1.8.12

O mistério do solário


Não muito longe de onde diariamente tenho muito trabalho a fingir que estou a trabalhar existe um solário. (Nota: se eu fosse um indivíduo vagamente culto, podia agora meter umas buchas sobre o Tarkovski, o Stanislaw Lem e enxovalhar o Clooney e o Soderbergh, mas mais vale desiludir-vos de imediato e não ir por aí).

Quando era pequeno tinha muita curiosidade sobre solários, mas na mesma proporção em que me fascinavam campanários ou até mesmo dromedários. Mais tarde tomei umas vitaminas e passou-me a fixação com quase tudo o que acabava em “ário”. Com honrosa excepção dos solários.

Para mim, que tive a sorte de nascer num país em que falta muita coisa, mas raramente falta Sol (por muito que gostemos de queixar do tempo), um solário é uma espécie de churrasqueira mas para pessoas. E por muito bons que sejam os frangos assados, creio que poucos serão os frangos que lá se dirigem voluntariamente.
Embora os solários tenham uma clara vantagem em relação às churrasqueiras, que se baseia no facto de podermos sair de lá tostados sem nos enfiarem um ferro pelo traseiro acima, a sua razão de ser parece-me sempre vaga, para não dizer inexistente.

Sei bem que vivemos em tempos em que a nossa parecença com um torresmo pode contribuir para a valorização social, mas pagar para isso não sei se não é esticar um bocado o conceito. Se a necessidade é profissional (e não vou referir a que ramo parece pertencer boa parte da fauna que passa no solário que referi), eu até posso tolerar a ideia, mas o pior é que o resultado me parece muitas vezes desajustado da realidade.
Vejo sedutoras senhoras cor de laranja, garbosos cavalheiros que oscilam entre o carbonizado light e o amarelo pastel de nata e vejo que por alguma coisa o bronzeado natural se chama natural.

Volto a imaginar o cenário da churrasqueira e vejo um frango incauto, branquinho, jovial a olhar para a montra e a pensar “Uau, parecem magníficos, aquela pele tostada, aquele ar apetitoso...Eu também quero ser assim”. Perdeu a cabeça, mesmo antes de ter posto um pé para além da porta. Entra, explicam-lhe os procedimentos, sente-se pouco confiante em relação à história do ferro que lhe vão espetar, mas apontam-lhe as fotos e ele finalmente concede.

Meia hora depois, é um frango magnífico, tostado, tresandando bom aspecto. Uma hora e meia mais tarde é apenas a memória de uma refeição simpática do desenrasca da família Rocha da Brandoa.

4 comentários:

  1. :) tu vê lá no que te metes... ainda ficas laranja. (pppsssttt: eu ando aqui no trabalho a tentar fingir-me de morta, tipo cachorra...não contes a ninguém)

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    1. Isso. Põe a língua de fora e opta por maquilhagem arroxeada e creio que te safarás na perfeição.

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  2. Essa imagem das pessoas que vão a um solário poderem ser empalados, é maravilhosa. Não me vou esquecer tão cedo, Mak

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  3. Lolol parti-me mesmo a rir com este post. Sensacional :)

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