paulo” esteve no auge, apesar de não chegar a esse ponto, sempre me ressenti um pouco em relação às comparações, achando que quanto muito, deviam era dizer ao senhor que tinha um tipo de cabelo muito semelhante a uma promissora criança do seu Portugal.

Mas, adiante. Quis o destino que uma doença minasse o dito artista, levando-o a meses de tratamentos que destruíram a sua fé nas permanentes, provando que era um falso portador de caracóis. Quando recuperou, de cabelo grisalho e liso, lembro-me para sempre de uma entrevista que deu, em que o apresentador lhe perguntava se voltaria ao seu penteado trademark.

Com a sabedoria que só um pensador do seu gabarito possui responde calmamente:
“Não, creio que o meu cabelo vai continuar assim nesta nova fase. Talvez o deixe escurecer naturalmente só um bocadinho”.

E foi nesse dia que percebi que, quando se chega a um certo patamar, o poder de criar caracóis deixa de ser importante, basta o poder de lhe controlar a forma como escurecem “naturalmente”, nem que isso signifique passar de grisalho a tom preto alcatrão.


Dois posts de génese capilar, estais satisfeitas cabeleireiras que por aí possam haver?

9.1.12

Loiras ou morenas – uma questão de interpretação

Antes de aprofundar a questão, gostaria de citar o grande pensador contemporâneo português, João Simão:

Uma é loira e acontece
Entre nós amor, ternura
Tão loira que até parece
O sol da minha loucura

Mas a outra tão morena
É tal qual um homem quer
Porque embora mais pequena
Ela é muito mais mulher

No esforço contínuo de tornar os conteúdos que produzo cada vez mais aceitáveis num cabeleireiro em Massamá, estas considerações de João Simão são um bom ponto de partida. Para além do outro mito de que as loiras são burras (o que poderíamos então dizer do variado número de portuguesas que decide ser loira a partir dos 40 anos), não há muita forma de levar isto para além dos factores de predilecção física. E João Simão, por estranho que possa parecer, dá uma noção de saber do que fala.

Se combinarmos o cinema americano e a proporção mais reduzida da espécie em Portugal, o fascínio pelas loiras assume uma credibilidade mais sustentada, dada a sua tipologia mais rara e as implicações que isso causa no factor cobiça.

João Simão, sagaz na metáfora, assinala ali que “entre eles acontece amor e ternura”, quando mais provavelmente a coisa significa que há ali regabofe de três em pipa. Isso poderá capitalizar no aspecto da loira enquanto “bomba sexual”, ícone explorado em muitos imaginários, artes gráficas e portas de casa de banho públicas. No entanto, João Simão levanta a dúvida quando diz que o seu grau de “loireza” se assemelha ao sol e à sua loucura. Se coisas com o sol a mexer e loucura podiam levar a loira para próximo dos milagres de Fátima, tornando a relação meramente espiritual, por outro lado podemos ver uma loira de cabelo tão loiro que quase parece branco, o que tanto pode significar uma má sessão no cabeleireiro do bairro como abuso de substâncias por parte do interlocutor, que ao fim ao cabo pode estar apenas envolvido com um uma esfregona embebida em lixívia e ainda não se ter apercebido disso.

Deixemos a loira de molho e consideremos a avaliação das morenas, um produto bem nacional.

Sabemos que ela é tal e qual um homem quer, o que pode ser falacioso, porque nem todos os homens querem o mesmo (além do que estão a pensar) e às tantas alguns podem ver a morena como uma SportTv que tem um suporte para cervejas. No entanto, logo a seguir podemos ver que, segundo o princípio de João Simão, ela é muito mais mulher.
Quer-se dizer, achamos que podemos ver, já que também nos é dito que ela é mais pequena (do que a loira? do que João Simão? Do que a cintura média de um homem?). Ora isto tanto pode ser um truque matemático de João Simão que, perante uma anã trigueira calcula peso/altura e define uma mulher mais concentrada, uma espécie de engate Fairy, como o facto da loira ser estrangeira e não perceber o que João Simão quer, tornando a morena mais mulher, porque lhe grelha as febras no ponto exacto.

A verdade é que a dicotomia de João Simão nos confunde, como boa parte das mulheres sejam elas morenas ou loiras. Possivelmente este grande pensador, não querendo ser faccioso deixa a decisão nas mãos de cada um e o seu pensamento flutua qual microfone de mão para mão.

É por isso que eu gosto de ver em mim um pouco de filósofo. Mando cá para fora muita trampa e deixo que sejam os outros a preocupar-se em retirar daí significado.





PS - Estou também a ver pelo video que o menear de ancas de forma suspeita pode ter influência na credibilidade do filósofo.

8.1.12

Competitividade no estendal

Assiste-me uma noção estranha de competitividade que me leva a ter algum gozo ao picar-me com a vizinha do prédio ao lado para ver quem estende uma máquina de roupa primeiro.

