7.7.12

O poeta Jeremias


O poeta aclarou a voz e olhou em volta.
A sala da biblioteca estava razoavelmente cheia, bem, diria mesmo que estava consideravelmente apinhada, tendo em conta que se tratava de uma declamação e do seu regresso à terra natal.
Era o poeta mais bem sucedido de uma terra em que, para além ele só tinha um futebolista num escalão secundário e uma modelo/actriz/engolidora de fogo que, ao que sabiam, continuava emigrada na Holanda, como figuras de renome exterior.
Fechou os olhos e começou:

Fazia desenhos o pequeno,
topos de montanha,
e ele gigante, braços em v,
esticados para um sol em forma de limão.

Fazia desenhos o pequeno,
Desenhos que o pai não via
A mãe a não querer ver,
Sozinho reinava,
Sozinho o pequeno era dono do seu mundo.

E hoje o pequeno falou na escola,
E hoje finalmente falou na escola.
Lembro-me tão bem,
De levantá-lo bem alto,

Parecia ínfimo e tão frágil,
Mas dentro dele vivia um leão,
Nunca me esquecerei,
Do dia em que me atingiu.

De boca aberta fiquei,
Dorido no meu ser,
Tal como no dia,
No dia em que o ouvi.

O pai não vinha afecto
E o pequeno não dava jeito à mãe
Sozinho reinava,
Sozinho o pequeno era dono do seu mundo.

E hoje o pequeno falou na escola,
E hoje finalmente falou na escola.
Tentem esquecer-se disso.
Tentem apagar isso.
Do quadro negro.


O silêncio manteve-se na sala. O poeta abriu os olhos e curvou-se numa semi-vénia. Começaram a ouvir-se as primeira palmas, ainda a medo, tímidas.
De repente, um rapaz, um bombeiro da terra, levantou o braço O poeta fez sinal com os braços, certamente um fã mais devoto a querer prestar-lhe agradecimento. As palmas pararam. “Diga, diga meu caro conterrâneo”.

“Oiça, eu não percebo muito de poesia, nem explicar muito bem as coisas”.
“Ninguém percebe meu caro. É como água que brota de uma nascente na montanha. Não se explica, flui assim”.
“Certo, mas oiça lá, isso que você, o senhor, acabou de estar para aqui a declamar, parecia-me mesmo o Jeremy dos Pearl Jam, sabe qual é, aquela banda..”.
O silêncio voltou à sala. O poeta suspirou e baixou o olhar, enquanto pensava quais eram as hipóteses de haver um adepto de grunge presente num serão temático de poesia em Agadins do Bom Senhor.
Mais lhe valia ter escolhido Portishead.

2 comentários:

  1. Vimos por este meio apelar à sua ajuda e à dos seus leitores. O nosso amigo de infância está desaparecido e precisamos de divulgar a informação. Pode ser que alguém o tenha visto, saiba alguma coisa! Por favor, não custa nada, leiam a informação disponibilizada no link que se segue e se souberem de algo contactem as pessoas indicadas no link. Precisamos da sua ajuda!
    http://tcf.blogs.sapo.pt/187563.html

    ResponderEliminar
  2. e o leitor levantou-se e curvou-se numa micro-vénia: bonito post pensou, e depois voltou-se a sentar; estava "cansado de brincar, de se entreter com um qualquer arco e flecha".

    ResponderEliminar

Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.