18.9.12

O dia em que nasceu o pós-futurismo


Boris Vassily Faztapistov era um homem à frente do seu tempo. Infelizmente para ele, era tão à frente do seu tempo, que já estava para lá da curva do razoavelmente futurista, pelo que passava facilmente por doido.
No clube de literatura de Minsk-da-Serra isso causava grande celeuma pois embora os génios com toque de loucos fossem sempre apreciados, louco que talvez pudessem vir a ser considerados génios não tinham tanta saída, tendo esta afirmação sido proferida por Zeca Godunov, um dos poetas revolucionários da época e membro da direcção do clube.
Tanto os mais conservadores, como a ala mais liberal dentro do clube reconheciam a capacidade criativa de Boris, que se tinha começado a revelar enquanto jovem nas crónicas do suplemento de literatura, secção juvenil, do jornal de mais tiragem da região, o Expressovsky da Manhã.

O problema, ou melhor – os problemas de Boris, começaram quando começou a abordar temáticas que mais do que incompreensíveis, algo que até é sempre bem visto entre literatura de vanguarda, falavam sobre coisas que possivelmente nem o próprio Faztapistov sabia do que se tratavam. Segundo ele, eram visões de um futuro não escrito, coisa que era imediatamente desmentida pela ala futurista do clube, que afirmava que o futuro não só já estava escrito, como tinha já três edições programadas para sair no próximo Outono, em manuscritos de Amperonin, Kilowattiev e Joulenko e que se começassem a aceitar qualquer loucura como certa não tarda nada estavam a escrever sobre casas em que um grupo de gente das franjas mais deprimentes da sociedade era fechado com escritores a descreverem tudo o que eles faziam em boletins para depois vender no mercado.

Quando percebeu que através do clube não iria conseguir o apoio que precisava para publicar a grande obra que tinha em mente, resolveu fundar o seu próprio movimento, o pós-futurismo, algo que não foi nada bem visto pelos pós-modernistas da época, que o acusaram de ser um plagiador semântico, nomeadamente Kelvinov, que acrescentou que homens como Boris lhe davam vontade de cuspir no presente e cortar amarras com o futuro, afirmação que ninguém percebeu, mas à qual todos bateram palmas pois com 2,08metros de altura e mãos de lenhador, Kelvinov tinha sempre o respeito de muitos.

Faztapistov não desanimou e, passados três meses, já tinha um grupo de seguidores considerável, com cerca de dois membros. Yulia Vodkova que, como o nome indicava, via o mundo a partir de uma garrafa de pinga local e, como tal, cada vez que olhava para Boris via um urso polar a falar e achava extraordinário que um urso pudesse ter posições tão precisas sobre temas da actualidade, a quem se juntava Oleg Simões, apelido que era basicamente uma corruptela que derivava do facto de ser o único escritor da região “Sem mãos”, depois de um acidente com a roda de um coche e uma aposta sobre metafísica e dor. Obviamente, depois disso a sua única obra publicada foi uma monofolha escrita com a boca, com a obra “Traz-me pão, traz-me leite, não me tragas ovos que estou de caganeira”, alegadamente escrita no Inverno de 1856, como forma de protesto contra a escassez de bens em Minsk-da-Serra, embora os seus detractores afirmassem que aquilo era uma lista de compras.

Quando percebeu que o único conforto que obtinha dos seus seguidores era o facto de não falar sozinho, Boris pensou que tinha de ir mais além e procurar alguém que efectivamente percebesse a intenção da sua obra. Resolveu contactar Júlio Verne, tipo que no circuito era já conhecido por ser um autor prá frentex em termos de temática e abordagem de temas desconhecidos. Verne revelou-se surpreendentemente acessível, embora insistisse em que se tratassem por nomes de código, “Mara” para Júlio e “Cujá” para Boris. Nas suas trocas de correspondência, Verne aconselhou-o a que deixasse de parte baboseiras como viagens ao centro da Terra, abordagens ao planeta Marte e muito menos pensasse em investir o seu tempo numa mixórdia que envolvia lulas gigantes, animais míticos como éguas submarinas e pessoas a viajar debaixo do mar. Era naquele último tema que ele lhe acabava de revelar que se devia concentrar. Nada cativa mais as pessoas do que um retrato da sociedade vista de uma perspectiva diferente, especialmente com mulheres fortes como protagonistas.

Encorajado, Boris lançou-se ao trabalho e foram longos os meses em que em Minsk-da-Serra não se viu nem sombra do escritor, fechado em casa, deixando as listas de compras a cargo de Simões e Yulia a tratar da casa, coisa que ela achou fascinante, pois um urso polar preocupado com tarefas domésticas é algo bonito de ser ver.

Cerca de quinze meses mais tarde Boris apareceu em público com menos vinte e dois quilos, facto que Faztapistov rapidamente clarificou, dando os louros à placa Vibraplatiov, um método inovador que aproveitava os tremores de Yulia quando não bebia, um elástico e uma placa de madeira. No entanto, guardou para mais tarde, no clube de literatura, a apresentação da sua obra concluída.

A comunidade intelectual compareceu em peso, num misto de desconfiança, curiosidade e vontade de mandar umas pedradas no pós-futurismo. O povo também compareceu, porque o Spartak de Minsk-da-Serra jogava fora naquela jornada e não havia muito para fazer, até porque as revoluções estavam de férias.

Com pompa e circunstância, Boris Faztapistov mostrou o manuscrito de 421 páginas e falou um pouco sobre a sua visão, sobre aquilo que um dia seria comum vermos nas ruas, apesar de hoje parecer loucura. O burburinho começou e ele foi obrigado a pedir calma. Boris avisou que não pretendia convencer ninguém a tomar aquilo como um caminho sem alternativa, mas sim a deixarem a sua imaginação voar. E então, sem perder balanço, revelou o título:

“Isso não cabe aí – Mulheres, calças de ganga e rabos revolucionários”

O silêncio imperava na sala. Simões tentou bater palmas, mas sem mãos aquilo não deu grande resultado. Boris tentou explicar que a trama andava à volta de uma época em que as mulheres iriam usar calças mas os seus rabos, imbuídos de espírito revolucionários, muitas vezes se recusariam a investir em semelhante espartilho e haveria uma luta constante entre as mulheres e parte de si, tentando caber num novo paradigma social de ganga.

Algumas hesitações e um ou outro grito de protesto, mas a curiosidade estava no ar. Faztapistov sorriu, o pós-futurismo acabava de plantar a sua semente.

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