27.12.12

O Natal já acabou mas ainda não saímos da mesa

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Na minha família há uma tradição que, apesar de poder ter sido inventada neste preciso momento pela minha pessoa, se repete todos os Natais como uma espécie de exorcismo. Quando nos sentamos à mesa com o pretexto de celebrar a época, só nos levantamos quando estiverem feitos todos os ajustes de contas e resolvidos os ligeiros desentendimentos que surgem ao longo do ano entre familiares que, muitas vezes, só têm em comum o facto de serem da mesma família.



As regras são simples: para intervir o membro da família deverá usar um argumento alimentício para iniciar a conversa, podendo depois derivar para o tema que lhe interessa. Poderão apenas intervir os familiares mencionados, devendo para o efeito utilizar também um elemento alimentício na sua resposta. Caso não seja incluído na conversa, poderá apenas esboçar um ar envergonhado ou fazer de conta que não ouviu nada. Poderão existir conversas paralelas, desde que sejam sobre temas diferentes e, caso oiça o seu nome citado numa conversa paralela, o familiar em causa poderá fazer um aparte, desde que o mesmo seja normalmente desprovido de sentido e sirva apenas para criar atrito.



Eis um exemplo simulado, com nomes fictícios, isto porque nunca se sabe e alguns familiares podem efectivamente saber ler:



Tio Justino: Olha, podes passar-me o vinho tinto?

Sobrinha Ermelinda: Tenha cuidado tio, olhe que é verde e pode ser amargo demais para o seu fígado.

Tio Justino: Ora Ermelinda, de certeza que não está tão amargo como a tua mãe, a ver pelos comentários que anda a fazer em relação ao divórcio da tua prima Felisbela.

Mãe da Ermelinda: Oh Linda, já devias saber que para o teu tio nunca há vinho demasiado amargo nem copo demasiado cheio. O vinho está para ele como os homens estão para a tua prima.

Prima Felisbela: Não se preocupe comigo Mãe da Ermelinda, nem com os homens da minha vida e passe-me a língua de vaca por favor, isto se conseguir estar calada durante alguns minutos.

Sobrinha Ermelinda: Deixa estar Felisbela, eu passo-ta, mas se quiseres provar a cabeça de leitão, é só esperar que o teu pai acorde e a tire de cima da mesa dos doces.

Avô Firmino: Eu conheci um tipo chamado Leitão na tropa, um homem a sério, ficou com uma placa de metal na cabeça, mas foi porque teve de ser, coisas da guerra colonial, não é cá esses pricings como os que o meu Neto Norberto tem. Ó Filho Zé Carlos, o que é que andas a ensinar ao miúdo, queres que ele cresça como o teu irmão Justino?

Zé Carlos: Deixe lá estar o mdo Avô Firmino, ele pode ter piercings de metal na orelha e na sobrancelha, mas de certeza que vale menos que o metal que anda a pôr na carteira daquela sua mulher-a-dias brasileira...

Avó Celeste (do lado da mãe, não é a mulher de Firmino, que é viúvo) – Bem, arranjem lá espaço para eu pôr o peru na mesa.

Neto Norberto (irmão de Felisbela, primo de Ermelinda, o que tem pricings de metal na cabeça) – Olha, olha, o peru assim de pernas abertas parece mesma a Ermelinda quando eu a vi lá no miradouro da Sra. da Boavista, dentro do carro do Tozé do Talho.



(Chega o peru, pequeno intervalo para constrangimentos diversos e silêncios incómodos)



Como no Natal ninguém tem horas, a duração destas refeições-debate-lavagens-de-roupa-mais-ou-menos-suja é imprevisível e, tal como nos casinos, se decorrer num ambiente sem luzes naturais poderá estender-se durante vários dias. Tanto que vos escrevo ainda em directo da mesa, de onde posso vir a sair apenas no fim de ano ou, se isto correr bem, quando alguns dos mais velhos tiverem que ir receber suporte clínico. Até já.

6 comentários:

  1. Lol!
    O Mak não intervém?

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    1. Ele pode já aí estar no "anonimato". Ou então isto tudo é produto da sua imaginação, enquanto tem uma refeição de Natal igual à de cerca de 35000 famílias ;)

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    2. O Mak é o avô Firmino!
      Por acaso dava-me jeito uma brasileira para vir arrumar a casa...

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  2. Se a lavagem de roupa é entre família, não acho bem arrastar o perú e o leitão para este bate-boca natalício :D

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  3. O neto Norberto mesmo no Natal não tem papas na língua. Deve comer só peru.

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