4.6.12

Pesadelos e telemóveis - uma história moderna


Facto: Segundo dados estatísticos cerca de 90% das pessoas têm o telemóvel a menos de um metro de distância durante o dia inteiro (24h).

Estava a ser perseguida por uma figura encapuçada. Não o conseguia ver bem mas também não tinha tempo para se voltar para trás. Era grande, arfava de uma forma estranha e parecia-lhe ter algo metálico nas mãos, pelo menos era algo comprido que brilhava ao luar, como tinha conseguido perceber durante os breves instantes em que olhara de relance.

Tinha a noção que estava a sonhar, deitara-se por volta 23.38 minutos com um top branco de alças e umas calças laranjas de um tecido suave que lhe tinham oferecido por altura do último aniversário. O gato ficara na sala e com o calor já se sabia que não ia aparecer por ali tão cedo.

No entanto, via-se com um vestido de cocktail vermelho esvoaçante, sapatos feitos para deslumbrar e não para correr e corria junto à frente ribeirinha, fugindo de uma figura sinistra. Estava oficialmente num pesadelo.

Virou à direita numa rua perto dos armazéns marítimos e deitou um caixote do lixo ao chão, na esperança de atrapalhar o seu perseguidor. Agilmente, este saltou por cima do obstáculo e lançou uma espécie de guincho de satisfação, pois aproximava-se a cada passo. Sentindo que estava a perder forças, descalçou-se em andamento e olhou em frente, pois o caminho bifurcava-se a seguir. De um lado, um túnel do qual não se via a saída, do outro uma rua estreita ladeada de portas de armazéns. A escolha mental fez-se num instante, mas foi um instante a mais do que dispunha.

Quando avançou em direcção do túnel sentiu uma mão fria, pegajosa, segurar-lhe o ombro. O esticão que deu para tentar libertar-se não deu origem a mais do que um rasgão no vestido, uma dor aguda nesse ombro e cair de frente no chão, ficando instantaneamente encharcada numa poça que fez o favor de se dispor por baixo dela.

Voltando-se, não conseguiu distinguir quaisquer feições no vulto que se debruçava sobre ela, como se tivesse a sua própria visão desfocada, apesar de ver tudo o resto com nitidez, incluindo a longa faca com inscrições em arabesco na lâmina. A voz gutural que ouviu em seguida gelou-lhe o sangue.

“Finalmente...”

A voz interrompeu-se, começando a ouvir-se em seguida “Superstitious” de Stevie Wonder. O vulto levantou-se incomodado e ela própria não conseguia ver qualquer sentido naquilo. O vulto esbracejava agora e a sua voz, apesar de gutural, tinha um tom exaltado diferente.

“Porra mais a merda dos telemóveis. É o terceiro esta semana, um tipo não consegue trabalhar assim. Ah, o subconsciente tem trabalho para si, olha que até é uma tipa jeitosa. Um tipo esforça-se monta um cenário, fica à espera até a senhora julgar que são horas de dormir e depois é isto...
É que um gajo assim não aguenta, pesadelo sim, pesadelo sim, são interrupções atrás de interrupções. Nem sequer tínhamos chegado à parte boa. Olha que esta... isto não dá para mim..”

Atirou a faca ao chão, ao som dos acordes de Stevie Wonder e afastou-se, protestando e aos pontapés aos caixotes. Sentada no chão, ainda meio aturdida olhou para o vestido, era uma pena que não pudesse ficar com ele. Fechou os olhos e abriu-os já na sua cama. Eram 2.03 da manhã e Stevie continua a bom ritmo no seu telemóvel. Ensonada, atendeu.

“Está, querida, olha nem imaginas o que aconteceu. Estava a ter um sonho erótico daqueles escaldantes com o Brad Pitt, quando a Luísa me ligou por engano. Havias de ver o Brad todo nu aos saltos a dizer que merdas destas nem à Angelina tolerava na vida real e se eu sabia a lista infindável de mulheres e homens que o requisitavam para sonhos calientes. Depois saiu aos berros pela porta e nem sequer se vestiu... Achas normal?”

Sorriu e não respondeu de imediato. Imaginou num qualquer café aberto de madrugada Brad Pitt e um vulto sombrio a tomarem um café juntos e a queixarem-se das pessoas que dormem junto aos telemóveis.

1 comentário:

  1. Dessas tou eu livre. O telemóvel fica sempre bem longe, na sala. Imagina! Eu no meio de um affaire com a Charlze Theron e aquela porra a começar a tocar...

    ResponderEliminar

Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.