6.6.12

Não me olhes para o relógio


Desde que comecei uma relação com um telemóvel deixei de usar relógio de pulso. A minha vertente prática levou-me à conclusão que não precisava de dois objectos para me dizerem o mesmo e, além do mais, no Verão deixou de haver a tradicional marca do relógio. Quanto à vertente estética dos relógios na minha vida, a mesma está salvaguardada e quando o evento o exige, lá ponho eu a peça da ordem.

No entanto, continuo a ser apreciador de relógios, enquanto “obras”, mas nunca lhes dei muita importância enquanto objectos de status. Curiosamente, há alguns anos por motivos de trabalho tive que ir buscar para fotografar uns quantos daqueles que só existem em boutiques de hotel e só me apercebi do elevado valor dos mesmos quando a senhora me disse “Esses cinco relógios que aí leva dão para comprar um carro”. Fiz as contas e quando entrei no táxi ia a suar por todos os lados por saber que tinha perto de 20 mil euros em relojoaria dentro do saco do AKI que segurava nas mãos. E foi também aí que percebi o porquê do saco manhoso, já que dá muito menos nas vistas do que uma marca destacada.

Para melhorar as coisas, o estúdio de fotografia era numa zona não muito airosa da cidade e o táxi não me conseguia deixar mesmo à porta. Apeei-me e a minha primeira ideia foi correr para bater o recorde mundial dos 400m até ao estúdio. Controlei-me e pensei que daria mais nas vistas, pelo que caminhei calmamente (pelo menos no exterior) os 400m mais longos do mundo. Mesmo antes de chegar tive ainda tempo para ser abordado por uma prostituta, que me disse “Queres vir dar uma voltinha?”, enquanto cuspia para o chão com muito glamour. A minha resposta foi sintomática da minha preocupação e do ligeiro stress “Epá, não tenho tempo” enquanto apontava para o pulso onde não estava nenhum relógio.

Finalmente cheguei e só depois de passar as coisas para o fotógrafo para assinar o termo do seguro e a garantia de devolução é que relaxei. No fim da sessão, ao sair, na mesma esquina voltei a encontrar a mesma prostituta que atirou de longe “Então, já tens tempo?”, ao que respondi “Já, mas agora falta-me estômago”.

Ia jurar que se riu e lançou um aceno, mas na realidade o mais provável é que tenha acenado só com o dedo do meio.

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