19.7.12

Os piratas e o IRS


- É uma vergonha – proferiu Barba Fuchsia em tom exaltado – digo mais, é uma vergonha que tresanda como as entranhas do mar.
Tem calma, que se passou? A orelha inchou outra vez por causa dos brincos mal esterilizados? – Capitão Berloque, sempre preocupado com os acessórios, não reparara que Barba Fuchsia nem brincos tinha naquela manhã.
- São os cabrões das Finanças, recebi hoje um envelope quando atraquei na doca de Antígua. Querem penhorar-me o navio, porque dizem que ando a enterrar tesouros em ilhas offshore.
- Qual navio, o “Floribella”?
- Esse mesmo, caraças. E alguém me explica como é possível uma ilha não ser offshore??

Ao dizer esta frase em tom mais enervado, voltaram-se alguns olhares na taberna “O Perna de pau”. Por aquela altura poucos eram já os piratas que frequentavam sítios assim, os mais modernos frequentavam agora a “Assembleia”. Os poucos que restavam, eram um pouco como idosas à entrada do posto médico, estavam ali mais para se queixar do que para procurar soluções.

Capitão Berloque, que valorizava como acessório máximo o rum, já estava ligeiramente tocado e a manhã ainda nem tinha chegado ao fim. Também, o que é que isso importava, afinal de contas ele era o pirata, mas a ex-mulher é que o tinha saqueado de tudo num divórcio disputado até à última bala de canhão. Sobrava-lhe o seu velho amigo Barba Fuchsia, um dos poucos que ainda se conseguia safar. Pelo menos até agora.

- E agora, ainda por cima, dizem que estou mal enquadrado no meu escalão. Que não tenho as credenciais de pirataria em dia. COMO É POSSÍVEL? Eu próprio levei à repartição a caveira com os dentes de ouro e a língua de um corsário para validar o processo...
Capitão Berloque acenou com a cabeça. Viviam-se tempos difíceis, as Finanças eram agora mais rentáveis que os piratas e a burocracia não se combate com canhões. Tentou confortar o seu amigo.
-Olha, pelo menos ainda tens a tua tripulação. Eu, tirando um macaco cego e um mimo, não tenho nada, depois do que aquela cabra me fez.
Os olhos de Barba Fuchsia abriram-se ainda mais – MAS QUAL TRIPULAÇÃO? Já só lá tenho nove ou dez e começo a ter que lhes cortar membros para lhes poder cortar no vencimento. A semana passada tive de atirar CINCO, CINCO ouviste bem, borda fora porque tinham salários em atraso e tive medo que fosse lixar-me nas Finanças.

Capitão Berloque ficou em silêncio, girando o chapéu nas mãos. Parecia estar a ouvir Barba Fuchsia em slow motion, o rum estava a bater-lhe mais forte do que é costume. De repente, puxou a barba do amigo e, atraplhadamente, tentou beijá-lo.
Barba Fuchsia levantou-se de um salto, afastando Berloque com o Braço e sacou da espada. Com o punho bateu na cabeça de Berloque, que caiu estatelado no meio do chão da taberna. – Então, que merda é esta? Já não me bastavam as Finanças e agora tu...
Meio combalido, Capitão Berloque, esticou os braços para cima – Epá desculpa, isto do álcool e do divórcio, pensei que se calhar....epá pronto, desculpa.

Barba Fuchsia suspirou e guardou a espada. Enquanto o taberneiro e mais dois ou três cuidavam de Berloque, deixou dois dobrões em cima do balcão e deu ordens para que servissem do melhor rum ao amigo.

Saiu para ir pensar junto de Floribella frase que, sem o saber, era empregue pela primeira vez na história. O que o preocupava não era o amigo estar a abichanar, mas sim o facto das Finanças o estarem a tentar comê-lo à bruta e nem sequer uma pinguinha de rum usarem para criar ambiente. Uma ilha offshore, mas que raio de ideia.

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