17.4.12

Pisei um pensador contemporâneo no Metro



Não é uma espécie tão rara como o nome pomposo indica. Os jornais falam sempre com uns quantos, na televisão surgem outros tantos e nos obituários de publicações respeitadas caem sempre mais uns. Aliás, ainda outro dia ia a andar na plataforma do Metro quando reparei que alguém tinha deixado no chão um pensador contemporâneo. Ainda pensei que fosse da senhora que tinha o saco do Pingo Doce, mas ela nem sequer reparou nele, pisando-o. Chegou o Metro e entrou toda a gente menos eu, que fiquei a vê-lo partir e a deslocação do ar a fazer o pensador contemporâneo ficar por ali a pairar sem destino.

Com um toque em habilidade dei-lhe um pontapé para que não caísse no chão e ele não gostou, ganindo qualquer coisa sobre o declínio dos valores da sociedade e o isolamento sensorial dos indivíduos. Apanhei-o com uma mão e reparei que era leve no peso embora denso no raciocínio.

Por um instante pensei como é que se podia estudar para pensador contemporâneo ou se era uma coisa que se apanhava em miúdo ou até numas férias exóticas. Não cheguei a nenhuma conclusão e do pensador que tinha colado à mão só ouvia que o amor é o sal da vida, mas que esta também sofre com o colesterol.

Talvez todos sejamos pensadores contemporâneos, estilo mononucleose, mas a coisa só se revela nalguns casos anómalos. Comecei a pensar então que se calhar já estava afectado e que ia começar a falar de um modo distanciado da realidade em que me insiro.

O bandalho já me estava a passar a cena. Sacudi-o rapidamente das mãos enquanto ele balbuciava algo sobre o capitalismo ser a nova fronteira e o egoísmo uma nacionalidade em ascensão.

Pisei-o e deixei-o quietinho ao pé do gratuito enrolado. Decidi que isso de pensador contemporâneo não era para mim e que ainda havia tempo para formar uma boys band da escrita.


Nota: o Metro na imagem é o de Budapeste, porque fica bem e condiz com o tema. Já este episódio teve lugar em Cabo Ruivo.

2 comentários:

  1. E eu que sempre almejei a ser um pensador contemporâneo, especialmente por causa da sua imagem desleixada, a barba por fazer (por preguiça e não por qualquer questão estética) e os sapatos cambados. Ah! e sem meias. Sempre sem meias.
    Agora fiquei desanimado...

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  2. O Metro de Budapeste tem escadas rolantes mais compridas que as da Baixa-Chiado para o Camões e azulejos cor-de-laranja. Já o teu texto está inspirador. Também gostava de dar umas pisadelas dessas.

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