26.9.12

A situação do país discutida em Reunião Geral de Estátuas em Lisboa

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A maior parte das estátuas de Lisboa reuniu-se de emergência. A crise também as afecta e quando as coisas não correm bem não serve de nada ficar parado a olhar, mesmo quando se é estátua. O Marquês de Pombal foi o primeiro a usar da palavra:

“Amigos e estátuas de Lisboa, vejam o estado a que chegámos e não me refiro apenas à trampa que os pombos nos deixam em cima. Já não me bastava ter os mancos todos da bola aqui às voltas sempre que há qualquer coisa para festejar, como agora ainda me trocam as rotundas. Fico enjoado só de olhar...”

O Duque de Saldanha, sempre disposto a apontar o dedo, interviu de imediato: “É verdade, estamos a perder relevância e ninguém luta pelos nossos direitos. Ainda outro dia se fez uma grande manifestação e nem tiveram a decência de começar a meu lado. Foram pela opção low cost do José Fontana, que lá porque tem um coreto pensa que nos pode lixar a vida. Isto para não falar da Praça de Espanha que, com aquele arco, não lembra a ninguém como ponto de destino quando o tema central é a situação de Portugal”.

Foi então que Camões se riu “Epá, que pategos. Queixas e mais queixas e nem sequer sabem do que estão a falar. Sofrimento a sério é ter carradas de freaks a emborcar litrosas aqui à volta todos os dias, cortejos de bêbados e gente estranha e tudo quanto o Bairro Alto me despeja em cima. Ali o Chiado ainda tem o Pessoa para conversar, às vezes entretêm-se com os freaks e os anarcas, mas eu aqui sozinho é ver a nossa língua a ser assassinada aos poucos, em cada sms a combinar no Kamões e em cada conversa que tem lugar a meus pés”.
“Tu vai mas é chatear-te a ti próprio” gritou D.José que, como de costume, estava voltado de costas para o local do debate “Tu ainda vês boa parte do que se passa à tua volta, já eu estou destinado a ficar a ver cacilheiros a desembarcarem e as fotos da tanga que se tiram no Cais das Colunas. Enquanto isso, nas minhas costas, uma porrada de homens estátua na Rua Augusta fazem de tudo para me tirar o protagonismo, roubar-me rendimentos e desviar as atenções dos turistas. Até o meu cavalo já me disse que isto assim não funciona, mais nos vale ir para o Barreiro...”

D.João I e D.Pedro IV saltaram do pedestal em conjunto e também se fizeram ouvir “Bo ka sabe fala, bo ka ta entendè criolù...” olharam um para o outro e concordaram que seria D.Pedro IV a falar. “Já viram? Nós, altos representantes da história de Portugal até crioulo já falamos naturalmente. No sítio onde estamos, são mais os estrangeiros que vivem à nossa volta e que nos dão atenção e o resto é mato. Às vezes pede-se a um conterrâneo para trazer uma merenda ou uma sandes de paio ali da Suíça e é vê-los a ignorar-nos, como se uma estátua não pudesse ter fome...”.

Foram interrompidos por uma algazarra que vinha do fundo da sala, onde o grupo do Padrão dos Descobrimentos bebia animadamente uns copos, formando uma rodinha em volta de Filipa de Lencastre. Chamado à atenção por Álvares Cabral, sempre a meio caminho entre rato e estrela, o Infante D.Henrique justificou-se “Desculpem amigos, nós não saímos muito e já sabem como é, cinquenta gajos e só uma mulher dá sempre confusão, ainda por cima estamos a pensar ir ao BBC e isto tem que ficar definido agora porque a Filipa, Pipinha como lhe chamamos, depois bebe e aí já está o caldo entornado”.

Sempre sorumbático, Alexandre Herculano ignorou o Navegador, que também não levou a mal, voltando ao fundo da sala a dançar estilo can-can com as suas vestes largas. Pigarreou e começou “Creio que em nome de todas as estátuas da Avenida da Liberdade posso dizer que...”

