28.6.12

O homem que queria sonhar


Sonhava todos os dias, embora por vezes nem sempre se lembrasse dos seus sonhos.
Já ele, simplesmente não sonhava.

Todos os dias esperava que ela acordasse e lhe contasse como tinham sido os seus sonhos, para ouvir tudo atentamente com um olhar ávido, tentando imaginar como seria se tivesse sido ele a sonhá-las.

Às vezes, até o sonho mais banal ganhava na sua cabeça outra dimensão, quando ele explorava todas as perspectivas de algo que, por mais normal que fosse, pertencia a uma realidade que ele desconhecia.

Quando ela não se lembrava dos sonhos ou simplesmente dizia que não se lembrava, porque há sonhos que são feitos para ser vividos por uma só pessoa, sentia-se irritado e suspirava. Ainda deitado fechava os olhos e tentava criar um pequeno sonho, algo que minorasse a irritação. Mas parecia-lhe tudo demasiado real, demasiado real.

Nesses dias, chegava a perguntar a colegas e amigos se tinham sonhado ou detinha-se junto à máquina do café quando ouvia alguém a dizer “Bem, nem imaginam o sonho que tive ontem...”. Sorvia tudo o que conseguia sobre sonhos, com ar fascinado, mas sempre com a noção que nunca tinha mais do que sonhos em segunda mão, descritivos baços de imagens coloridas que os seus olhos não conseguiam captar.

Ela começou a sonhar menos, ou a dizer que sonhava menos, porque via nele uma tristeza crescente assim que acabava de lhe relatar os seus sonhos, que em nada reduzia a insistência com que lhe pedia para relatar tudo o que se lembrasse. Pensou que assim talvez ambos sofressem menos.

Até que um dia ela sonhou que ele estava a sonhar. E, ao acordar, em vez de o encontrar a olhar para ela, tentando adivinhar se tinha sonhado ou não, observou-o tranquilamente a dormir. Sorriu e deixou-se estar mais um pouco, desfrutando o momento.

Tinha fechado os olhos por instantes, quando sentiu que ele acordava. A sua expressão era ainda mais triste do que nos outros dias. Ela perguntou-lhe o que se passava e ele, sem responder, simplesmente abraçou-a. Disse-lhe depois que, pela primeira vez desde que se lembrava, tinha sonhado. E tinha sido um sonho tão espantoso que acordar tinha sido algo quase doloroso.

Custava-lhe a compreender como podiam as pessoas sonhar coisas espantosas e acordar felizes, quando lhes tinham acabado de roubar algo que possivelmente não voltariam a ter. Ela disse-lhe que nem todos os sonhos eram bons, ao que ele respondeu que nem todas as realidades eram boas e as pessoas tinham de viver nelas sem escolha. E sendo assim, todos os sonhos, por melhores que fossem, para ele seriam sempre um pesadelo.

Nem todas as pessoas foram feitas para sonhar, concluiu.
E foi então que acordou.

3 comentários:

  1. olha, tenho a dizer que te li de um só fôlego e que fiquei deslumbrada com esta história!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Obrigado mas não há necessidade de sufocar só por causa disso :)

      Eliminar
  2. Este texto está um sonho!
    MM

    ResponderEliminar

Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.