3.7.12

A racha


Nota: Apesar do título brejeiro, este post tem um elevado teor cultural e respeita a dose diária de snobismo intelectual de um adulto do sexo masculino.


No que toca à arte, não sou grande adepto do significado das coisas. Quero com isto dizer que, perante uma obra de arte prefiro interpretá-la à minha maneira e não tentar perceber ou enquadrar aquilo que o artista teve como inspiração. E isto não tem que ver com intenção, mas simplesmente com a explicação dada.

Não pretendo com isto desvalorizar as suas motivações, mas sim apreciar o seu trabalho na minha perspectiva. Pode dizer-me mais, menos, gerar ou não emoções mas de preferência espontaneamente e não induzidas.

Talvez por isso, quando em exposições, só leio as explicações/legendas depois de contemplar o trabalho em si. Tenho vindo a verificar que, por vezes, obras que gosto têm significados para o artista que me fazem bocejar.

Dar significados às coisas é fácil, eu sei, estou habituado a fazê-lo profissionalmente e é algo que tem tanto de recompensador como de enganoso.

A exemplo disso, numa das últimas vezes que fui a Londres, em dada galeria estava “A racha”, uma instalação de Doris Salcedo.


Era efectivamente uma racha no solo, que se propagava ao longo do piso, com ramificações e profundidades diferentes. A interacção gerada com as pessoas era simplesmente fabulosa, com malta (como eu), a perguntar aos funcionários se a instalação era mesmo aquilo, outros indo para dentro da racha, outros a tirar fotos, saltando de um lado para o outro, quase tropeçando e por aí em diante. Não se ficava indiferente, podendo ou não gostar-se, mas isso é outro assunto.

A inteligência da obra vivia por si, mas à saída fui ver a explicação. Esta falava de algo como a distância que separa empre alguém que vive emigrado e não está completamente integrado dos que o rodeiam, etc e tal. Tocante, mas.... ainda assim, é apenas um significado e pronto. Se eu lá pusesse que tinha que ver com o crescente distanciamento nas relações entre pessoas também podia funcionar. E quem diz isso, diz mais duzentas versões.

Que se lixem os significados, vamos apreciar as coisas por si. Seja lá o que isso for.

6 comentários:

  1. Essa racha parece-me boa. A melhor racha onde já estive foi a fenda da Calcedónia, no Gerês.

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    1. É natural. Aqui perto de mim há é uma Calzedonia, mas creio ser arriscado pôr-me com piadas que metam "rachas" nesse contexto.

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  2. Olha, eu também vi essa racha da Doris Salcedo, foi em 2008 acho eu, em novembro, estava um frio de rachar a atravessar a ponte do milénio para ir à tate modern. tenho uma foto igualzinha a essa, com a diferença de ter os meus pés e da minha amiga a decorar a obra de arte (fotos tiradas por mulheres têm de ter sapatos)

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    1. Sim, foi por essa altura (2008). Esta foto não é minha, mas também tenho várias com permanente que, só por si, são verdadeiras instalações.

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  3. rectius, foi em março (dei-me ao trabalho de ir consultar o meu arquivo fotográfico e recordar o péssimo penteado com restos de permanente, lhec)

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  4. Também estive em Londres por alturas da "racha" e ía acompanhada de uma arquitecta que se fartou de perguntar comos e porquês a toda a gente que apanhou a jeito e só não pediu os planos de construção da dita porque lhe pareceu mal. (estava-se bem para arquitectos em Londres por esses dias, havia também Zaha Hadid no Museu do Design). Não tenho sido grande fã das instalações da entrada da Tate, mas esta, como se diz em americano: "Blew me away".

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