31.8.12

Conclusão

(infelizmente para vocês, é do post, não do blog)


Era agora.


Respirou fundo, fechou os olhos e olhou para baixo, onde a mão ainda estava sobre o interruptor. Foi então que, para surpresa sua, reparou que inconscientemente a sua mão já tinha deslizado sobre o interruptor e este já estava para baixo, em vez de para cima, como sempre tinha estado desde que era gente.

Não sentia nada, estava evidentemente vivo e foi a correr até ao espelho que tinha na porta do armário. Estava normal, não notava nada em si e todas as partes do corpo pareciam intactas. Correu, saltou, gritou, cheirou e comeu até um rebuçado para ver se tudo estava na mesma com o paladar. Nada mudara.

Aliviado mas ainda assim desconfiado voltou a sentar-se na cama. Se aquilo não servia para nada, porque raio tinha nascido assim? Será que só ia notar quando voltasse a mover o interruptor? Talvez fosse melhor tirar a dúvida.
Assim que carregou no interruptor pensou no que a sua brincadeira podia ter custado aos pais, que tudo haviam feito para crescesse sem o estigma de ser diferente. Vieram-lhe suores frios e o arrependimento por estar a brincar com uma vida que, embora sua, estava longe de estar desligada dos que o amavam. Sentiu-se pior do que alguma vez tinha sentido na vida, embora agora tivesse a noção que, até ver, o interruptor não tinha qualquer implicação mortal.

Entristecido decidiu que nunca mais voltaria a fazer aquilo. Decisão curta, pois minutos depois a sua curiosidade levava-o de novo a pensar em fazê-lo só mais uma vez “para ter a certeza”. Desta vez atento ao mínimo pormenor, Benjamim carregou muito devagarinho no botão, pensando mais no que aconteceria se a sua mãe soubesse que tinha quebrado a promessa do que naquilo que poderia acontecer.
Uma vez mais nada aconteceu.
Mas foi um nada diferente, já que se apercebeu que deixara de pensar nos outros ou nas consequências assim que o interruptor virara. O fim da ansiedade, dos suores, da tortura gratuita, já que ninguém sabia o que acabara de fazer, tirando ele. E isso fazia-o sentir bem, fazia-o sentir que nada mais no mundo importava a não ser ele e que isso se sobrepunha ao resto.

Não tendo ainda a noção do que esta descoberta implicava, Benjamim acabara de se tornar a primeira pessoa no mundo que efectivamente tinha a capacidade de ligar e desligar a sua própria consciência. Tudo agora na sua vida dependeria de ter ou não o bom senso. E nesse aspecto, Benjamim não tinha um botão ou um interruptor para o guiar.

5 comentários:

  1. Parece-me que todos nós nascemos com o interruptor mas por vezes esquecemo-nos de o ligar ou desligamos sem querer. Há outros ainda que pensam que o modo "off" é o que está ligado!

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  2. ;) és um contista do catano! Gostei bastante, e repara bem, mas o facto é que este interruptor até dá azo a versatilidade para vários finais diferentes e alternativos, tipo você decide...devias publicar esta cenas "contos dos outros tipos com finais à la garder"

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  3. Com essa coisa do para cima e para baixo, a dada altura parecia que o Benjamim estava a descobrir outra coisa com 16 anos, tardiamente é certo.

    De qualquer modo sempre lhe seria mais útil que a consciência...

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