14.10.12

Não deixem o humor fugir



Há em mim o gozo de tentar fazer os outros sorrir. Como em tudo o que se tenta, é certo que falhar faz parte da equação, mas nunca deixei que isso me abalasse. Os únicos cuidados que tenho é não levar a vulgaridade às costas do humor e ter a noção de que tudo tem o seu tempo e espaço, até o humor.

É essa a razão porque no meu trabalho, onde o humor também é um factor a ter em conta, o meu gosto por piadas de ocasião, trocadilhos, situações nonsense e relatos humorísticos só se revela quando há margem para isso e, felizmente, isso acontece com regularidade sem que o profissionalismo ou a qualidade do trabalho sejam postos em causa.

Não tenho qualquer pachorra ou tolerância para quem mistura humor de tom duvidoso e trabalho como forma de abuso de poder, avacalhamento genérico ou jogos de popularidade. É que nestas situações, ao contrário de ambientes informais, muitas vezes nem as audiências nem o artista são escolhidos um pelo outro e a coisa quase sempre dá mau resultado, mesmo que seja disfarçado.

Por outro lado tenho o maior respeito por quem, por exemplo, faz stand up comedy em que a pressão está toda do lado de quem tem uma plateia à frente cuja única exigência é: rir. Nunca fiz (já fui convidado, em registo de one night stand maioritariamente entre amigos, mas até ao momento isso continua em standby) e acho que o sucesso da coisa não passa por saber contar anedotas. As pessoas querem ouvir histórias e situações que recriem a vida real, mas lhe dêem o travo especial que o humor consegue dar.

Basta pensar, entre os vossos amigos, naquela pessoa que tem sempre uma história engraçada para contar, para identificar alguém que tem o gene do contador de histórias.

Cá em Portugal já vi stand up muito bom e também já o vi muito mau. A falha, para mim, está no facto de para além de se ser engraçado, ter que se ser inteligente na forma como se constrói o número, como se retira o sumo da realidade. E o número de gente a escrever humor de qualidade é bastante menor do que o número de pessoas a tentar fazer coisas engraçadas sem ter que se esforçar muito. E nem sempre se safam os melhores, mas felizmente o viveiro tende a ser grande na categoria.

No meio de crises e situações menos positivas, o humor sempre foi a forma de fazer frente e, ainda assim, criar razões para sorrir. O teatro de revista, agora moribundo, serviu ao mais alto nível para fazer a crítica social da ditadura, com escrita inteligente e plena de segundo sentido humorístico. Hoje em dia, não se sabendo renovar, acaba por ser um repositório de anedotas e graçolas superficiais, com um vago contexto político.

Na imprensa escrita, outro género em crise, há já largos anos que é o Inimigo Público um pilar desse tipo de humor, a dar cartas. Inspirou outros formatos, adaptou-se à net e agora, mercê de um critério económico que nem sempre vê com olhos de ver, está na eminência de ser extinto. Para além de leitor assíduo, sempre que pude fui contribuindo com os meus bitaites na secção do leitor, só porque sim e porque a vontade de alucinar vale sempre o esforço extra.

Não sei se será o fim do Inimigo mas a piada, se é que existe, é que o Público se torna no seu próprio inimigo, ao tentar aniquilar uma “marcar” que o ajudava a distinguir-se. É certo que o despedimento colectivo é um aspecto ainda mais grave a pairar por lá, mas quando já nem o humor nos salva, nada de bom se adivinha no que ainda está para vir.

Cabe a cada um tentar encontrar e conservar bem perto tudo aquilo que ainda nos faça sorrir.

2 comentários:

  1. Incrível, acabei agora de escrever um post sobre o humor, antes de ver o teu! :p
    Sim, creio que o humor é essencial em todas as situações, e adaptado às mesmas.

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  2. Acabar com o Inimigo Público, nos dias que correm, é enegrecer mais ainda as leituras de quem tem por hábito folhear o dito jornal. Uma pena..

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