8.10.12

O engraxador


No hall de entrada daquela empresa a atirar para o moderna, conforme provava a decoração ponderada e a recepcionista de bom porte,  mas sem cair no registo ostensivo-foleiro, estava um engraxador.

Junto ao engraxador estava a sua caixa, gasta por anos de uso, a condizer com o seu sorriso que não escondia o desconforto que aquele ambiente lhe causava. Não conseguia desfrutar da comodidade das poltronas, com medo que as manchas de graxa que tinha nos braços e nas mangas da camisa coçada os manchassem e tinha também a noção que ar simpático que a recepcionista lhe dispensava tinha mais que ver com cortesia do que com empatia.

Pensou, por segundos, em levantar-se e ir-se embora, mas aguardou, brincando com a lata cilíndrica de graxa que tinha na mão. Finalmente, um tipo jovem, jovem demais para o cargo de director que ostentava, surgiu ao virar da esquina, dirigindo-se a ele com um sorriso aberto.

“Disseram-me que queria falar comigo, senhor...”
“O Senhor está no céu e não precisa de um engraxador. Chamo-me José.”
“Muito bem...José” a simpatia inicial dava lugar a uma certa falta de paciência “Como não tenho muito tempo, pedia-lhe que fosse directo ao assunto.”

O engraxador sorriu, a pressa e a falta de tempo eram sempre coisas que assentavam muito bem a pessoas importantes, “Vou sim senhor, está a ver é que eu venho do sindicato e há aqui coisas que não estão de acordo com a lei...”

“Desculpe, sindicato? Mas de que sindicato se trata e como é que isso se relaciona com o trabalho da nossa empresa? Possivelmente estará a fazer confusão...” O director estava agora na defensiva, tentando perceber o que queria José.

“Bem, não há grande truque, o sindicato é o dos engraxadores e sabemos de boa fonte, gente que trabalha aqui e tudo, que esta empresa tem vários engraxadores e nenhum deles certificados ou habilitados para essas funções...”
“Engraxadores, aqui?” o director baixou a voz, dado que três colegas seus acabavam de cruzar a porta de entrada. José assentiu com a cabeça e fez sinal com o queixo, na direcção de um dos que acabava de entrar, um tipo robusto com uma franja a cair-lhe sobre os olhos.

“Sim, aqui e não são poucos. E lá porque não se vestem como eu, nem engraxam da mesma maneira, não quer dizer que não devessem respeitar quem trabalha a sério. Graxa é graxa, mas há quem precise dela para ganhar a vida e quem a use para tentar subir na vida ou, pelo menos, usá-la nos outros para tapar as suas falhas. E isso, não dá bom nome a um engraxador que se diga engraxador”.

O director mordeu os lábios pensativo, aquilo não eram boas notícias e já se sabia que quando essas coisas se sabem, tendem a formar uma bola de neve. Ponderou e, com um sorriso, pousou a mão no ombro do engraxador.

“José, certamente que podemos analisar a situação de outro ângulo. Um homem da sua valência e com o seu know how de expert pode contribuir para reverter essa situação. Que me diz a uma avença mensal, trabalhando no nosso espaço, para mostrar a possíveis impostores como trabalha um engraxador a sério? Seria uma forma positiva para ambas as partes de dissuadir a graxa não oficial nesta empresa, não lhe parece?”

Foi a vez de José ficar surpreendido, sem saber bem o que dizer. Quando deu por si, já o director o levava pelo braço no corredor, onde funcionários da empresa sorriam à passagem e mostravam gosto em cumprimentá-lo. Houve um até que lhe disse que conhecia o seu trabalho e que era um grande fã, elogio que José recebeu com um sorriso, pois não era fácil descobrir gente atenta.

Talvez pudesse suspender a exigências do sindicato por um dia, enquanto analisava, numa perspectiva interna, o funcionamento daquela empresa. Mal não podia fazer e pelo que via, também não faltavam ali funcionários competentes.

Sem comentários:

Enviar um comentário

Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.