17.7.12

O dia em que me lancei aos pés de uma mulher


Lembro-me bem desse dia, embora certos contornos pareçam agora vagos. Estávamos no Verão e eu devia ser adolescente, porque era bastante parvo, coisa que hoje em dia já não é assim, pois agora só apenas relativamente parvo.

Eram as férias grandes, mas nem sequer me lembrava disso, tal como muitas outras coisas só sentimos a falta delas quando já não as podemos ter. Estava Sol, eu tinha tempo livre e ia ter com um amigo meu a Algés. Como jovem ligeiramente dado à mitrice ocasional, resolvi que seria uma boa ideia andar na penda* do eléctrico para chegar até lá.
O esquema era o costume para quem conhecia essas rondas, descia-se a Belém, com o cuidado necessário para só apanhar o eléctrico à pendura depois da esquadra ao lado do Palácio de Belém. Caso contrário, um tipo arriscava-se a passar uns bons minutos a levar uma esfrega da polícia.

Portanto, por altura do Mosteiro, era esperar que ele parasse, que não trouxesse já dez mitras encavalitados e agarrar as frestas da porta das traseiras contrária à da saída. Depois eram 5-10 minutos até Algés a levar com o vento na cara a desfrutar da sensação de frescura e ser pelintra. Eis quando, já perto do destino, junto ao Aquário Vasco da Gama vejo uma jovem giríssima parada no passeio, a 300 metros da paragem.

Haverá forma melhor de impressionar uma miúda do que saltar de um eléctrico em andamento? Há, mas na altura não me ocorreu. Apesar de estar habituado a sair em andamento quando o eléctrico já vai a abrandar, quando a coisa não se passa assim as regras mudam.

Por breves segundos pensas que sabes voar e nada te pode parar. Depois descobres a gravidade. Quando os teus pés tocam no passeio, tentas acertar o passo e compensar a desaceleração face à velocidade do eléctrico. Consegui-o em pleno durante um segundo e meio. Depois troquei os pés todos, meio passo de corrida, meio gajo descontrolado a cambalear. As mãos à frente, antecipando a queda, que se vai atrasando mas avisa que não demora. Finalmente, joelhos ao chão, travagem e duas mãos a amparar uma semi-cambalhota. O mundo gira e quando acaba de girar tenho duas pernas à frente da cara.

Ela olha, meio assustada, meio divertida, para o alien que caiu do 15. Ainda sem dores aparentes, sorrio e acrescento “Peço desculpa por não ter trazido flores”. Ela ri-se e faz sinal para uma amiga que acaba de chegar do outro lado da estrada, antes de me perguntar “Estás bem?”.

Claro que sim, digo eu antes de me levantar rapidamente, como fazem todas as pessoas que caem e não querem dar parte de fracas. Aceno-lhe, pisco o olho e começo a andar, mordendo o lábio para disfarçar as dores que agora aparecem. Volto-me para trás e ela está a retratar a cena à amiga.

Chego ao pé do meu amigo a parecer que acabei de sair de uma oficina, todo cagado. Ele não acredita em metade da história, pelo menos na parte que não está gravada na minha roupa. Agradeço aos deuses o facto de ainda não existirem telemóveis de embarda e a net não ser o que é hoje. Como ainda não sabia que essas coisas iam existir creio que na realidade agradeci apenas o facto da plateia ter sido reduzida.

Jurei nunca mais me lançar aos pés de uma mulher.
Pelo menos depois de saltar de um eléctrico em andamento.




* penda - arte perdida de andar gratuitamente em eléctricos dos antigos, agarrado da parte de fora dos mesmos, no lado da porta não utilizada na parte de trás.

1 comentário:

  1. Então presumo que para essa miúda não arranjaste uma alcunha...talvez ela te tenha posto uma ti (certamente fofinha...) !

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