19.6.12

Doutor, querer ser tratado por Doutor é doença?


Somos uns parolos.
Quer dizer, eu não sou e tenho a impressão que pelo menos vocês, os dez da esquerda, também não são. Pelos outros não meto as mãos no fogo, que eu bem vi o que aconteceu à Sónia Brazão quando se pôs com essas brincadeiras.

No entanto, quando se começa uma frase em que se quer insultar um grupo, por vezes é bem jogado ficarmos incluídos de modo figurativo na pandilha.
Isto para voltar a dizer que somos bastante parolos, pelo menos no que à história dos títulos diz respeito.

Tantas doenças que já foram erradicadas, a maior parte da gente já samos alfabetizados e voçês, como eu já saberem escrever e ler prefeitamente e subsiste o gozo pacóvio em gostar da deferência do Doutor, Engenheiro, Arquitecto ou Professor. Na Idade Média sim, a coisa fazia sentido, porque se eu não chamava Vossa Senhoria ou coisa que o valha a um nobre qualquer e o tipo vinha calcar-me os genitais com coisas aguçadas, tostar-me a família toda e sorte a minha que naquele tempo não existiam os programas da manhã, senão a tortura seria completa.

O mais interessante é que, por cada patego que insiste em que o seu nome é Doutor, embora a mãe tenha ido por Bonifácio Eleutério, existem três monos formatados que, de sua livre e espontânea vontade, insistem em bajular gente com títulos que por vezes nem sequer têm existência real. É o resultado de anos e anos ao serviço do Estado ou de instituições em que possivelmente se convencionou que se chamarmos 400 vezes Professor a um gajo isso vai apagar o facto dele ser um incompetente.

Um título não torna ninguém mais educado, nem eu falto ao respeito a ninguém se o tratar com respeito mas não lhe olhar para a etiqueta académica/profissional. Porque se é para distinguir as pessoas pelos méritos, há para todos os gostos:

“Permita-me dizer, cara Prostituta Svetlana, a sua performance foi do mais elevado gabarito.”
ou
“Ilustre técnico municipal de saneamento, a mestria com que retira excrementos caninos do passeio faz-me pensar que não fez a sua educação em Portugal”
Ou
“Distinto Operador de Call Center, há que reconhecer que embora a sua formação possa ser em Sociologia, há em si traços de dedicação e empenho que me permitem qualificá-lo como um chato do caraças e, como tal, um exemplo para a sua classe.”

Somos parolos enquanto não deixarmos que sejam as capacidades de cada um a conferir-lhes distinção que merecem (ou não) e continuarmos com resquícios de feudalismo pós-moderno.

E se não pensam assim, podem tratar-me por Professor Doutor Bonifácio.

11 comentários:

  1. Nem imaginas a farsa que foi quando um meu conhecido (por fazer figuras de urso), foi ao banco com o canudo, para demonstrar que tinham que lhe acrescentar Dr. antes do nome, nos cheques...

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  2. hoje no café trataram-me por "oh maior", conta?

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    1. Se não foi "Mayor" num local anglófono, então não conta.

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    2. credo, du... confundiram-te comigo?

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  3. Aqui são todos doutores. Mesmo os que tiraram cursos em 3 anos, cortesia de Bolonha. PQOP.

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    1. Tivessem tirado no Bosque de Bolonha, isso sim era à Doutor.

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    2. Ai nem e preciso 3 anos. Ahahahah.

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  4. É uma doença sim senhor, chama-se Síndrome da Pequenez e tem como sintomas a limitação mental e a insuficiência intlectual.

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  5. já escrevi um post a este respeito senhor Bom,(o mau e o vilão ficam para outras instâncias)
    aqui
    http://amorportatil.blogspot.com/2012/04/o-licas-da-minha-terraisto-nao-e-o-fado.html

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  6. É um bocado parvo, é verdade. E pequenino. Mas a verdade é que, num país que já não tem ponta por onde se lhe pegue, é um "mal" tão menor que se torna insignificante.

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