30.7.12

Uma história feita a par e passo


Contou os degraus que iam da saída do metro até à porta de sua casa. Não tinha bem a certeza de como as distâncias se podiam converter em passos, mas sentia que aquilo era importante.
Não estava habituado a contar tantos números de seguida, por isso resolveu criar rotinas que lhe permitissem acompanhar a sua rápida passada. Primeiro, quando chegava aos cem passos, recomeçava a contagem, anotando mentalmente o total. Depois, em certos momentos, repetia apenas contagens até dez porque era mais fácil fazê-lo ciclicamente.
Do que não se apercebeu foi do facto de agora estar a dar a todas as situações com que se deparava uma equivalência em passos, mediante a duração da sua passagem por determinadas situações. Cão a rebolar, vinte sete passos, dois velhotes num banco a fumar e a dizer mal da vida, sete passos, mulher bem vestida que olha pelo canto do olho a ver se reparam nela, sete passos (ok, dez passos, mas três deles foram já depois de ela ter sorrido).
Desceu o túnel e constatou que cinquenta e oito dos seus passos tiveram um eco mais profundo do que os outros. O seu único passo pendente deu-se curiosamente na passadeira, quando um carro fez de conta que não o viu. Foi um momento de tensão, entre o 621 e o 622, mas felizmente a situação teve um final feliz.

A contagem acabou no momento em que chegou à porta de casa, tal como previamente definido. Preparou-se para deitar a chave à porta, esperando ouvir uma voz familiar do outro lado, perguntando -lhe o que tinha feito de diferente hoje. Esqueceu-se que, às horas que eram, não estava ninguém em casa e por isso deixou apenas um papel com um número escrito, sabendo que possivelmente só regressaria muito tarde.

Muito mais tarde, quando a noite já abraçava a cidade e lutava para que as últimas peças do puzzle fizessem algum sentido recebeu uma SMS “717 sempre foi o meu número da sorte”. Sorriu e preparou-se para contar os passos que faltavam até ao fim do dia.

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