10.6.12

Ver a bola de ouvidos fechados


Gostaria de começar pelo fim do post de ontem, dizendo, “eu não vos disse que isto ia acontecer”. Podia falar sobre o jogo, mas o tema e a história do “nosso fado” é demasiado banal e corriqueira. Além disso a Dona Esperança ainda está ligada à máquina e dizem-me que na quarta feira é operada a ver se ainda se safa.

Não tenho pachorra para a SportTV e apesar de entusiasta do desporto acho que pagar para ver bola e afins só se justificaria se eu tivesse interesse profissional na coisa. Como tal, quando quero ver um jogo que não dá nos canais abertos em Cabo, sirvo-me da Internet e ontem fiz isso para ir espreitando o Holanda-Dinamarca. Como estava a escrever ao mesmo tempo, deixava os comentadores ingleses irem falando e, quando a ocasião merecia, espreitava o jogo. Os tipos que comentavam o jogo eram divertidos, narravam o jogo com entusiasmo e os comentadores convidados ajudavam à festa com análises simples, curtas e despretensiosas.

O problema é virar o disco para os jogos na televisão pública nacional. A dupla narrador-comentador existe, a meu ver, para que o primeiro narre o jogo sem grandes detalhes, transmitindo-lhe vivacidade, emoção e abrindo sempre que tal faça sentido a antena quer para o comentador, quer para os repórteres de pista. Não precisa de ser tão efusivo como na rádio, dado ser auxiliado pela imagem, mas também não tem de ser um mono. Quanto ao comentador, pela sua experiência ou know how técnico-prático, deve dar a análise extra para que os entendidos ou os ávidos de conhecimento possam ver um jogo e acenar a cabeça quando falam de pressão alta, jogadores box-to-box ou da beleza que é ver um central que sabe sair a jogar.

No entanto, em Portugal isso poderia ser considerado demasiado básico. Por isso, o narrador sente normalmente que tem de mostrar que não está ali para papaguear o relato do que se passa em campo, se as pessoas querem ver o jogo que olhem para a imagem. Ele próprio é um poço de cultura futebolística e é gajo para privar de perto com jogadores e mostrar que está por dentro de muita coisa. Sabe que Pepe nasceu em Maceió, que João Moutinho é algarvio, que Varela foi duas vezes campeão pelo Porto e que Podolski jogava com Petit no Colónia. É tudo muito interessante, mas isto é só um exemplo da avalanche de informação e adjectivação debitada que se substitui pelo que se deveria estar a ouvir – um relato vivo do jogo.

Como tal, quando o comentador chega a falar já estamos a levar com uma caldeirada de informação e pouca vontade temos para mais bitaites sabichões. O ritmo fica um pastelão e isso faz com que cada jogo tenha de ser francamente espectacular para compensar isso.

Faço uma excepção para o narrador da SIC, não porque preste, mas só porque me dá pena. A sua explicação/alucinação durante o Espanha-Itália sobre o facto do hino de Espanha ser “cantado em silêncio” (quando o simples seria dizer que só tem música, não tem letra) levou-o para aí a dois ou três minutos de explicações enquanto nós, que em casa só queríamos ver um jogo de futebol porreiro, procurávamos desesperadamente o comando para aceder à salvação do “mute”.

Eu até considero que percebo minimamente de futebol e sou uma pessoa tolerante, mas o alerta está lançado – durante o Euro, nos canais portugueses bola só de ouvidos fechados.

12 comentários:

  1. É um dever moral tirar o som às transmissões dos jogos. Aquilo é intragável...

    viagensnomeucaderno.blogspot.com

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  2. E na RTP HD o som estava ligeiramente adiantado à imagem, o que também não ajuda.

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    1. Se o som estivesse atrasado, para aí 1h30m é que tinha sido uma categoria...

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  3. Há muito tempo que o digo. É que chega a ser ridículo.

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    1. Podia haver uma evolução, mas nestes casos bate-se sempre na mesma tecla...

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  4. É por isso que se ouve o relato da rádio enquanto se vê o jogo... Vá aprendendo que eu não duro sempre, caro Mak (estou em crer que chega lá)

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    1. Já fiz isso, mas naquele caso não era possível. E eu estou cá é para aprender...

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  5. Boa ideia, e também funciona para o telejornal :)

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    1. O que é o Telejornal? Na minha televisão aquilo parece-me sempre uma novela...

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  6. É bom saber que não sou a única a pensar o mesmo! :) Aliás o que me estava a dar cabo dos nervos nem era o jogo em si, mas sim as explicações...

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    1. Aquilo devia ser um complemento ao jogo, não uma fonte de urticária...

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