15.6.12

Se a Selecção de Portugal fosse um gajo e convidasse uma mulher para jantar


Assumamos numa perspectiva alucinogénica que a Selecção de Portugal é um gajo. Não se trata do Ronaldo, do Coentrão ou do Meireles, mas sim aquilo a que genericamente se designa como um gajo, com todas as suas virtudes e defeitos. Assumamos também, a bem do exercício, que a mulher se chama Vitória, já que a Selecção ambiciona somar vitórias, assim a coisa torna-se linear. Mais uma vez, não se trata aqui da senhora Spice Beckham, nem um anjinho daquela simpática marca de lingerie embora, a bem do imaginário, a possamos imaginar como tal, mas com uma pequena verruga algures no rosto, só porque ninguém gosta de andar de braço dado com a perfeição.

O Selecção (não esqueçamos que é um gajo) anda de olho na Vitória há algum tempo. Ele acha que tem hipóteses, que tem valor e é merecedor da Vitória, apesar de boa parte das pessoas continuar a achar que sim, que ele até nem é mau rapaz, mas fala muito e faz pouco e o tempo vai passando. Entretanto, dizem as más línguas, a Vitória não se faz rogada e vai-se entretendo com um espanhol, saindo também com um alemão de quando em vez. Vivemos num mundo moderno, Vitória é livre e apesar de achar piada ao Selecção, não pretende nem morrer virgem, nem à espera de um cavaleiro de armadura, nem sequer ser confundida com a sonsa da sua meia irmã, a Vitória Moral que essa então vai com todos os que têm conversa, mas não fazem nenhum. Se o Selecção perceber que estes são os três pontos em disputa, pode ser que se safe.

O problema é que o Selecção, que quando se penteia, lava os dentes e não fala demais até é bem parecido, sofre de uma espécie de mania das grandezas associada a uma Calimerozice de primeira, o que o torna uma espécie de bipolar sempre a cair em fora de jogo, quando se trata de mostrar que quer a Vitória a sério. Se for preciso, primeiro surpreende-a com um original convite para irem jantar, Vitória acede, mas Selecção acha que ela não foi muito efusiva e começa logo a pensar que se vai lixar e que na volta ela só quer comer à conta. Perde-se nas suas dúvidas e quando dá por si já só falta uma hora para ter que a ir buscar a casa, sim porque a menina é fina e não podia ir de Metro, ainda está de fato de treino e nem sequer se despenteou convenientemente.

De repente, num assomo de consciência, pensa nas pessoas todas que tão prontamente lhe dizem que não tem qualquer hipótese com a Vitória e, em dois tempos, está pronto e ainda tem dez minutos para ir ao canteiro da vizinha sacar umas flores, que o Selecção às vezes funciona assim, com a inspiração do momento.

Vai buscá-la a casa, descem até ao carro, que é um modelo ligeiramente acima das possibilidades do Selecção, mas para este tipo de eventos as pessoas até toleram as suas manias, desde que finalmente o vejam a fazer qualquer coisa para ficar com a Vitória. Confirma pelo canto do olho que a Vitória sentada ao seu lado é boa como o milho mas distrai-se com o olhar tempo demais e Vitória sente-se algo desconfortável. Selecção não dá por isso e julga que é por ela também o achar bom como o milho.

À entrada do restaurante, Selecção encontra dois amigos e para além de não lhes apresentar a Vitória, não vá a coisa correr mal e ele é que fica mal visto, resolve ficar na palheta. Vitória entra e encontra o alemão no bar, onde este flirta despreocupadamente com ela. O Selecção repara nisso e entra a matar, dizendo ao alemão de forma rude que a Vitória entrou consigo. O alemão sorri e diz que não importa com quem entra, mas sim com quem sai. Meio de cabeça perdida o Selecção diz ao alemão que por acaso viu a mãe dele a sair com três turcos e já ia bêbeda. O Alemão responde que tinha pensado que o Selecção é que tinha andado na brincadeira e levado três dos turcos.

Vitória boceja, começa a ficar farta e pensa se ainda vai a tempo de ligar ao espanhol.

