22.5.12

O miúdo que atirava pedras dentro de um livro


Toda a sua vida, desde a primeira edição, tinha vivido entre a página 37 e a 39 do livro. Muitos passavam na obra e nem davam por ele, tão embrenhados que estavam na história, ao passo que outros sorriam ao ver a descrição daquele miúdo que atirava pedras aos vidros das janelas daquele armazém abandonado. Sorriam porventura lembrando-se dos seus tempos de miúdos, em que tropelias como aquela faziam todo o sentido.

No entanto, ninguém sabia bem o que estava ele ali a fazer. O autor já nem sem lembrava dele, na verdade tinha-o deixado ali por engano, a ideia do que fazer com o miúdo tinha sido, tal como o armazém, abandonada. Mas ficou ali, a atirar pedras enquanto a história ia a caminho de outro sítio qualquer e ninguém queria saber o porquê.

Tantas vezes vira pequenos momentos do mundo, alguns tão rápidos como raios, quando se tratavam de leitores rápidos noutros, com um pouco mais de tempo, vira o sol, cheirara a praia e os bancos do jardim, rostos concentrados e sorrisos e decidira que gostava mais deste mundo do que do seu. Chegara até a ver duas formigas a passar por cima do segundo parágrafo da página 38 e ficara fascinado. Mas, o dia que ficara para sempre na sua memória fora aquele em que o livro ficara esquecido na varanda, uma chávena em cima da página 37 a impedir que ele se fechasse. Ao fim de alguns minutos largara as pedras e espreitara, vendo as colinas velhas da cidade e o rio lá ao fundo. Havia um jardim por perto e as escaramuças habituais dos jogos de futebol entre miúdos.

Decidiu aí que não ia ficar a atirar pedras ao armazém para o resto da sua vida. Demorou o seu tempo mas, com ajuda do alfaiate da página 51, da menina da lavandaria do capítulo II e III e de um varão de ferro abandonado no final da página 32, conseguiu levar a cabo o seu plano.

Escondeu o ferro junto ao sítio onde apanhava pedras e a corda feita de lençóis costurados juntos enrolou-a à cintura, puxando para si a palavra “Gordo” utilizada na página 110, tornando-se assim num miúdo gordo a atirar pedras. Esperou que o seu novo leitor passasse na página e, quando ele a ia a virar, puxou do ferro e usou-o como calço, algo que por fora não parecia mais do que uma pequena dobra no canto da página.

Quando não ouviu nada vindo de fora do livro, soltou a corda que tinha à cintura e, espreitando pela abertura viu que o livro estava numa mesa de jardim. Desenrolou rapidamente as cordas, desceu de forma hábil e segura e, quando deu por si, já estava sentado no chão. Sorriu, olhou pela última vez para o livro e desatou a correr.

O leitor voltou, com um copo de sumo na mão, espreguiçou-se e resolveu voltar a pegar no livro. Decidiu voltar duas páginas atrás e ficou surpreendido com a descrição de um armazém com janelas partidas ao lados dos quais estava um varão de ferro e um conjunto de lençóis cuidadosamente unidos como se fossem uma corda. Por vezes lia coisas em histórias que pareciam não fazer sentido nenhum.

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