18.5.12

Empregos, autoconfiança e que nunca vos digam que não fazem magia


Aqui há uns anitos, quando comecei a trabalhar na área onde ainda hoje estou, tive oportunidade de ter como big boss um indivíduo que aliava três coisas: era genial naquilo que fazia, muito frontal no trato com as pessoas (às vezes um autêntico casca grossa) e um entusiasta de jogos psicológicos em termos de gestão de pessoas.

O senhor, entre outras coisas, era mestre em pôr as pessoas a questionarem-se sobre as suas próprias capacidades. E, neste último capítulo, a história da autoconfiança é decisiva para sobreviver a isso num ambiente de pressão como era o caso. Conheci histórias de pessoas que lá, depois de postas em causa e entrarem num loop de dúvidas e receios, chegavam a ouvir duas ou três vezes o “My way” do Sinatra antes de lhe irem apresentar trabalhos. Outras houve que perderam 10kgs em três meses só com os nervos.

Depois de um início promissor, certo dia fui ter com ele e questionei-o sobre a minha progressão, tendo em vista melhores condições face aos resultados do meu trabalho. Às tantas chutou-me uma frase que me ficou na memória “Tu és bom, mas não fazes magia”. A coisa ficou por ali e eu, que sempre me habituei a questionar o meu trabalho como forma de fazer melhor, por instantes fui forçado a pôr em causa as minhas capacidades, dada a opinião de alguém que consideramos ser de top naquilo que fazemos. Apercebi-me então que, mais do que batalhar para mostrar o que sabia valer, tinha de lidar com o facto de ter chegado a um tecto ali.

Tal como eu, muitos percebem que em certos sítios há um tecto que se cria pelo facto de seres “o miúdo” e que, independentemente das tuas capacidades, não passas dali. Se queres progredir e acreditas em ti, tens de sair. Ficar é sinónimo de avinagrar ou definhar, consoante és autoconfiante e sentes que não te reconhecem o valor ou começas a acreditar que se calhar a culpa é tua, que podes já não ser tão bom como pensavas e por aí em diante. Um dia já nem o Frank Sinatra te salva, o teu trabalho começa a reflectir a forma como pensas e depois é muito difícil dar a volta.

Como tal, nem dois meses passaram até aceitar um convite para ir para outro sítio. Na despedida, sem qualquer inimizade, concluí a conversa com o futuro ex-big boss dizendo-lhe “Depois um dia mostro-lhe uns truques” e ele, que possivelmente já nem se lembrava bem da conversa, ficou a olhar-me com ar espantado. Um ano mais tarde, tive a oportunidade de participar num projecto com resultados positivos para além do que eu alguma vez esperava e, cromo que sou, não resisti a enviar-lhe um mail com um link que falava disso mesmo e disse apenas: “Há coisas que acontecem como que por magia.”

Tal como esperava, não respondeu.

Não pretendo com esta história dizer que sou o maior em calções mas simplesmente reforçar o seguinte – várias são as vezes na vida em nos vamos questionar em relação ao que fazemos e às nossas capacidades e é bom que o façamos. A questão é se queremos ser nós a responder ou se deixamos que sejam outros a responder por nós. 

4 comentários:

  1. Na vida, há os que fazem acontecer e há os que se deixam ir.
    Tive um chefe assim, um líder extraordinário, uma visão estratégica fora do normal. Ensinou-me praticamente tudo o que sei. Mas incentivava as pessoas picando-as e inferiorizando-as. Uma vez, disse-me em plena reunião de plano anual, que a minha equipa andava a tomar pouco café. Aquilo chateou-me um bocado, na verdade quando lhe disse que me ia embora, ele lá me tentou convencer que não, que tinha ali excelentes oportunidades, porque raio iria embora se tinha acabado de ser promovida. Respondi-lhe que era pelo café, que no outro lado ele existia em maior quantidade.
    Não achou muita graça e a conversa acabou ali mesmo.

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  2. Tens toda a razão.
    Mas antes de te dares por vencido tens que experimentar ouvir as canções do Barry White... "BW saved my life..."
    Bom... recentemente passei por fase durissima em contexto laboral. É dureza provares o que vales. Depois de ter provado o que tinha a provar chegou o meu momento de sair, porque sou a miuda ca do sitio e acho que cheguei ao meu tecto.
    Engraçadas, as coincidencias... é que tenho pensado imenso nestes assuntos ultimamente.
    Joana

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  3. Tenho bastante experiência na questão de gestão de pessoal, e cheguei à conclusão que nesse campo ninguém tem varinha de condão. Mas o problema decorre de que o português geralmente procura um emprego estável, e tem dificuldade em aceitar saltar de emprego em função de uma realização pessoal.
    Nesse aspecto, podes considerar-te uma (quase) excepção, poucas pessoas teriam a coragem de se aventurar, a menos que o ambiente provocada pelo big boss se torne insuportável.
    Em minha opinião, o chefe deve conhecer as limitações ou capacidades de cada um que trabalha consigo. Picar, resulta com uns e condiciona outros, limitando-os. Tem que se ter a perspicácia de conseguir filtrar a"informação" que cada um "passa"

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  4. Não há fórmulas infalíveis, isso é certo. Quer do ponto de vista de quem gere, quer de quem é gerido. Por vezes, esse sacríficio da estabilidade ou da insegurança leva a que muita gente entregue de borla as fichas da autoconfiança.

    E, no meu caso, nem o ambiente era insuportável, nem a minha vida estava numa fase em que poderia ser mais difícil arriscar uma mudança.

    Mas, sobre isso poderia elaborar a minha teoria dos três factores (retribuição, ambiente e trabalho) que são, para mim, uma análise base para ver se está na hora de mudar de sítio ou começar a pensar nisso.

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