4.5.12

Guia para molhas com estilo e molhas sem estilo


Ontem – Jovem com mão engessado toma uma decisão – irá ao hospital a pé, pois a chuva fez uma pausa. Leva na sua sacola moderna um chapéu de chuva pequenote, que talvez tenha surripiado a um idoso. A meio do caminho começa a chover moderadamente e o jovem saca do chapéu de tamanho ligeiramente ridículo. Empunha-o com os deditos livres na mão engessada, já que a mão livre está a ser usada para manter o casaco fechado, pois o braço direito não cabe na manga.

A três quartos do caminho, os deuses resolvem escoar a banheira em que tomavam um banho de imersão. Vendo que o seu chapéu ridículo pouco protege, o jovem resolve focar o esforço em manter pelo menos o gesso fora da versão aquática. De repente, dá por si num fino passeio no meio da estrada, frente ao hospital, com um braço ao peito, uma mão agarrada ao casaquinho, um chapéu deprimente e totalmente encharcado da cintura para baixo. Se não estivesse com vontade de rir pela sua figura, teria dado uma moedinha e um abraço reconfortante a si mesmo.


Hoje – Jovem equipado a rigor de calção e tshirt de elevado grau técnico-desportivo olha para o céu à saída de casa, às primeiras horas da manhã. A tshirt tem uns dizeres ligeiramente cagões “I finished the Lisbon 2011 Marathon”, mas o facto de ter sido dada pela organização e não bordada pela mãe, assim como a ausência de gente na rua naquele horário deixam-no de consciência tranquila. Entre relógios, iPods e um chip nos ténis, tem tudo o que precisa para tirar a ferrugem que um mês parado traz a quem está habituado a correr três/quatro vezes por semana, entre outros exercícios.

Falta apenas uma coisa para complementar o estilo, uma molha nas trombas. Estalam-se os dedos, arranca-se e, de repente, alguém lá em cima liga o duche. A música diz qualquer coisa como “Não importa o quanto tentes, não nos vais conseguir parar” e depois cataloga-me como renegado do funk. Há água por todo o lado, mas a vantagem de ires a correr é que podes pisar poças com desprezo, em vez de as evitares como um mariquinhas e a roupa ensopada colada ao corpo pseudo tonificado (um tipo também  tem direito a inventar na prosa que cria) só faz impressão quando paras.
Único factor anti estilo – quando entras em casa e os teus ténis molhados fazem um barulho que te leva a pensar que tens um Pato Donald escondido por entre os dedos dos pés.

11 comentários:

  1. Que inveja de conseguir pisar poças de água assim, despreocupadamente.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Faz parte do hábito. Ao fim de várias vezes a fazê-lo de forma inadvertida, às tantas resolves que mais vale tornar nisso numa atitude deliberada ;)

      Eliminar
  2. O duche, ontem, apanhou-me em cheio, guarda chuva apropriadamente deixado no automóvel. Só por causa disso, hoje, fiquei-me entre paredes.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Eu deixo sempre um chapéu no estaminé profissional. Desse modo tenho desculpa para não levar um quando saio de casa.

      De nada :p, faz parte de uma remodelação interna e de queixas nesse sentido que davam para encher um livro de reclamações. Se me voltarem a aparecer entusiastas do comentário em mandarim, voltamos à fórmula antiga.

      Eliminar
  3. ah! Gosto destes gajos bem mandados...Obrigada! ;-)

    ResponderEliminar
  4. Eu se tivesse uma dessas t-shirts, escondia-a bem escondida. A vaidade é um grande pecado, Mak!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Mais vale mostrar a tshirt do que o tempo final na dita prova...

      Eliminar
  5. Epá! Quando acabei o 1º parágrafo, quase derramei uma lágrima de tristeza. Parecia a história da menina dos fósforos. Eheheheh!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Era uma espécie de Oliver Twist aquático, mas com um camafeu da pior espécie ;)

      Eliminar
  6. Soa-me familiar: Munida de um guarda-chuva idêntico ao teu (mas que se virou do avesso ao fim de 5 minutos) e de um saco que tinha de segurar e tentar manter seco com a outra mão, vi-me de repente apanhada por uma chuvinha dessas de que tu falas. Dando por mim encharcada em sítios improváveis (tendo em conta que não estava no duche), mandei tudo às urtigas - a começar pelo guarda-chuva - e dirigi-me calmamente para casa (pressa para quê?), onde realmente me dei conta que também eu tenho Patos Donald a viver nos pés....

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. A preocupação é uma coisa irritante que nos faz sentir mal. Portanto, quando as coisas correm mal, o melhor é não nos preocuparmos muito...


      (gosto destes perfis sombreados a azul, parece que isto é só gente a comentar vinda directamente do programa de protecção de testemunhas)

      Eliminar

Se vais dizer alguma coisa, escreve, não fiques para aí a olhar.