15.5.12

Também eu assinei livros na feira do dito cujo


Deixei passar um dia sobre o domingo que encerrou a Feira do Livro para poder falar das coisas com mais algum distanciamento. Pela primeira vez tive a oportunidade de ir a um evento que tanto estimo como mais do que apenas um leitor e apreciador de literatura. Foi a minha estreia e, ao mesmo tempo, a passagem para junto dos que já tiveram o prazer de assinar livros para fãs e curiosos.

Depois de horas a escolher a caneta ideal, optei pela mais comum que tinha, apercebendo-me que as pessoas não vão lá pela caneta, pelo penteado ou pela camisa de quem assina, mas pela possibilidade de, por breves instantes, estarem perto de quem tantas (ou pelo menos uma vez) lhes contou uma história que gostaram de ler.

O nervoso miudinho apodera-se de nós, apesar de dizermos a todos que está tudo bem, que é tudo natural e de fingirmos que acreditamos naquilo que estamos a dizer. Com os primeiros momentos de espera surge dentro de mim um receio que é, ao mesmo tempo, uma esperança “Pode ser que não venha ninguém”.

É então que surge a primeira pessoa, passo ante passo, com uma expressão no rosto de quem porventura nos conhece, que se calhar já leu algo nosso, porque nem todos os autores têm o reconhecimento de outros tantos com outra obra feita.

As mãos estão em cima da mesa e, conforme a pessoa se aproxima, mecanicamente agarram na caneta e no primeiro livro da pilha, largando-o de imediato, não vá a pessoa tomar-nos por presunçosos. Trocam-se umas palavras de circunstância e, sem darmos por isso já temos pronta uma simpática dedicatória para a Nádia, sem trocadilhos nem piadas, que a ocasião merece outra solenidade.

E de repente, a simpatia no ar desvanece-se, quando a Nádia observa com mais detalhe, quer o livro, quer a dedicatória.

“Oiça lá, Nicholas Sparks, você está a assinar um livro do Nicholas Sparks?”
“Pois é, tem razão, escolhi mal, prefere que assine um de um autor mais clássico? Ou um do Peixoto, que é português...”
“Mas afinal você não aquele da astrologia, o oráculo do Fellini ou lá como se chama?”

O barulho alertou o pessoal da editora a quem ocupei disfarçadamente uma mesa e, rapidamente me levanto, ponho os livros da pilha no saco e começo a afastar-me, perante o ar incrédulo da Nádia e de meia dúzia de pessoas que entretanto se tinham aproximado.

Subo um pouco e sento-me na relva, a olhar para as formigas literárias lá em baixo. Só não fumo um cigarro porque acho que começar a fumar só para dar estilo a uma história não vale a pena. Chego à conclusão que as pessoas não apreciam o valor de uma boa dedicatória quando não és tu que escreves o livro.
Sacanas, fazem de tudo para me dar trabalho mas, quando livro estiver escrito, hei de contratar um anão para estar ao meu lado a escrever dedicatórias, para ver se gostam mais assim. E se a Nádia aparecer, vou lhe dizer para escrever a primeira coisa que me veio à cabeça desta vez, antes de refrear os meus instintos.

“Tudo de bom e que nunca te digam que não vales Nádia”

20 comentários:

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    1. Ou de mitra, consoante a perspectiva.

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    2. De qualquer uma das formas: priceless :)

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  2. Meu caro, grande história. Deu-me a ideia de eu próprio autografar os livros que compro, só para impressionar os amigos. "Para Pipoco, com um abraço, em nome dos bons tempos que passámos juntos e em agradecinento da inspiração para esta obra. Luís de Camões"

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  3. a banca com maior fila para autógrafo de autor era o gerónimo stilton, just sayin'.

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    1. Informação preciosa. Creio bem que as crianças são um público bem menos exigente no que toca a quem lhes assina os livros.

      E o Noddy também já tem para aí 60 anos e ainda se veste assim.

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    2. aprendeu com o avô cantigas

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    3. Mas os anos passam por Carlos Vidal, ao passo que Noddy não acusa o peso da idade...

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  4. Isso foi mesmo real? Que história verdadeiramente deliciosa! A Nádia já tem conversa para as festas :-)

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    1. Neste espaço eu tento misturar o melhor que posso realidade e fantasia ;)

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  5. que história maravilhosa! absolutamente brilhante! à Remi Gaillard.

    congrats!

    http://barbarraridades.blogspot.pt/

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    1. Remi Gallard rula muito :)

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    2. Sem dúvida. Mas aqui foi mesmo à altura do homem!

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  6. Eu adorava que me fizessem isso.

    (mas isso sou eu, que tenho um espírito aberto e humor e modéstia e ...)

    (a não ser que tenhas mesmo cara de psycho killer, aí era capaz de reagir à la Nadia)

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    1. Sou um cidadão aparentemente normal o que, por norma, é bem mais grave do que parecer um indivíduo tresloucado.

      Mas, ainda assim, passam-me estas coisas pela cabeça.

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  7. Face aos comentários acima, só me resta acrescentar que a ideia do anão é brilhante. Vou adoptá-lá...

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    1. Adopta antes o anão, que a ideia não tem grande futuro.

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  8. You rock Mak! Mai nada, quando for ai autografas-me uns quantos? eu organizo uma sessão de autografos só para ti num sítio da moda, tu escolhes!!

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  9. Eu contratava o anão era para me escrever o livro...

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