19.10.12

Filas de amor e ódio



Em termos de queixas, há uma coisa em que a classe humana é quase unânime: estamos fartos de esperar. Do primeiro ao terceiro mundo, não há quem não desespere, seja por estar à espera de chuva ou de vacinas que lhe podem salvar metade da família ou, se entrarmos no campo do que é realmente importante, pelo lançamento do novo iPhone ou que acabe o eterno intervalo da TVI para começar a casa dos degredos.

As primas da espera são obviamente as filas, essa formatação humana que nos leva, tipo peças de dominó a aguardar por algo. A nossa aversão por filas é, por norma, tão elevada que a melhor metáfora que vi sobre o assunto foi numa série em que uma nova gerência no Inferno trocava as chamas e a tortura (pelo que diziam havia demasiada gente a ir lá parar que tirava prazer disso), por um sistema de danação eterna baseado em filas intermináveis, de milhões de almas, em que quando chegavas ao início da fila passavas por uma porta que dava acesso a mais outra fila e por aí em diante. Genialmente tortuoso.

A única excepção, pelo menos parcial, no que toca ao ódio a filas dá-se na restauração e no complexo mundo em que a percepção “está cheio, é bom” sobrepõe-se à lógica. Se três churrasqueiras situadas quase lado a lado estiverem na situação em que uma tem uma fila de 30 pessoas, a outra tem 5 e uma não tem ninguém, eu diria que 80% das pessoas preferem ir buscar o seu frango à que tem 30, mesmo que isso implique esperar à grande. Quem diz churrasqueira, diz o que vos encher o papo com maior deleite.

Acrescento ainda, apesar de ainda não ter obtido licença para este teste que, se as churrasqueiras trocassem os frangos assados entre si e, sem os clientes saberem, a vazia abastecesse os clientes das filas grandes e por aí em diante, os mesmos 80% iriam dizer que a espera tinha valido a pena e que aquele era realmente melhor.

Por vezes, a frequência é sinónimo de maior qualidade mas, se bem me lembro de coisas que aprendi em cadeiras de sociologia e psicologia social, também não é mentira que quanto maior a multidão, mais básicas são as suas reacções a estímulos...e quem diz estímulos, diz frangos assados.

10 comentários:

  1. E quando numa fila se junta alguém conhecido que dá direito a dois dedos de conversa, o que é o prazer de uns de estar na fila torna-se a revolta de outros (lá está a excepção) que para além da demora ainda têm que levar com a conversa dos outros.

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  2. Ainda por cima gente feliz e descontraída em filas, onde é que já se viu...

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  3. hum acho que alguém deixou um agrado ao bom do Mak no seu blog, de tão feliz ter ficado com a descoberta deste seu (posso dizer?) cantinho, e eu acabei por descobri-lo, também...
    obrigada aos dois
    Rosa

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    1. Se fosse esquizofrénico, agradecia pelos dois, como sou apenas parvo, digo só "obrigado eu".

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  4. Desculpe, não percebi... é parvo, por agradecer?!
    Rosa

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    1. Parvo sou apenas por natureza e também por preferência em relação à possibilidade de ser esquizofrénico.

      Por agradecer serei, no limite, educado :)

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  5. Olhe que não parecia nada, com o devido respeito; assim como não me parece nada generoso, nem acessível com o devido respeito também...
    Rosa

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    1. Não me leve demasiado a sério, eu não o faço, principalmente neste espaço. Mas aceito perfeitamente opiniões de todos os quadrantes, inclusive sobre mim.

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  6. Ahahahahahahah! Sei bem do que falas... eu e o marido achamos que os tipos que têm a fila maior põem substâncias iícitas nos frangos, para viciar o pessoal! Só pode! :-DDD

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  7. Depende. Eu por acaso quando vou ao shopping agradeço o pessoal estar todo no McDonals para ir ao KFC em sossego. Mas isso funciona quando quero comer hamburguer vou ao McDonalds em vez do Burguer King :)

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