20.6.12

Uma janela para a realidade


Olhou pela janela e esperou ver a rua com que sempre sonhara. Era uma rua especial, não por ser diferente, mas por ser daquele tipo de ruas em que toda a gente devia caminhar pelo menos uma vez na vida. Típica, icónica, com luzes e sombras na dose certa, em que a arquitectura do antigamente se fundia com a modernidade numa mescla perfeita cheia de adjectivos diferentes, para cada um utilizar como quisesse. A vista da rua dos seus sonhos incluía pessoas que não se limitavam a passar nela. Faziam-no com um propósito, com a consciência de que estavam ali e que isso era importante. Ao fim do dia, lembrar-se-iam de que haviam passado por lá.

Mas não, não foi essa que rua que viu. Choviam grossas gotas de realidade, pintando de cinzento e de cansaço, tanto passeios como pessoas. Dessas, as poucas que via, corriam para esquecer a rua que deixavam para trás.

Não lhe apetecia sair para uma rua assim, mas resolveu passar pelo bar. Sorte que este ficava à distância de um braço. Alcançou a garrafa e mediu a necessidade de ir buscar um copo. Venceu a lógica sobre a educação. Bebeu imaginando o melhor whisky que podia encontrar em terras escocesas, mas a imaginação não se sobrepôs ao travo da promoção mais barata que encontrara.

Com a cabeça encostada ao vidro da janela, deu por si a pensar nela. Ouviu-lhe distintamente os passos, lentos mas ritmados e imaginou como seriam os seus sapatos. Pousou a garrafa, voltou-se rapidamente e puxou-a para si. Beijou-a, mas não sentiu nada.

A verdade é que as fotografias não beijam bem e uma fotografia era o que tinha na mão. Os sapatos eram de uma espécie de tom beringela. Bem, pelo menos a fotografia não se queixara do bafo a álcool.

Suspirou, desviou o olhar da janela onde tinha ido novamente encostar a cabeça e, fitando o vazio, mandou o autor do blog à merda e fê-lo em voz alta. Tanta imaginação, tanto paleio e punha-o sempre a fazer personagens irónicos, que acabavam sempre  a ser lixados, sem direito a happy ending ou ao menos um toque cool e desejável. Estava farto. Queria ir às compras, queria uma história de vida a sério. Queria colar uma etiqueta cor de rosa nas costas ou ter aquilo que tantos outros tinham – o poder de serem melhores do que alguma vez seriam na realidade.

Mas não, tinha de estar com os cornos pespegados numa janela a ver cair gotas de realidade cinzenta ou lá que merda era aquela. Bonito serviço.

2 comentários:

  1. Sei que já passou algum tempo e este tempo que passou veio agravar o facto de não ser uma jovem visitante, mas, apesar de não o ser, não quis deixar de demonstrar o meu espanto ao dar com tão excelente post e não vislumbrar sequer um comentário...

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    1. Ora essa, venha quem vier e quando vier, se vier por bem será sempre bem recebido.

      Obrigado :)

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