27.8.12

O mega bolo de texto de aniversário


Levantei-me com a certeza de que era o meu dia de aniversário. Pode parecer estranho, mas quando nos levantamos todos os dias com esta certeza, eventualmente acabamos por acertar no dia ou, na pior das hipóteses, estamos bastante bem conservados para quem certamente já tem mais de 10 mil anos.

No entanto, mais do que um abraço ou um beijo grande de parabéns, o que me apetecia mesmo para começar o dia era um pequeno almoço do camandro, uma experiência troglodita de enfardamento de comida que tornasse o início do meu aniversário numa coisa memorável.
O problema foi que, na minha busca o critério encravou entre a originalidade e a abundância, acabando por ir procurar esse pequeno almoço nos sítios mais errados. Mal entrei na casa de banho para me arranjar, ouvi logo o piaçaba “Então rabicholas, estamos a ficar finos? Já não podes tomar ir o pequeno almoço connosco, é isso?” e confesso que fiquei surpreendido. Não porque seja difícil para mim entabular conversas com objectos inanimados que tenho em casa, mas sim por não me recordar de alguma vez ter ido tomar o pequeno almoço com o piaçaba.
Ainda estava a pensar no que ia responder, quando ouvi outra voz “Esquece isso Çabas, já viste o que ele me fez? Ainda esperas alguma dignidade deste gajo? Tens sorte ele não te fazer desaparecer, como me fez a mim...”

Olhando, em redor, tentei perceber de onde vinha a voz e estava quase inclinado a ligar para a Maya para ela me deitar umas cartas e descobrir, quando o Piaçaba, por mais irónica que pareça a frase, voltou à carga “Escusas de andar à procura, que o pobre bidé já não está cá. Mas até um bidé tem alma sabes e quando decidiste que na tua casa de banho não havia espaço para ele, ficou para sempre condenado ao limbo da loiça sanitária”.

Baixei a cabeça e dei um abraço ao Piaçaba, com cuidado para não o tirar do seu suporte. Depois, rapidamente, embrulhei-o numa toalha de mão, atirei-o para dentro do armário e corri dali para fora. Para mim, há um limite neste tipo de situações e limbo da loiça  sanitária é coisa com que não estou habituado a lidar.

Liguei a um amigo hipster, para lhe pedir conselho, esquecendo-me que ele está numa fase em que considera o pequeno almoço demasiado mainstream. Chamou-me logo a atenção para o facto de, neste momento, ter uma política não-me-toques em relação a alimentos que lhe possam estragar a harmonia da barba. Recomendou-me então para o pequeno almoço um clister de ervas enriquecido com minerais e ficou ligeiramente melindrado quando lhe disse que o clister é demasiado in para o meu lado hipster. Deu-me então uma morada, de uma amiga sua que, segundo ele, fazia coisas incríveis com a Bimby, até filmes do Hal Hartley já tinha feito com tal aparelho, não teria qualquer dificuldade em fazer-me um pequeno almoço épico. O problema é que a chamada caiu antes dele me dar a morada completa e ele é demasiado alternativo para atender duas chamadas seguidas da mesma pessoa.

Resolvi arriscar, pensando que não deveria ser difícil escolher entre os segundos andares disponíveis, já que sabia tudo menos isso. Cheguei lá e tive a sorte de serem apenas 8 fracções no segundo andar. Comecei logo a suar, primeiro porque saí com uma samarra em Agosto e em segundo porque tenho o grave defeito de falar de forma estranha em conversações por intercomunicador. Arrisquei no “C” porque tinha cocó de pombo no “D” e achei que isso era um bom indicador. Atendeu uma voz feminina “Sim...” e a seguir ou disse “se faz favor” ou “fôdasseee”, fiquei na dúvida. Senti a língua presa quando disse “Por quem sois, as vicissitudes da vida trouxeram-me até aqui e...”, mas aí não tive dúvidas, foi mesmo um “fôdasseee” que ouvi antes da porta abrir.

Conforme subia as escadas, tentei lembrar-me do nome dela e não percebi porque é que o meu amigo me tinha dito Michela, a tipa não me parecia francesa nem coisa parecida. Estando em frente ao “C”, reparei no tapete de entrada, que tinha representado dois cãezinhos, em que um estava às cavalitas do outro e, pelo seu ar sorridente, a vista devia ser boa.
Abriu-me a porta uma tipa com esófago deslumbrante, pelo menos do que consegui ver entre mascadelas de pastilha. Com uma bata extremamente vintage e formas esculturais (se o escultor fosse cego), encostou-se à ombreira e sussurrou “Então car@lh0, queque foi?” e eu só consegui responder “Pois foi o meu amigo, disse que eras Michela e me fazias uma Bimby para eu comer, um pequeno almoço diferente, uma cena épica”. A resposta apanhou-me desprevenido.

“Fôdasssseeee, esta merda não é hotel, aqui a única coisa que se come sou eu e não há cartões, nem cheques, é dinheirinho vivo, camarada. Ainda por cima querias um especial, olha que fazer um Bimby sai caro...e Michela era a tua mãezinha...”

De repente, viver para sempre no limbo da loiça sanitária não me pareceu uma má alternativa. Corri dali para fora.

Já passava do meio dia e ainda não tinha comido nada o que, dada a oferta, não era de todo negativo. Ouvi o meu estômago a roncar e, para o acalmar, lembrei-me de um conhecido provérbio empresarial mongol: “O tempo accurate tudo e o tempo até o presunto cura”. Pelo menos foi o que dizia a tradução do Google e se há coisa em que podemos confiar é nas ferramentas de tradução online.

6 comentários:

  1. Fiquei com fome. Onde estão as sobras do bolo?

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    1. Já é uma sorte ter sobrado eu, quanto mais bolo...

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  2. Magnífico, com ou sem pequeno almoço fartei-me de rir.

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  3. Totalmente alucinado e inverosímel. Toda gente sabe que os piaçabas não falam... Português.

    Muito bom, mesmo!

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  4. Gostei deste bolo... e ainda por cima sem calorias! Quero outra fatia.

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