16.5.12

Voz à Barry White


Não sei se é pelo facto de não se conjugar com o ambiente à nossa volta, mas há um efeito curioso que por vezes se dá quando estamos meio engripados numa época de calor – o efeito “voz à Barry White”. A minha voz, perfeitamente normal noutras ocasiões, adquire uma tonalidade grave e profunda o que, juntamente com temperaturas elevadas e gente mais sonhadora leva a que tudo aquilo que eu digo lhes soe como parte de uma música do saudoso e sedutor Barry.

Entro no local de trabalho e cumprimento a recepcionista de forma simpática “Bom dia, tudo bem? Não precisas de te levantar, eu sei o caminho sozinho”.

A cara que ela faz, leva-me a pensar que ouviu I know there's only, only one like you / There's no way they could have made two / You're, you're all I'm living for, your love I'll keep for evermore / You're the first, my last, my everything”. Afasto-me rapidamente e não digo mais nada.

Mais à frente no corredor, cruzo-me com uma colega, daquelas com quem te dás nem mal nem bem, que te questiona sobre o prazo de um trabalho em curso. Respondo “Bem, vou tentar que isso não descambe para amanhã mas, se isso acontecer, no limite tens tudo do teu lado à primeira hora da manhã”.

O sorriso do outro lado do corredor e o ar embevecido fazem-me jurar que o que lhe disse soou a “You were made to love, you were made to hold / You were made to love, and not control / Oh I can search a lifetime and never see / Noone can do the things, you do to me.”

Enfio um sorriso amarelo nas fuças e afasto-me. Por esta altura podem pensar que isto é ilusão minha, típico sonho de macho e que a gripe, em casos graves, também pode causar alucinações. Fiquem então com o último exemplo.

Prestes a chegar ao meu lugar, dirige-se a mim o motorista/homem dos sete ofícios, um tipo old school com quem me dou lindamente e que me veio dar uma descasca por não lhe ter dado uma coisa que era para pôr no correio. “Ouve lá pá, pedes-me um favor e depois deixa-me apeado? Quando fui aos correios, por ter ficado à tua espera gramei quase uma hora na fila”. Eu juro que a minha resposta foi “Ó artista, não viste o teu email? Lá dizia que só te ia dar isso hoje, tu é que és do tempo das cavernas e só vês mails uma vez por semana. Vê lá se te orientas senão não te dou um chocolatinho de prenda”.

A reacção dele leva-me a crer que ouviu algo como “in my fantasies, I see us together /
I'm loving you, you're loving me, this could be forever / Make me your fruit, between your sheets / Is what you do to me, yeah babe / Some guys will tell you lies and love is never in it /
They only want some sex but sex alone won't get it.

Primeiro olhou para mim surpreso, esboçou um sorriso, mas a seguir foi ele que quase sprintou dali para fora.

Já vi que isto pode causar danos graves, “a voz à Barry White” não foi feita para ser usada nos domínios dos comuns mortais. Portanto, bico calado até sair daqui para fora.


10 comentários:

  1. eu fico com uma voz que daria pra dobrar o Al Pacino fácil, mas é só quando tou de ressaca... ainda dizem que os cigarros fazem mal, francamente...

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    1. Eu para dobrar o Al Pacino não ia lá pela voz. Tentaria porventura um murro no estômago, mas custar-me-ia um bocado porque até aprecio alguns filmes do senhor.

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    2. dobrar a voz, pá, em vez de pôr-lhe legendas :p

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  2. Caro Mak,
    O tua descrição fez-me rir, mas tem atençáo a uma coisa, tal como no post de hoje da Alexandra, o Barry White é do tipo, ama ou odeia. E já se finou há uns tempos.
    De maneira que são naturais, quer os olhares intrigados, quer os olhares menos simpáticos

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    1. Para mim, mais do que o artista em si, "voz à Barry White" é categoria, tal como "cabelo à Paulo Futre" ou "filme estilo taveira".

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  3. Eu só peço a Deus que... tendo pontualmente voz à Barry White, não tenhas fronha à barry white e muito menos os mesmos gostos para roupa...

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  4. Um dia destes vou experimentar cantar para uma das jovens na caixa do Pingo Doce, enquanto ela me passa as compras no digitalizador, "you're my first, you're my last, you're my everything".

    (Não gostaria que ela sentisse que não é especial, que eu me esqueço das caixas de supermercado ao longo da vida, que qualquer pessoa poderia passar aquelas compras. Não é verdade. Foi especial. Foi very Barry White.)

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    1. Como dizem os senhores da música que pus, seja no Pingo Doce ou noutro lado qualquer:

      "Barry White saved my life"

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  5. Maneira bonita de dizer que fica com voz de bagaço. Criativos...

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