Conforme a vê a pegar no telemóvel, Selecção olha para cima e pergunta a Deus como é possível correr sempre tudo tão mal, quando ele faz tudo para que corra bem. Estando a olhar para cima não repara num empregado com uma bandeja de sopas e suja boa parte do fato. Suspira e começa já a pensar nas desculpas que vai dar amanhã quando lhe perguntarem como correu. Mas, do nada, surge-lhe uma inspiração e vai à luta, não quer saber, pode já ter estragado tudo mas não desiste.

Chega ao pé de Vitória, delicadamente tira-lhe o telemóvel da mão e põe-lhe um dedo sobre os lábios, em sinal de silêncio. Surpreendida, Vitória hesita, mas acaba por se ir sentar com ele à mesa. Durante o jantar,  Selecção é encantador, dribla temas com elegância, surpreende ao citar Coleridge e diz que um dia têm de ver uma interpretação de Werther por Jules Massenet. Vitória diverte-se, porque sabe que Selecção gosta tanto de ópera e poetas britânicos como ela gosta de empatas, mas aprecia-lhe o esforço.

No fim do jantar, depois de algum tempo à conversa, Selecção oferece-se para levar Vitória a casa. Uma vez mais ela hesita e parece querer dizer qualquer coisa. Selecção sente-se de repente muito injustiçado, por uma vez mais ela estar a mostrar dúvidas e, na sua cabeça, isso só quer dizer uma coisa – a Vitória não quer nada com ele.
“Queres que te leve até casa do espanhol não é?”

Vitória fica de boca aberta, não esperava aquela reacção, por ela até podiam aproveitar aquela noite para se conhecerem melhor, mas aquela inconstância e aquela montanha russa de emoções dá-lhe cabo dos nervos. “Sim....pode ser”, acaba por responder e o Selecção deduz que toda aquela hesitação tem a ver apenas com o facto de a ter surpreendido ao ser tão intuitivo ao ler os seus pensamentos.

Pelo caminho todo vai a amaldiçoar-se e a dizer “Eu sabia, eu sabia”. Quando chegam ao destino, despedem-se e, por um momento, ao segurar nas mãos de Vitória, Selecção pensa que podiam ficar juntos. Ela sorri e faz-lhe uma festa na cabeça e ele percebe que ainda não está pronto, quem sabe um dia. Vitória afasta-se e, perdido por cem, Selecção fica a galar-lhe o cabedal enquanto ela desaparece pelo portão da vivenda do sacana do espanhol.

Selecção sente-se triste, mas acha que não podia fazer muito mais, aliás começa a pensar que esteve muito bem e foi mesmo o azar a lixá-lo. Como precisa de desabafar com alguém acaba por ligar à irmã de Vitória, Vitória Moral, que com essa é limpinho, é dar-lhe um toque e ela está sempre disponível.

Hoje vai ter que ser assim, mas para a próxima a Vitória não escapa.

13 comentários:

  1. Não há muito mais a dizer a não ser genial!

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  2. Grande texto, genial mesmo :)

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  3. Mac, meu caro, não sei se será mau, tenho as minhas dúvidas, todavia sei que este texto está absolutamente brilhante.
    (aborrece-me isto, uma pessoa quer ser irónica, chega a certos blogs e não consegue).

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  4. Bravo! (salva de palmas de pé e ramo de flores)

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  5. Eh pá... um texto sobre a selecção que eu consegui terminar de ler. E não é que percebi tudinho? :) Muito engraçado.

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  6. Toda a gente sabe que as Vitórias Morais só servem para dar umas voltas, para casar tem de ser com a Vitória mesmo e para se conquistar uma "mulher" desse calibre é preciso mais que falinhas mansas e desculpas esfarrapadas. ;)
    Bela metáfora, Mak velhaco!

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  7. A relação do Portugal com a Vitória Moral já vem desde 2004. Já é uma coisa bastante sólida

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  8. A mim, que nunca me faltam as palavras, acabou-se de me cair o queixo de estupefacção.
    E claro que, de queixo caído, não consigo dizer nada.
    M A S Q U E B O M !

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  9. Se se substituir o Espanhol pelo Holandês teremos uma história ficcional embora baseada em factos reais.

    Pelo menos a partir de amanhã.

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  10. Que paralelismo magnifico, MUITO BOM!

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  11. bateu certo!
    incrível!

    estava tudo aqui...

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