16.8.12

O estranho mundo do vinil


Antunes, apesar de aborrecido com o facto de eu ter decidido chamar-lhe esse nome tão pouco inspirador, cumpriu o seu papel na perfeição.
Segurou no disco de vinil com dedicada atenção e pensou em tudo o que lhe tinham dito. Os grandes clássicos da música tinham inicialmente sido gravados assim e ainda que aquele guitarrista que sorria naquela rodelinha no centro do disco não fosse propriamente “um grande clássico”, tinham também sido imortalizado daquela forma.

Aproximando o vinil da cara, espreitou através do buraquinho. Não se via grande coisa, mas o vinil não tinha a culpa do estado em que estava a sua casa. A culpa, nessa matéria, era do Governo. A verdade é que nunca tinha visto um vinil até hoje, lembrando-se apenas de histórias que o seu avô contava e o seu avô não era de fiar, já que também era ele que lhe dizia que Portugal já tinha dominado em tempos os Jogos sem Fronteiras.

Foi buscar uma agulha fininha de croché, um dos seus passatempos favoritos e tentou lembrar-se do que dizia o avô. “Meu pequeno Antunes, os vinis começam a girar e ouvia-se música de grande qualidade”. Passou a agulha pelo buraquinho, segurou-a com uma mão e encostou a outra no rebordo do disco de vinil. Fechou os olhos e fez rodar o disco com força.

Nada.
Nem um acorde de guitarra, nem sequer uma coisa que se assemelhasse vagamente à sensação que tivera quando encostara um búzio ao ouvido e lhe parecera algo que tanto podia ser o mar, como a faixa de rodagem da ABC25.

O sacana do velho, sempre a gozar com ele. Discos de vinil a dar música...era mesmo coisa daquela cabeça, só faltava ouvi-lo outra vez a dizer que havia gente que metia cartas no correio para falar com outras pessoas. Yeah right, SMS e mails, duhhh.

1 comentário:

  1. Eheheh, realmente. Sem amplificador o que é que queria?

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