Assiste-me também um certo desconforto ao pensar que o facto da senhora já ir para lá dos 70 anos se poder estar a despachar à pressa devido ao ar frenético e tresloucado com que levo a tarefa a cabo.

6.1.12

O uso da espargata enquanto valorização masculina



Cada homem tem o seu conjunto de skills para se afirmar nas mais diversas situações. Do galanteio, ao seu lado profissional, passando pela sua vida social, a forma como ele usa a sua combinação de skills determina se é bem sucedido ou não, se se destaca dos demais ou não.

É nesse sentido que eu acho que a espargata feita por homens devia ser muito mais valorizada, especialmente quando um homem com Jean Claude grande, como é o caso do Van Damme, já abriu a porta há muito tempo. É que do outro lado, a espargata feminina, bastante mais comum, sempre foi um sinónimo de inveja ao nível de flexibilidade por parte das mulheres e um estímulo à imaginação na mente de muitos cavalheiros.

Existem ainda poucos homens a fazer a espargata e a serem devidamente apreciados por isso. Fazem falta conversas entre amigas em que perante um “Epá, ele é um bocado preguiçoso” a resposta “Sim, mas faz a espargata como poucos” deixa no ar um suspiro de assentimento e a ideia de que ainda há salvação para o género masculino.
E quando numa entrevista de emprego chegar o momento decisivo, porque não usar a espargata, como prova de flexibilidade, determinação e arrojo, em vez de um qualquer curso no estrangeiro ou bullshit de trazer por casa.

Vivemos numa era onde os valores se confundem e é difícil perceber o que é verdadeiro do que é imitação ou apenas fachada. Na espargata masculina as coisas não funcionam assim, é preciso trabalho e dedicação para lá chegar.

Para ser homem e fazer a espargata não basta ter tomates, é preciso conseguir encostá-los ao chão.

5.1.12

Um dia quero ser velho e passar horas a ver as obras




Para além da sabedoria que vem com a idade (isto se o Alzheimer não chegar primeiro), à medida que vou ficando mais crescido tento pensar nas vantagens que há em ser velho. Como não sou de me contentar com o que o comum dos mortais aspira na velhice, gostaria de ver em mim o gosto por ficar horas a contemplar obras em curso.

Ao longo dos tempos, tenho verificado que os velhos adoram ver obras. Sou capaz até de apostar que, a seguir a darem comida a pombos e fazer testes de imobilidade em paragens de autocarros, essa actividade é das que dá mais luta ao jogo da sueca em bancos de jardim.

É vê-los ali, olhando com ávido interesse para grandes buracos e fundações, o movimento do pessoal das obras, arriscando aqui e ali um gesto de entendido e uma palavra de ordem que pode ou não ter referências a conhecidos ditadores e políticos da nossa praça.

Confesso que já tentei, especialmente depois de me aperceber da chegada dos primeiros cabelos brancos, mas sinto que ainda não o consegui verdadeiramente. O meu máximo foram três minutos a ver uma grua e dois operários que faziam uma espécie de dança a tentar prender-lhe um cabo. E mesmo assim logo senti o olhar reprovador de dois idosos contempladores de obras, que viram em mim um claro intruso longe de perceber a magnitude do interesse do observador rotinado.

Acredito no meu envelhecimento e acho que um dia vou ser capaz. Até porque, quando e se chegado a velho, nessa altura será muito mais fácil ver obras e buracos em Portugal, do que pôr a vista nalguma espécie de reforma.

4.1.12

Vai mas é dar sangue

Se cada vez que me tivessem dito isso na vida eu tivesse levado o conselho à letra, por esta altura já me tinham feito uma estátua em tons de hemoglobina algures pela cidade. No entanto, resolvi começar o ano assim, de seringa nos braços e sangue por todo o lado, sem que tal significasse um tiroteio em Alfornelos ou um casting para o reality show “Achas que te sabes drogar”.

Fui mesmo ao Instituto Português do Sangue (mais precisamente no antigo Júlio de Matos, obviamente adequado), onde para além do sangue em si, ainda me obrigaram a tomar mais pequenos almoços, antes e depois, como se a tal cena do calendário maia tivesse lugar dali a poucos minutos.

E se o sentimento positivo que possa advir de tal acto não chegasse, meus amigos, o questionário de despistagem é do mais lúdico que pode haver. Quase tanto como os oito parceiros sexuais que tive nas últimas duas semanas, o dinheiro que recebi a troco de regabofe hardcore e o festival “Drogas do Mundo” em que participei e os quais não achei que valia a pena mencionar.

Eu sou assim, sempre disposto a dar o melhor que há dentro de mim, mesmo que não saiba muito bem o que isso lá está a fazer.