26.9.12

Correr à chuva - Lirismo vs. Realidade


Vamos começar por esclarecer uma coisa: eu gosto de correr à chuva, não numa perspectiva de Noé a incentivar-me do alto da sua arca, comigo a correr ao lado, mas de uma forma digamos mais normal.


Só que há uma diferença entre a corrida vista do ângulo de uma marca que te quer vender a coisa como um épico e a realidade. Eis dois descritivos que o comprovam:

A minha corrida vista, por exemplo, pela Nike.



Saíste para correr e os elementos saíram contigo.
A noite começa a cair enquanto a tua vontade de ser livre se ergue.
A chuva cai-te no rosto e tu ris-te para o céu “É isso que tens para mim?”
Dás de beber aos pés em cada poça, porque sabes que eles se cansarão primeiro que a tua determinação.
Não existem distâncias, existem objectivos, existes tu. O trânsito que passa lá ao fundo pertence à realidade dos que se conformam em deixar que sejam os elementos a decidir quando vão chegar a casa.
Tu? Tu decides o teu próprio caminho, pelo meio da chuva, das folhas que caem, da pista e da lama. Se fosse fácil, não seria para ti.
Deslizas pelo meio da tempestade, a trovoada é o teu público e no fim não precisas de aplausos. O som das gotas que caem no chão é suficiente para ti. A chuva é um bom parceiro de corrida.

A minha corrida como ela realmente é.



Sais a correr e se não levares com uma molha agradeces.
Ainda por cima já é quase de noite e tu não tens vontade de cair num buraco.
Caem-te umas pingas na cabeça e depois de te certificares que não é trampa de pombo, olhas para cima e dizes “Não podias ter esperado mais um bocadinho?”
Evitas as poças enquanto podes, quando percebes que já tens pés e meias encharcados, encolhes os ombros e dizes “Que se f”#$a, também não morres por isso”.
Controlas as distâncias, maldizes os objectivos e desconfias do trânsito. Há sempre um palhaço ao volante disposto a encharcar um cromo que corra. O teu conforto é que o otário vai demorar para aí mais uma hora a chegar a casa, na Charneca do Vale da Urtiga e a essa hora já estás a jantar, com a banhoca tomada.
Tu? Vai com calma, olha a calçada toda lixada, mais velhas com chapéu de chuva que vão no meio da pista, com tanto jardim à volta. Se fosse fácil, certamente haviam de arranjar maneira de te lixar.
Tentas ser mais rápido que a borrasca, não consegues, o vento a assobiar nas árvores parece o teu público. “Vão mas é assobiar para o C”#$”#%. Estou a dar o que posso” pensas tu. A chuva é uma cabra, mas é o parceiro que estava disponível.



PS - Para quem goste de fotos trendy de corrida e não só, dentro do lirismo, este senhor é o responsável pela primeira foto e muitas mais - Tim Barber.

1 comentário:

  1. E de repente, vejo espelhadas as duvidas que me assaltaram antes de sair para a corrida programada de ontem. Saí de casa imaginando a corrida de cima (a da determinação) e acabei por levar com a de baixo (a fintar os transeuntes) ainda que com a sorte de não ter apanhado mais que uns salpicos, poucos. Boa prosa.

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