5.9.12

A voz amiga do outro lado do telefone


A vida de Rebeca era feita de rotinas e desabafos ou, mais precisamente, de uma rotina de desabafos. Depois de fazer tudo o que tinha a fazer de manhã antes de sair para o trabalho, o que equivalia a cerca de duas horas de wrestling mental com crianças, malabarismo de refeições, equilibrismo de horários e todo um conjunto de tarefas que faziam os trabalhos de Hércules parecerem folgas, tinha precisamente cerca de oito minutos para si.

Por norma, utilizava-os da melhor maneira possível, tentando apagar do seu rosto o desgaste deste quotidiano, debaixo de uma camada ou duas da Rebeca de outros tempos. Nunca deixava esgotar os oito minutos porque sair de casa um minuto que fosse mais tarde, transformaria o trajecto de carro até ao emprego num inferno onde vivem todos aqueles que desperdiçaram os minutos de avanço que detinham.

Assim, regularmente, depois de entrar no carro, sentar-se e colocar o sistema em alta voz, às 8.37 ligava à sua amiga Paula, que já não via há tanto tempo ao ponto de quase associar a sua cara ao telemóvel que tinha na mão. Tinham sido boas amigas na universidade, mas o casamento de uma e a deslocação profissional da outra tinham cavado um primeiro fosso que, ao início, superavam combinando encontrar-se todos os 15 dias. Os encontros passaram depois a mensais e finalmente a “quando conseguirmos um tempinho”. Rebeca tinha feito força para que Paula aderisse às redes sociais, mas esta recusara sempre firmemente, dizendo que não precisava de uma dimensão virtual para uma vida que já tinha sempre tão sobrecarregada.

Restava o telefonema, pelo menos uma vez por semana, sempre à mesma hora - 8.37, uma espécie de escape para Rebeca na forma de um desabafo com uma amiga que, apesar de também ser rotineiro, tinha um colorido diferente. O que Rebeca não se apercebeu é que naquele dia estava dois minutos atrasada, fruto da pilha fraca do seu relógio e, ao entrar no carro e ligar para Paula ouviu a voz da sua amiga atender ao fim de três toques, mas com uma frase inesperada “Olá Margarida, estava mesmo a pensar em ti. Como vão as coisas?”.

O facto da amiga lhe ter trocado o nome era uma surpresa, mas reagiu normalmente dizendo em tom sorridente “Oi Paula, sou eu a Rebeca, estavas a confundir-me era?”. O que ouviu a seguir foi igualmente surpreendente. “Bemmm, conta-me tudo amiga.”. Confusa, ficou sem reacção enquanto tentava perceber o que estava a acontecer, ouvindo a espaços do outro lado “Humm, Humm”, “Ah” e um ou outro “A sério?”. Deixou a chamada correr, enquanto conduzia e ao fim dos nove/dez minutos que duravam as conversas, ouviu a voz de Paula dizer “Olha amiga, vou ter que ir que já tenho aqui gente a chatear. Depois falamos, liga-me à hora do costume. Beijo grande”.

Pensou que talvez pudesse ser um episódio errado, tivesse ligado para outra Paula, mas a raiva começava a apoderar-se dela, ao perceber que a amiga em que confiava cegamente todos os seus desabafos e angústias afinal podia não ser o que parecia. Por descargo de consciência, já depois de ter estacionado o carro, ligou três vezes, em intervalos de 2 minutos. “Sandra”, “Catarina” e “Luísa” foram os nomes que ouviu, mantendo-se o resto da conversa igual. A partir das 10 da manhã o número ficava inactivo e, conforme testou ao longo do dia, só a partir das seis da tarde é que ficava activo, até perto das sete, sempre com nomes diferentes e a voz da sua amiga Paula.

Seria possível que possível que tantas mulheres pudessem ligar para a mesma amiga para desabafar? Rebeca não percebia como, mas tentou lembrar-se do último desabafo de Paula ao telefone, sem sucesso. O que se lembrava era do seu rosário de queixas, as desilusões e uma outra nota mais festiva que dificilmente cobria o cansaço da rotina. Na verdade, não se lembrava de nada que Paula tivesse dito para além do conforto da sua voz. E agora percebia que, por meio de um qualquer serviço, programa informático ou bruxaria futurista, a amiga se transformara num poço telefónico que acolhia dezenas de chamadas diárias, todas com desabafos possivelmente ao nível dos seus.

Chorou, primeiro por se sentir abandonada, depois de raiva e, por instantes, sentiu-se tentada a largar tudo e ir confrontar Paula com o que esta lhe fizera. Lembrou-se então que, na realidade, não sabia onde morava Paula, desde que ela saíra da cidade e que os seus últimos encontros tinham sido em cafés ou centros comerciais. Tomou uma decisão, a única possível, se ela lhe tinha feito aquilo, iria apagar Paula da sua vida. O que equivalia a apagar um número do seu telefone, coisa que fez com um certo receio.

A sua vida ia deixar de dar espaço aos desabafos.

Três semanas depois, ao entrar no carro a caminho do emprego, por volta das 8.37 da manhã, Rebeca olhou para o telemóvel, onde já não tinha gravado o número de Paula. Fazia-lhe tanta falta alguém de confiança com quem pudesse desabafar o que lhe tinha acontecido nas últimas semanas. Suspirou e marcou um número que sabia de cor. Ao fim de três toques, uma voz conhecida atendeu ““Olá Rebeca, estava mesmo a pensar em ti. Como vão as coisas?”.

E, com o conforto daquela voz amiga do outro lado, Rebeca arrancou rumo ao emprego, desabafando para o vazio.

8 comentários:

  1. falta-nos uma amiga "paula" para desabafar.

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    1. Ja tivemos a "Amiga Olga", que mais podemos exigir...

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  2. Comodismo puro. As pessoas criam hábitos para preencher o vazio que há nelas e que quando eles desaparecem quase nem se reconhecem, não sabem viver de outra forma. Esta é a história de muita gente, acredito.

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    1. Recomendo, num aspecto mais generalista, a TED Talk de uma senhora que fala um bocadinho disto cujo título é algo como "Connected, but alone?"

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    2. Eu referia-me ao facto de ter essa rotina todos os dias e à mesma hora. O comodismo que nos baralha quando a rotina deixa de existir. De resto concordo 100% com a Sra. Sherry Turkle.

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  3. Assim de repente, tu és a nossa amiga Paula... Ou então não, nós é que somos a tua.

    De qualquer forma os textos estão excelentes!

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