14.5.12

Atrás do pavilhão da escola


Nos dias que correm, não sei se ainda é atrás do pavilhão da escola que se escondem as histórias que anos mais tarde vamos buscar para contar e passarmos por ex-jovens rebeldes. De facto, nem me interessa muito saber, porque cada geração tem os seus segredos e o nosso acordo é: eu não mexo nos deles e eles não se metem nos meus.

No entanto é impossível negar que, no percurso escolar de qualquer pessoa da minha idade, os pavilhões foram feitos para dividir os alunos entre os que contavam as histórias sobre o que se passava lá atrás e os que estavam lá atrás a criá-las.

Até porque não fazia sentido nenhum pensar no pavilhão como uma coisa criada a pensar no ensino, já que se tratavam na maior parte de câmaras frigoríficas no Inverno e saunas no Verão.

De épicos do romance trapalhão aos clássicos da fumaça havia apenas que juntar as pessoas certas (ou as erradas) para termos história.

Curiosamente, o apontamento que me vem de imediato à cabeça quando se fala em histórias atrás do pavilhão da escola foge um pouco deste âmbito.

A história deu-se numa altura em fui suspenso (nota: na realidade toda a turma foi suspensa e eu fui uma vítima das circunstâncias, cof cof). Para não acumularmos faltas, o conselho disciplinar dava oportunidade de trocarmos os dias de suspensão por trabalho comunitário na escola. A mim calhou-me ir limpar ervas no matagal que havia atrás dos pavilhões, o que não me seduzia tanto como outras actividades que se passavam no mesmo matagal. Como tal, exerci a minha arte de contar histórias e fiz ver à minha mãe que ir limpar uma zona em que já tinha sido encontrada uma vez uma seringa não era a melhor opção, face a ficar um dia em casa pois ainda não estava tapado por faltas. Preocupada com o seu rebento acedeu e eu tive um dia de férias.

No dia seguinte, fui à escola e um dos artistas que tinha ficado com a tarefa de limpar o matagal contou-me a ideia peregrina que tivera para simplificar a tarefa e que iria pôr em prática à tarde. Tentei dissuadi-lo, porque era aquilo a que se chama uma estupidez, mas ele foi inflexível e eu calei-me, pensando que o mais provável era ser só conversa.

Depois do almoço já me tinha esquecido disso, até que vi chegar o carro dos bombeiros. O gajo tinha efectivamente deitado fogo ao matagal de ervas atrás da escola, tentando fazer uma queimada controlada. Falhou e os pavilhões não arderam por sorte. Já ele, teve a sorte de ter o resto do ano de férias.

E foi assim que, durante o ano seguinte, não houve nenhuma história vinda das traseiras dos pavilhões da escolha, essencialmente porque não havia atrás do pavilhão da escola, tirando cinzas e mato ardido. Até que o amor e as ganzas renasceram das cinzas.

8 comentários:

  1. No meu tempo, era mesmo na casa de banho, o basquete exercitado com as beatas lançadas para o autoclismo e este sempre entupido, naturalmente sem serventia. Mas também, que se atrevia a usar o wc para largar o "farnel"?

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    1. Enquanto fã e jogador de basket, preferia exercitá-lo no ginásio, através da cunha metida junto da funcionária que tratava do dito cujo.

      A troco de uma sobremesa ou coisa parecida (vá lá, não eram favores sexuais) tínhamos aquilo à disposição até à primeira aula da tarde.

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  2. Que engraçado, também me lembro das traseiras do Pavilhão por outro motivo que não o das actividades ilícitas - eu era das que não frequentava: Uma professora minha achou, certo ano, que era boa ideia pintarmos um mural para dar áquele antro de perdição um ar mais cultural. E lá passámos uma data de intervalos grandes, besuntados de tinta, a criar uma obra de arte debaixo dos olhares de desprezo da malta cool. A coisa era tão má que incluía lá para o meio da pintura a célebre pergunta abrunhósica: "E eu e tu o que é que temos que fazer?" Felizmente já deitaram o raio do muro a baixo.

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    1. Infelizmente, não há quem deite o Abrunhosa abaixo, tirando ele próprio em momentos perturbantes mas, ainda assim, cómicos.

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  3. Já fui feliz atrás de alguns pavilhões de escolas. Ou era isso ou as hormonas a bombarem ao máximo.

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    1. Dizem experiências científicas que as hormonas se expandiam exponencialmente nas traseiras de pavilhões.

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  4. atrás das oficinas, para mim. =)

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    1. No meu caso também haviam oficinas, traseiras do edifício, do ginásio, do pavilhão auxiliar e, para os mais afoitos, um descampado mesmo ao lado do muro.

      Só privilégios ;)

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