3.10.12

Gasparês passará a ser idioma oficial da bandidagem


Tinha acabado de ouvir as declarações do Vitor Gaspar e, meio perturbado, saí para a rua. Tinha o sentido de orientação de tal forma baralhado e os olhos desfocados por causa de tanto gráfico e Excel que, quando dei por mim, estava numa zona menos recomendável da cidade e não me refiro a São Bento.

Foi então que vi dois tipos a dirigirem-se a mim, ao longe chegaram a parecer-me ministros mas, mais perto confirmei que eram apenas mitras toxicodependentes. Resolvi não recuar para não mostrar medo, o que resultou em pleno, pois estava perfeitamente calmo quando me começaram a assaltar.

“Cidadão empenhado” disse o primeiro, enquanto o segundo me apontava um tablet com gráficos de ar perigoso. “Dada a uniformização das taxas vigentes que, conforme poderá consultar no gráfico Coca1.2, vieram perturbar os mercados de tráfico e gerar a necessidade da criação de suplementário ao nível de estupefacientes, vimos por este meio sobrecarregar o seu sistema de fluxo monetário, de forma a criar o desvio necessário para corrigir essa situação”.

“E isso quer dizer exactamente o quê?” perguntei eu, começando novamente a sentir os olhos desfocados e uma sonolência extrema.

“Peço então a sua atenção para a roldana de queijos flutuantes que pode ver no ecrã do meu associado, representando a flutuação dos juros respeitantes às dívidas a gangs, face ao consumo decrescente de drogas taxadas em regime aberto. Tal exige que aumentemos a sua taxa de esforço, de forma a que possamos reforçar o nosso índice de transacções e continuar a cumprir com o nosso programa de estabilidade de substâncias.”

“Certo mas, sem querer repetitivo, isso quer dizer o quê?” voltei à carga, meio confundido, meio assustado pelos queijos flutuantes.

“PASSA PARA CÁ A P#TA DA GUITA, O TELEMÓVEL E O RELÓGIO, CAGENTE PRECISA DE GUITO PARA A DROGA, CARA#”$O” gritou o que segurava o tablet, de forma bastante compreensível, apesar de ligeiramente austera.

“Cidadão, alerto para a necessidade de anuir com o ponto referido pelo meu associado e que pode verificar na barra de compressão 4.5 no gráfico do tablet” voltou o porta voz à carga “Peço ainda desculpa pelo seu vernáculo, mas está ainda em formação, cometendo erros que passam pela desfaçatez de ser directo e perturbador. Estamos ainda em período de transição para o gasparês, pelo que falhas como estas ainda acontecem”.

Sem perceber o que este bandalho dizia, pelo sim, pelo não comecei a dar-lhes o que pediam. No fim, o primeiro pediu-me que preenchesse uma declaração, dizendo-me com um sorriso amarelo, não pela expressão, mas pela sua parca condição dentária.

“Grato pela sua preferência cidadão, adicionalmente solicito-lhe apenas que, em conformidade com a directiva de insinuação fiscal, me preencha esta declaração, para que lhe possa ser cobrada a taxa de insuficiência contributiva pelas entidades competentes”.

“Epá, mas que merda é essa, já vos dei tudo o que me pediram e ainda me vão cobrar taxas?? Que bandalheira é esta?”. Obviamente, já estava em brasa.

“Compreendo a sua angústia latente cidadão, mas deverá convir que uma nota de cinco euros, um auxiliar de comunicação telefónica que só com muito boa vontade passa por smartphone e um marcador electrónico de tempo que podia ser um brinde numa entrega de rodas alimentares de estilo italiano, ficam longe do que precisamos para responder ao que nos é exigido. Esta é a forma criada para que possa amenizar posteriormente a quebra nos mercados e dinamizar o consumo justo”.

Foi então que acordei e estava ainda a acabar de falar o Gaspar. Ia jurar que me estava a mostrar uma barra de queijos flutuantes quando saí dali a correr.

1 comentário:

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