6.8.12

Os meus encontros com a polícia


Era eu ainda um jovem adolescente quando tive o primeiro encontro com a polícia. Eu ia do lado de fora de um eléctrico, ele estava junto ao Palácio de Belém. Eu apeei-me, ele chamou-me e foi intimidação à primeira vista.
Não sabes pagar bilhete?
Sei, mas foi só uma paragem, esqueci-me da carteira em casa.
Tens o teu BI contigo?
Não, ficou a fazer companhia à carteira.
Que engraçadinho vê lá se não queres que te tire o brinco à chapada.
Deixe estar, não é preciso.
És de onde?
Da Ajuda...
Ainda por cima...Vem lá comigo...

Não teve tempo de acabar a frase porque eu desatei a correr Calçada da Ajuda acima, a um ritmo capaz de fazer inveja ao Usain Bolt. Sem olhar para trás, passando pelos tanques, pelo centro de recruta e, não fosse estar a ser seguido, toca de meter pela rua da antiga praça e a subir escadas para despistar. Nas semanas seguintes reinava o terror psicológico cada vez que via um agente da autoridade.

Sábado à noite foi a estreia, mas desta vez ao volante de um carro. Quis o destino que até hoje, como condutor, nunca tivesse sido parado pela polícia. Mas, onde há festival, álcool e tentações à solta, tudo se apresta para um convívio de madrugada.

Era vê-lo roliço, com o seu foco luminoso a mandar-me encostar, dois bandalhos num carro, ambos de capuz, olheiras e barba por fazer. Saco logo dos meus documentos e sou saudado por um “Boa noite xôr condutor”. Estico os cartões e à pergunta “São os seus?” resisto a dizer “Não, são os do Tim dos Xutos”, ficando-me por um mini bem disposto “Espero que sim”.
“O xôr importa-se de tirar o capuz?”, concordo mostrando o meu melhor sorriso das 3 e picos da manhã. “O xôr esteve envolvido no consumo de bebidas alcoólicas esta noite?”, resisto uma vez mais ao “Envolvido não, mas quase que estive embebido”, saindo com um “Deixe cá fazer as contas...não”.

Fez-me sinal para ir com ele e pensei que íamos brindar à minha sobriedade com um shot. Parece que afinal não, era para soprar no balão. “O xôr já fez isto?”, “Não, nunca. Mas não precisa de ir buscar as instruções”. Sou recebido com algo entre uma rosnadela e um sorriso. Sopra-se a coisa, 0.0, nunca uma nota tão baixa foi recebida com tanto orgulho.

Recolhem-se alguns dados estatísticos e “Boa noite, pode seguir”, ao que respondo “Boa noite e bom trabalho para os xôres”. Começo a ficar alarmado quando o carro arranca, qualquer dia o palhaço que há em mim vai arranjar problemas com a polícia.

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