4.12.12

Pares

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Para aquele tenista português, o fim de carreira estava à vista. Não podia dizer que fosse uma carreira repleta de êxitos mas pelo menos tinha viajado pelo mundo inteiro e conhecido muitas pessoas interessantes, algumas das quais tinham até acedido a subir ao seu quarto sem ser a troco de dinheiro.

Mas agora, aqui estava ele, no terceiro set do qualifying de um torneio secundário nos arredores de Paris, o seu último torneio, anunciado sem pompa nem circunstância no seu perfil das redes sociais, que tinha agora 178 amigos, muitos deles colegas de profissão, poucos com o estatuto de amigos não virtuais. A notícia não fora grande surpresa para os poucos que se tinham dado ao trabalho de saber mais acerca disso, afinal de contas já passava bem dos 30 e o corpo começava a ceder tanto aos esforços do desporto, como aos excessos extra-ténis a que nunca se tinha negado.

Escolhera Paris porque tinha sido aí que 17 anos antes, durante um torneio júnior o tinham considerado a grande promessa do ténis português e o facto de se chamar Sebastião tinha mais tarde contribuído para cerca de cem trocadilhos nos jornais desportivos sobre o facto da sua carreira ter desaparecido no nevoeiro. Tinha também sido aí que mais tarde conhecera Goran Subotic, um croata meio louco, que chegara a estar no top 100 mundial antes de decidir fazer uma pausa de três anos para se lançar como vocalista de uma banda de hippie-metal. Com Goran tinha jogado anos a fio na vertente de pares, tendo como melhor resultado umas meias finais em Bratislava e uma bebedeira épica novamente em Paris, que acabara com ele a mijar para o Sena perante o ar incrédulo de três polícias.

Goran que, tal como ele, nunca se dera ao trabalho de aprender muito mais do que um inglês macarrónico era, simultaneamente, seu parceiro na versão de pares deste derradeiro torneio e seu opositor em singulares e, até ao momento, tinham proporcionado perto de duas horas do pior ténis que o circuito profissional tinha para oferecer. No entanto, ao nível da troca de galhardetes, piadas de circunstância e habilidades falhadas, estava a ser  um jogo em cheio. Estavam no tie-break, Sebastião precisava de concretizar o seu serviço para continuar em jogo e os trinta e oito espectadores presentes rezavam para que aquilo acabasse depressa, incluindo o seu treinador e a sua mãe.

Sebastião pensou como teria sido se alguma vez tivesse pisado o court principal de Roland Garros. O barulho da multidão a puxar pelos jogadores durante os períodos de descanso, o pó de tijolo nas meias, o nome dele no topo do placard, mas tudo isso não passava de uma miragem, de um pensamento que durava os segundos que demora a bater uma bola no chão antes de servir.
Atirou a bola ao ar, o seu corpo a efectuar uma rotação que conhecia de olhos fechados e concentrou toda a sua força num só movimento, a raqueta a disparar a bola a uma velocidade de bala. A bola foi forte, mas a colocação foi pobre e Subotic não teve dificuldade em responder-lhe para os pés, apanhando Sebastião de surpresa e obrigando-o a devolver a bola para a rede, onde bateu no topo, assemelhou-se a uma cena de um filme do Woody Allen por uns segundos e caiu sem qualquer brilho do seu lado.

Quando deu por si, Sebastião estava de joelhos na terra batida e a sua carreira em singulares fazia parte do passado. Goran saltou por cima da rede, estendendo-lhe o braço para o ajudar a levantar. Tinha tantas coisas para dizer, mas naquele momento tudo parecia irrelevante e aquele braço estendido era a única coisa que parecia fazer sentido. Agarrou-o, levantou-se e sacudiu o pó, enquanto se ouviam algumas palmas esbatidas, enquanto o árbitro assinalava o resultado final, com Goran a sair vencendor.

Este, vendo o ar ausente de Sebastião, abraçou-o efusivamente dando-lhe um beijo na testa, levantando-lhe o braço para saudarem juntos o público, enquanto lhe dizia no seu inglês macarrónico, misturado com o português que já aprendera:

“Well, we’ll always have pares”

Sebastião sorriu e pensou que, mesmo que apenas por mais um jogo, contra uma dupla composta por um cipriota e um turco, a história da sua vida como tenista não acabava ali.



Esta pequena alucinação faz parte de uma cunha metida aqui pela PeanutOakPrint, uma simpática loja online de posters de malta portuguesa com jeito para a bonecada. Eu não estimulo a minha criatividade e eles aumentam o tráfego na loja para aí em duas pessoas. Tem tudo para resultar...

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