De repente, ouviram-se palmas na sala e todos se voltaram surpresos. Era o Cristo-Rei e a maior surpresa do que vê-lo ali era notar que era capaz de abrir e fechar os braços. “Quem é que o convidou?” perguntaram baixinho os Heróis da Guerra Peninsular, ao que o Ardina respondeu “Sabem como é o pessoal da margem sul...basta haver festa e que se lixe o convite...”

Com um olhar o Cristo-Rei transformou o ardina numa estátua de Botero, o que teve o efeito de calar o resto da sala.

“Meus amigos, não preciso de convite porque a omnipresença em termos de eventos de estátuas é um dom que me assiste. Vocês apontam o dedo ao que está mal e não vos vejo a fazer nada para melhorar o vosso futuro. Olhem para os franceses, acabo de saber que o Zidane a dar uma marrada no Materazzi já é estátua mesmo no centro de Paris. Há uma nova geração de estátuas a nascer e isso podia ser um caminho, sangue novo capaz de intimidar pombos e pôr turistas e locais a pensar duas vezes antes de ignorarem ou desrespeitarem o vosso potencial...”

“Pois...isso é tudo muito bonito, mas as estátuas novas que vão surgindo em Lisboa nem se percebe bem do que são”. Toda a gente ficou surpreendida novamente quando ouviram desta vez a estátua do Eusébio a falar e a fazê-lo de forma articulada e concisa, coisa que o seu homónimo de carne e osso raramente conseguia fazer. “Eu tentei falar com aquela da rotunda do Beato ao pé da Expo e nem percebi se era carne ou se era peixe...”.
Afonso de Albuquerque, adepto do Belém por localização, soltou entredentes “Se calhar era marisco tipo tremoço...”.

Cristo-Rei voltou à carga “Eu sei disso meus amigos e já estou a trabalhar noutra solução, tendo já um pré-acordo com um canal privado. Um reality show com estátuas, mas uma coisa mexida, com algum picante. Com o tempo que vocês têm, a maior parte de vós já tem podres que cheguem o que, a somar aos que tiveram em vida, é uma mina. É juntar uma República, que nunca se coíbe de andar com a prateleira à mostra, mais umas ninfas secundária e as estátuas de Lisboa vão voltar a ter as audiências e a atenção que merecem. Que me dizem hã? É claro que aqui o Rei vai ter a sua comissão, mas é tudo decorrente de ratings, não há cá taxas sociais nem coisas dessas...”.

Olhou em volta e viu que a sala se esvaziara num instante. O que Cristo-Rei não percebera é que entre um futuro negro com merda de pombo e um futuro nas revistas cor-de-rosa com um reality show, a escolha para as estátuas era fácil – Mais vale continuar apenas a fazer figura do que investir numa carreira a fazer figura de parvo.

6 comentários:

  1. Mak, meu caro, eu raramente desgosto de um texto seu mas este está vencedor de um óscar.

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  2. Ahahaha tu és brilhante pá, já te disseram isso? :p
    Parto-me a rir.
    Aqui pelo norte era o Gonçalves Zarco, que pegava já ali num barco perto do castelo do queijo e pirava-se!

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  3. Simplesmente genial.
    Quando for grande quero escrever assim.

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  4. Vocês são extremamente amáveis, mas que a vossa estima e o vosso carinho não deixe cair no esquecimento as estátuas, essas sim o ponto de verdadeiro interesse ;)

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  5. Genial em tantos níveis que nem me engasguei com a piada da margem sul!
    Gostava de saber o que porias tu na boca de uma estátua vermelha, sita na referida margem, que representa um pescador a remar num prato gigante com uma igualmente gigante espinha de peixe. A mim deixa-me sem fala.

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    1. Já a vi!
      É daquelas que me ultrapassa totalmente...

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