17.5.12

Lisboa e bicicletas, uma história que nem sempre corre sobre rodas


Há muito que, em muitas cidades pelo mundo inteiro, as bicicletas são utilizadas como meios de transporte regular por milhares de pessoas das mais diversas idades, estilos e convicções, pelas mais variadas razões.


Acrescente-se que, entre outras, este fenómeno é verificável em cidades maiores que Lisboa, com trânsito pior que Lisboa, com sinalização pior que Lisboa, etc. Por outro lado, a adequação das vias à circulação de bicicletas é anedótica (ciclovias em parques, jardins e ruas laterais não são mais do que acção de charme e não uma funcionalidade prática no quotidiano), a geografia pode dificultar em certos casos e os espaços de parqueamento específicos não só são escassos, como provam que não existe sequer uma coordenação pensada entre redes de transportes e utilizadores de bicicletas.

Acredito que a massificação do uso ou, pelo menos, o aumento dos utilizadores regulares sirva para se irem fazendo pequenas conquistas na matéria, mas dificilmente poderão ser mais do que medidas graduais a médio prazo.

Mas, isso é o lado que muitos já conhecem, o lado mais óbvio e mais fácil de apontar. Do outro existe uma faceta igualmente pertinente – saber andar de bicicleta não é o mesmo que saber andar de bicicleta numa cidade plena de trânsito.

Com o aumento de popularidade das bicicletas, vejo situações de gente em cima de bicicletas que me fazem pensar como é que o Correio da Manhã não possui uma secção de óbitos e acidentes graves só dedicados a ciclistas.

Desde malta que circula nas vias erradas e ataca cruzamentos como quem joga roleta russa a gente que quando o semáforo fecha cruza via como se fosse um peão, quase atropelando os que propriamente o são, passando por malta que circula em passeios por ter falta de confiança nas estradas e ainda reclama pela falta de atenção de quem vai a andar do passeio e não se desvia da bicicleta, indo até a quem entra em contramão em certas vias porque é a forma mais fácil de chegar a determinado sítio, porque ao contrário é a subir.

Isto são exemplos comuns e já os vi acontecer com senhoras ciclistas, jovens ciclistas, velhos ciclistas, matulões ciclistas. Provam apenas que muitas vezes não são apenas as condições proporcionadas que falham, os utilizadores também. Faz-me uma certa confusão porque assim se juntam vias e trânsito mal preparado a ciclistas mal preparados, uma boa receita para desgraça.

Podia juntar a isto o facto do ciclista domingueiro, que considera que ter uma bicicleta o torna um radical e lhe devolve a juventude/irreverência que a mentalidade e não o tempo lhe retiraram. Eu, que corro normalmente quer na cidade, quer em circuitos lido não raras vezes com gangs de ciclistas que desprezam o peão corredor (ou seja, levando a atitude de muitos dos que conduzem o carro para cima da bicicleta), equipados a rigor para os trails mais duros mas efectuando apenas o circuito Belém-Cais do Sodré. Já apanhei tipos na Marginal, em zonas em que o passeio é estreitíssimo de bicicleta no passeio por terem falta de cabedal para rolar no alcatrão a ficarem indignados porque eu, a correr em sentido contrário, os obriguei a desmontar da bicicleta. Tipos numa zona da Expo em que diz “Proibido a bicicletas” irem por aí, dizendo bem alto “Epá, por ali não vou que cago a bicicleta toda”.

Sou totalmente a favor da bicicleta como meio de locomoção urbano em Lisboa. Simplesmente acho que às vezes não é só a cidade que não está preparada, são também as pessoas em cima das bicicletas.

11 comentários:

  1. já me aconteceu desejar carrear uma panóplia de armas medievais para agredir "camaradas" ciclistas. pensei em luvas de armadura para aquela chapada à padrasto ao tipo que pára ao nosso lado, em martelos de guerra, dardos (não é daqueles dos cafés) e outras coisas com espinhos.

    portanto, sendo corredor e ciclista de cidade, daqueles que até cumpre as regras, à parte um ou outro sinal vermelho, partilho a tua opinião.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Se me desse jeito correr com luvas de armadura acredita que já o teria feito ;)

      Eliminar
    2. não tinhas partido a mão.

      (fiquei a pensar arranjar mesmo umas, mas usar o travão era capaz de ser um desafio)

      Eliminar
  2. Bem, dada a morfologia da cidade, diria que não é Lisboa, das ais indicadas para se andar de bicicleta.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Com as suas nuances, é certo, mas é possível. E mais viável seria se houvesse a articulação com os transportes públicos de que falava.

      Eliminar
  3. Prefiro a bici, a correr. Ando de bici pelo menos 3 vezes por semana. Mas em geral deixo os peões corredores viver.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Why can't we all just get along? ;)

      Eliminar
  4. Infelizmente o civismo ainda não está à venda. Vai daí e eu penso que talvez me arme em Arrumadinha e faça um workshop sobre civismo, não vende como o sexo mas é mais útil.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Civismo teórico era capaz de ter muita adesão. Agora na prática...

      Eliminar
  5. subscrevo tudo! e a mania que certos "biciclistas" têm de andar no setido contrário do transito e muitos deles sem capacetes ou qq outro dispositivo de proteção.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Pois, a história do capacete é outra...

      Eliminar

Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.