8.8.12

Crime e Conselho


 Plínio olhou para cima, na esperança de ver o céu, mas cedo se apercebeu que a sua vista não ia para além das paredes do tribunal. Olhou então para o que de mais belo havia dentro da sala e o mundo pareceu parar por alguns segundos. O rosto dela, distinto e singular, iluminava uma sala que era o seu contraste absoluto, vulgar, escura e igual a tantas outras em que já estivera.

Embora lhe conhecesse as feições de cor, voltou a olhar, na esperança de que os seus olhares se cruzassem. Tal como prometera, nem uma única vez ela desviou o olhar do juiz que se preparava para ler a sentença. Seria demasiado doloroso, dissera-lhe, ele no banco dos réus e ela, a verdadeira culpada, a castigá-lo com olhares que pediam perdão.

Plínio não se teria importado, teria até servido para atenuar a pena que lhe iria ser ditada e que, de qualquer forma, não estava interessado em ouvir. Já tinha ouvido tanta coisa sobre o seu próprio caso, da boca de tanta gente, que a conclusão era algo que já não lhe interessava.

Tinham passado já quinze anos sobre a última sentença de prisão perpétua por conselhos sobre vida alheia. A Lei Muro, como era chamada, ditara que só familiares directos em primeiro grau de parentesco ou em segundo, com autorização especial, podiam aconselhar outra pessoa sobre assuntos pessoais ou de índole emocional.

Plínio sabia isso tudo e sabia-o também quando ela lhe perguntara o que devia fazer. Aquele silêncio que houvera até à sua resposta não tivera que ver com a dúvida sobre responder ou não e dar aquilo que seria obviamente um conselho de nível vermelho, com direito à pena máxima.

Precisara apenas de tempo para pensar na forma como a sua sinceridade influenciaria a felicidade dela. E então, mentira, para que tudo fosse como devia ser. Agora, sentado no banco dos réus, prestes a ver ditado o seu destino, sabia que tinha tomado a decisão certa.

O tempo iria apagar os traços mais visíveis do que em tempos tinha sido um conselho e da janela da sua cela, ao olhar para o céu, saberia que lá ao longe alguém seria mais feliz assim.

2 comentários:

  1. Este texto faz-me lembrar "Um conto de duas cidades" do velho Dickens.
    Por causa dos dois últimos parágrafos.
    Isto é um exemplo de como a tua vida seria narrada por uma voz imparcial?
    Joana

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Nunca poderia escrever como meu próprio narrador, conheço-me demasiado bem para ser imparcial ;)
      Diria que é mais a exploração de coisas que às vezes me chegam aos ouvidos e com as quais gosto de "brincar" um pouco.

      Eliminar

Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.