31.5.12

Histórias da meia noite e picos


Saiu à rua só porque gostava de andar a pé pelo seu bairro quando a noite já ia avançada. Não fumava, não passeava o cão, nem sequer tinha insónias e se lhe perguntassem o porquê daqueles passeios dizia apenas que o ar fresco da noite lhe fazia bem aos pensamentos.


Aqui e ali cruzava-se com uma ou outra pessoa, casais que voltavam a casa e por vezes velhotas que não resistiam a segurar a carteira com mais força à sua passagem. Nunca se sentava nos bancos que existiam junto à zona ajardinada mas por vezes parava em frente a eles, lendo com curiosidade as mensagens lá gravadas – “Jomi loves Karla”, “Dread AC é que é” ou um dos seus favoritos “Sentado vi minha vida passar sem ter forças para ir com ela”.

Perguntava a si mesmo se chegaria o dia em que se sentaria só para ver a sua vida passar. Não obtendo resposta, olhava para o céu e tentava apontar algumas estrelas que aprendera na escola. Não se importava de errar em Orion ou de não saber bem se aquilo era mesmo Vénus. Quem é que o iria corrigir.

Fazia então o caminho de regresso, passo largo mas ainda assim pausado. Via quase sempre luz no rés do chão do 38, imaginava se era alguém que dormia de luz acesa ou gente dada ao trabalho nocturno. Uma vez vira uma mulher seminua junto à janela do primeiro andar direito do 44 e tivera pena de não ser antes a do 50.

À entrada do prédio cruzou-se com a velhota do segundo esquerdo, que ia pôr o lixo. Sofredora profissional, viúva e vigilante da vizinhança, nem sempre por essa ordem, gostava de falar com ele. Na realidade gostava de falar com toda a gente, mas ele fazia-lhe porventura lembrar o filho, do qual falava muito mas via muito pouco.
“Está fresquinho, veja lá não se constipe aí às voltas à noite.”
“Foi só uma voltinha, quer que deixe encostada?”
“Se faz favor filho, que já me custa a andar a baixar com a chave.”
“Fique descansada. Até amanhã.”
“Até amanhã filho, olhe que a luz das escadas no primeiro não funciona e não há maneira de arranjarem o elevador.”
“Obrigado, força...”

Conforme subia as escadas, depois de cuidadosamente ter deixado a porta da entrada encostada, ocorreu-lhe que aquele prédio nunca tinha tido elevador. Teria de referir isso na próxima reunião de condomínio, pois andavam a tratar do arranjo há meses.

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