12.8.12

Deixar ir


O passado nem sempre fica no passado. De quando em vez, faz-nos algumas visitas ao presente e somos obrigados a decidir se lhe abrimos a porta ou se lhe acenamos de longe e o deixamos seguir o seu caminho.

Depois de uma acesa dúvida sobre o estado da ameixa portuguesa, estava eu ao fim da tarde numa caixa de um conhecido supermercado que soa quase a Bingo Tosse. Minutos antes tinha-me cruzado com uma jovem que me tinha parecido familiar, mas a qual só observei de relance, primeiro por ter pressa, segundo por achar que olhar demasiado tempo para uma mulher e segurar duas bananas na mão não é o melhor cartão de visita.

Estava então eu na caixa, quando na caixa ao lado oiço, “Olá Nome do BI que aqui pode ser Mak. Bem me pareceu que eras tu”. Volto a olhar, certificando-me desta vez que as bananas estão no tapete rolante, e de repente faz-se luz. Tratava-se de I., que eu já conhecia desde os tempos da faculdade e com a qual sempre me tinha dado bem. No entanto, como em tantos outros casos, o fim da faculdade tinha ditado o fim quase por inteiro do convívio mútuo.

Trocam-se os cumprimentos, os “como estás”, o “o que tens feito?”, “agora vives aqui?”, tudo isto ao som de artigos a passar na caixa do Limbo Posse. No entanto, há ali um muro ou um fosso de distanciamento que eu, em muitas situações semelhantes, não sinto necessidade de superar. Não se trata de medo que soe a pseudo-engate nostálgico, saudosismo puro ou coisa no género. Simplesmente acredito que os caminhos que vão divergindo sem que nenhuma das partes faça algo para o inverter, é porque a ligação nunca foi tão forte que o merecesse. Como é óbvio, posso estar errado, aliás, já errei neste raciocínio, mas a média tende a meu favor.

Por isso, dois minutos mais tarde, com todo o gosto que pude tirar deste reencontro,  cada um seguiu o seu caminho, sem trocas de telemóvel ou promessas de “eu depois ligo-te e pomos a conversa em dia”. Se isso tiver de acontecer, por obra do acaso, será sem dúvida tempo bem passado, se não acontecer, foi apenas uma chamada de atenção do passado e para lá voltará, devidamente arrumadinha.

2 comentários:

  1. Também concordo...se os caminhos se separam, é porque a ligação que nos unia não era assim tão forte.

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  2. Verdade. Tentar prolongar coisas que nenhum dos dois fez questão de manter sequer, é capaz de não fazer grande sentido. Eu também sou mais desse tipo. Aliás, sou até das que se ao tentar arduamente manter algo no tempo não recebe nenhum tipo de reciprocidade de esforço, deixa ir.

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