20.6.12

O recreio dos hipocondríacos


Confesso que tenho maltratado o hipocondríaco que há em mim. A verdade é que raramente lhe dou trela e nem sequer o convido para um cafézinho, especialmente porque sei que ele tem a ideia que o café lhe causa arritmias, insónias e mau olhado.

Diz-me ele, com a sua voz fraquinha por causa dos fumos que se inalam cada vez mais na vida na cidade “Tu não eras assim ou então sou eu que de enfardar tanto produto transgénico já não me lembro bem como eras”. Não gosto de lhe alimentar a hipocondria, até porque depois é capaz de passar a tarde toda a vomitar e a dizer que havia alguma coisa estragada na minha conversa, mas de facto algo mudou.

Mudou para mim, que nunca me dei assim tão bem com ele, mas mudou verdadeiramente naqueles que andam com o seu hipocondríaco mais à solta do que hormonas adolescentes em viagem de finalistas de secundário. E essa mudança chama-se internet.

Antigamente, um hipocondríaco tinha que bater o pé, sem outra certeza que não a sua convicção fictícia, sobre o facto de ter apanhado conjuntivite ao fitar demasiado tempo um contentor do lixo. Cabia à família mais próxima, amigos, médico ou agentes da autoridade, em casos mais extremos, tentar provar que não era bem assim e que o contentor normalmente não reage assim ao olhar das pessoas.

Nos dias que correm, pessoas normais conseguem por vezes ser mais práticas e precisas que alguns médicos, quando se trata de encontrar online situações ou sintomas clínicos que descrevem aquilo que estão a sentir. O problema é que os hipocondríacos com acesso à net também não têm dificuldade alguma em encontrar pelo menos um exemplo da maleita que os persegue, por mais distorcida e surreal que seja.

Isto porque nesta aldeia global, há sempre um maluco algures que é o nosso espelho.

“Estás a ver, é mesmo isto, este tipo no Turquemenistão sofre do mesmo que eu”
“Dores lancinantes nos joelhos? Terrores nocturnos? Incapacidade de se locomover sem ajuda?”
“Exacto, está aí tudo no blog dele, nãos estás a ver? Tem fotos e tudo”
“Epá, mas este gajo pisou uma mina e foi atropelado por um tanque...Tu és contabilista na Brandoa e nem à tropa foste...”

Este é um mero exemplo, porque a um hipocondríaco  caso não ache que a Internet causa dores de cabeça e seborreia no contacto com elementos do sexo oposto, nada é mais fácil do que encontrar um sintoma que tenha um paralelismo com o seu.

É um bocadinho como os signos, se uma pessoa fechar bem os olhos e não pensar na Maya, encontra sempre lá algo que pode ter a ver consigo...

2 comentários:

  1. É verdade sim senhora, quem é hipocondríaco ou como eu tem tendência para ser...a internet é um perigo!
    Bom texto!

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  2. Graças a isso já devia ter morrido umas quantas vezes, sempre com cancro :|

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